Diante da adversidade, uma lady

Acho que posso dizer sem medo de errar que sou uma das pessoas que mais conhecem Marina. Sendo assim, sei muito bem que é uma criaturinha doce demais. Mas ela conseguiu me surpreender bastante nesta quarta-feira de janeiro, de férias, de verãozão.

Marina enfrentou uma adversidade, uma reversão de expectativa danada de chata, com uma fleugma de fazer inveja aos mais fleugmáticos de todos os súditos de Elizabeth Alexandra Mary da casa de Windsor.

Já tínhamos combinado com a mãe, e no início da tarde combinamos com a Cau: pegaríamos as duas às 3 horas da tarde para levar a pequena, pela primeira vez na vida, ao Parque da Aclimação. A Cau gravou a voz da pequena agradecendo à vovô: – “Obrigada, vovó. Tó te espelando”, ela disse para o celular da Cau.

Chegou ao carro linda, de Elsa, penteadinha de Elsa, cabelinho alisado, juntado todo numa trança elsística.

Levamos meia hora para chegar até o Parque. Já na Paulista começou a chover. Fomos até lá mesmo assim, na esperança de que a chuva poderia passar. Estacionamos ao lado do parque – e a chuva não parava.

Mary e eu pensamos em algum plano B, e o que poderia haver seria o Aquário no Ipiranga – mas àquela altura eram 15h40, levaríamos 20 minutos para chegar até lá, e não teria muito sentido pagar os ingressos caros para ficar lá uma hora apenas.

E então dissemos pra Marina que… diacho, estava chovendo, e não daria nem para esperar a chuva passar, porque parecia que a chuva não iria passar tão depressa, e os brinquedos estariam todos molhados.

Marina não chorou, não reclamou, não choramingou, não objetou.

Falou assim: – “É, os brinquedinhos vão estar todos molhados…” E depois, ou antes, falou: – “Chuva rebelde…”

Aaaaaah…

Eu sei que Marina é doce, é fofa, é especial. Mas, cacete, diacho, como é possível?

Aos 3 anos e 10 meses incompletos, Marina enfrenta uma adversidade danada, uma reversão de expectativa muito chata… fleugmática como uma lady inglesa!

Como diria minha amiga Sheila Lobato, Marina é uma lady, porra!

***

Dissemos que o jeito era voltar. E perguntamos se ela queria brincar na casa do vovô e da vovó ou na casa dela. Respondeu, de prima, firme, que queria a casa dela. Enfrentou mais meia hora de trânsito sem se queixar de absolutamente nada.

O CD do carro tocou “A Bailarina”, de Vinicius-Toquinho, com Lucinha Lins, que Marina adora. Quando Lucinha Lins falou em petit jeté, comentei que na Peppa Pig ela também fala nesse passo. Marina foi rapidíssima: – “Na Peppa é grand jeté!”

Aí a Cau provocou: – “E quando o Papai Pig e a Mamãe Pig dançam, como é?” E a petite, rápida que nem John Wayne no gatilho: “Pas de deux!”

Ai, ai.

***

Não foi de propósito, mas a avó, a Cau e eu brincamos tanto, e tão gostoso, com ela em casa que ela realmente não tinha por que queixar de ter perdido o Parque.

Mas, meu, a criatura enfrenta adversidade melhor que a mãe dela enfrentava na adolescência! Melhor que o avô enfrenta na velhice!

12/1/2017

5 Comentários

  1. Marinete Veloso
    Postado em 13/01/2017 às 5:45 am | Permalink

    Delícia de criança! Lindo e amoroso texto! De agora em diante, quando uma chuva me atrapalhar, vou chamá-la de “chuva rebelde”; adorei a expressão…
    Marina, você é o máximo!

  2. Indiacui - Maria Luc
    Postado em 13/01/2017 às 2:03 pm | Permalink

    Que texto lindo, vô! Que poesia! Adorei!

  3. Postado em 15/01/2017 às 7:55 pm | Permalink

    Sérgio e Mary: tão bonita a sua matéria no blog sobre o passeio ao Parque da Aclimação com Marina, no dia da ‘chuva rebelde’. Ela é excepcionalmente inteligente e boa – sensível e reflexiva, parece já estar na ‘nova onda’ de pensamento, que, quem sabe, ainda salvará a parte desde jardim que era a Terra que ainda possa ser salva. Existem já pequenos seres excepcionais – modestamente, como as nossas netas – mas que se manifestam de maneira diferente. Camila é toda explosão e energia, Marina é doçura e luz. Ainda tenho o sonho de que elas se conheçam, e, sem nossa interferência, troquem suas visões de mundo e idéias para salvar gentes e bichos. Camila já teve a fase, aos seis anos, de querer “ser judia e preta, para “lutar por dentro contra o preconceito”, e ama escrever e conviver com crianças com necessidades especiais. Não sei quais são as preferência de Marininha – mas como gostaria de, um dia desses (moro perto do Parque da Aclimação) ir com esses dois serezinhos iluminados passear entre árvores e bichos – e deixar suas almas se elevarem para a beleza da natureza. Camila é tudo que me restou dos belos tempos antigos – em que Flavio e Paulinho me faziam viver de novo a infância e a inocência – eu, que só tinha 23, 24 anos – e achava que a felicidade era um estado ‘normal’ e eterno. A vida retificou a minha crença – e hoje, sem Flavio, vivo de saudade e lembranças. Ele me enviou uma pequena mensagem – “sempre teremos as fotografias e as lembranças”. Achei engraçado – porque tenho organizado, entre lágrimas e sorrisos, fotos lindas que guardei, sem saber que as reveria em meio à dor. Esta é a mais linda de todas – o enorme carinho de Flavinho pelo irmãozinho que seria o seu maior amor pela vida afora, o melhor amigo e parceiro, como se fosse ele o irmão mais velho.

  4. Lucia Zaidan
    Postado em 19/01/2017 às 3:36 pm | Permalink

    E incalculável o encantamento que me invadiu ao ler seu artigo sobre o passeio (nÃO feito)com Marina ao Parque da Aclimação.Foi delicioso ver como a pequetita se portou diante da adversidade. Isso nos leva a crer que ela saberá levar a vida com leveza e confiança.Viva a nossa Marina!Sou feliz por ser sua Zibisa.

  5. MILTINHO
    Postado em 24/01/2017 às 4:46 pm | Permalink

    Vamos caminhar vovô.

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