Bob Marley e Bob Mugabe, o sonho e o pesadelo

Uma das coisas mais tristes do mundo é quando uma pessoa saudada como herói, guerreiro, libertador, se transforma em ditador.

Outra das coisas mais tristes do mundo é ver pessoas inteligentes, sensíveis, poetas, sonhadores, não perceberem quando o sonho acaba e vira pesadelo.

Em 1980, apenas um ano antes de morrer tão jovem, aos ínfimos, ridículos 36 anos, Bob Marley cantou para Robert Mugabe, então o líder guerrilheiro que enfrentou os colonizadores brancos, venceu e transformou a Rodésia em Zimbábue, uma nova nação africana livre dos invasores imperialistas.

Estaria Bob Marley lamentando hoje, se estivesse vivo e ainda absolutamente ativo aos 72 anos, a queda do companheiro Mugabe, assim como tantos grandes artistas que povoaram nossas vidas com suas canções belas e indispensáveis lamentaram a ida de Fidel Castro para se encontrar com as centenas de cubanos que mandou matar?

Robert Mugabe governou o Zimbábue com mão de ferro durante 37 anos. Ao finalmente ser apeado do poder agora, deixa seu país com uma taxa de desemprego de 95%, 14% da população infectada pelo vírus HIV e uma inflação anual de 348%, a segunda maior do planeta neste momento, atrás apenas dos 1.400% do socialismo século XXI da ditadura Chávez-Maduro.

Ele mesmo não passou jamais por qualquer tipo de dificuldade financeira, naturalmente. A sra. Mugabe, Grace, é chamada de Gucci Grace, por motivos óbvios.

Quando os ex-heróis, ex-libertadores, viram ditadores, costumam praticar para si mesmos o capitalismo mais selvagem possível. Estão aí as dachas da nomenklatura soviética que não nos deixam mentir.

Estaria Bob Marley lamentando a queda do homem para quem foi cantar em Harare em 1980?

Ou, muito ao contrário, comporia um reggae para festejar a boa notícia com o povo oprimido, sofrido, nas filas, nas vilas, favelas do Zimbábue?

22/11/2017

Como tem absolutamente tudo, o YouTube tem a íntegra do concerto de Bob Marley em 18 de abril de 1980. A imagem não é das melhores, mas o som é ótimo. 

Um texto da agência Reuters sobre o concerto foi reproduzido no Estadão desta quarta-feira, sob o título “O país se rende ao rei do reggae“.

Transcrevo: 

Robert Mugabe ainda era um herói quando seu homônimo, Bob Marley, um jamaicano de longos dreadlocks e o maior nome da história do reggae, subiu ao palco do Estádio Rufaro para tocar na festa de independência do Zimbábue, em abril de 1980. Marley pagou do próprio bolso o voo e o traslado do equipamento necessário de Londres para Harare para a apresentação.

A ideia de trazer Bob Marley para se apresentar no Zimbábue se deve a dois empresários da cena musical de Harare, Job Kadengo e Gordon Muchanyuka. Convencidos de que o rei do reggae era o melhor nome possível para se apresentar na festa de independência que celebraria o fim do governo de minoria branca na antiga Rodésia após anos de guerra civil, os dois voaram para Kingston, na Jamaica a poucas semanas do evento. O desafio era convencer Marley a se apresentar na África.

Chris Blackwelll, empresário do cantor no Wailers, era contra. No entanto, o jamaicano havia acabado de lançar o álbum Survival, que aprofundou suas críticas ao sistema capitalista e ao racismo institucionalizado. No LP, ele gravou uma canção chamada Zimbabwe, em apoio aos grupos guerrilheiros que lutavam contra o governo branco da Rodésia. Marley acompanhava de perto a guerra de libertação e decidiu aceitar a proposta.Mas Marley acompanhava de perto a guerra de libertação conduzida por guerrilheiros no Zimbábue e decidiu ir.
Sua música inspirou o Zimbábue. Guerrilheiros da Frente Patriótica ouviam cassetes de seus discos. O reggae era ao mesmo tempo uma fuga e uma inspiração no front.

Marley chegou ao Aeroporto de Harare em 16 de abril de 1980, protegido por um forte contingente policial, com 21 toneladas de equipamento e um sistema de som de 35 mil watts trazidos em um boeing 707.

A chegada dos Wailers a Harare foi um evento. Desde a implementação de sanções contra o país na década de 70, o Zimbábue estava praticamente excluído do cenário internacional.

Marley e sua equipe passaram a noite no Hotel Skyline, e saíram com guerrilheiros da Frente Patriótica para conhecer a cidade. No dia seguinte, ele fumou maconha com produtores da erva em Mutoko, cidade a 143 quilômetros da capital.

À tarde, ele foi para o estádio. Pela primeira vez, a bandeira verde, dourada e preta do Zimbábue foi hasteada. O local estava lotado. A polícia se precipitou e lançou gás contra a multidão. O gás chegou ao palco e a banda teve de sair, para voltar momentos depois. “Agora eu sei o que é um verdadeiro revolucionário”, disse Marley à sua mulher Rita, no backstage.

Rei do reggae, Robert Nesta Marley morreria um ano depois, vítima de câncer. Herói da independência, Robert Gabriel Mugabe governou o Zimbábue como um déspota por 37 anos.

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