Anatomia de um desastre

Só agora, com a divulgação da queda do PIB de 2016, temos a verdadeira dimensão da tragédia construída ao longo dos governos Lula-Dilma, que fez a economia brasileira retroceder aos níveis de 2010, com uma queda nunca vista em nossa história. Não deixa de ter razão o jornalista Clovis Rossi ao caracterizar a queda em 10% da renda dos brasileiros e a geração de um exército de 13 milhões de desempregados como um crime de lesa pátria.

Atribui-se à ex-presidente Dilma Rousseff a autoria pela maior recessão da história do país. É verdade, mas em parte. As bases de uma catástrofe anunciada foram lançadas nos anos Lula, com sua política de subsídios seletivos, de expansionismo fiscal, de abandono dos fundamentos econômicos, da política dos campeões nacionais, de namoro com a inflação, de intervencionismo e dirigismo estatal.

E também das pedaladas, do represamento de preços, do populismo tarifário, do aparelhamento do Estado e da utilização do BNDES como financiador de um projeto de poder – o chamado Estado-Odebrecht; como apropriadamente o caracterizou outro conhecido articulista, Demétrio Magnoli.

Criador e criatura legaram ao país uma terra arrasada.

Como foi possível chegar a isso?

A resposta está no livro Anatomia de um Desastre, lançado no final de 2016 e escrito por três grandes jornalistas econômicos: Cláudia Safatle, diretora-adjunta de redação e colunista do Valor Econômico, João Borges, repórter e comentarista de economia da Globonews, e Ribamar Oliveira, repórter e colunista também do Valor. Trata-se de leitura obrigatória para quem quiser entender os descaminhos da economia nos 13 anos do lulo-petismo e saber como, um por um, foram destruídos os fundamentos da boa economia que, se não tivessem sido descontinuados, teriam proporcionado aos brasileiros o ingresso no grupo dos países com crescimento sustentado e com índices mais palatáveis de desenvolvimento humano.
Vamos a alguns lances do livro.

Na manhã de 19 de fevereiro de 2003 o Copom se reunia pela segunda vez no governo Lula para decidir qual seria a taxa de juros básicos. Um mês antes, a equipe de Henrique Meirelles, então presidente do BC, deu prosseguimento à política de aumento da Selic adotada pelo seu antecessor, Armínio Fraga. Os juros tinham subido em janeiro para 25%, com o respaldo dos três homens fortes do governo – Antonio Palocci, José Dirceu e Luiz Gushiken.

Tudo conspirava para ser uma reunião tranquila. O time estava prestigiado. Mas, de repente, o ambiente ficou turvo. O presidente do BC é chamado para atender um telefonema no seu gabinete. A tensão se justifica. De acordo com o ritual do Copom, ninguém deixa a sala de reunião enquanto se discute a taxa de juros, a não ser para atender um chamado do presidente da República ou do ministro da Fazenda.

Os 15 minutos de espera pareciam uma eternidade. Quando Henrique Meirelles retorna à reunião sua expressão facial era a de um homem tenso. De forma enigmática, dá uma pista sobre o teor do telefonema: “Politicamente vai ser complicado aumentar os juros”.

Não diz quem estava no outro lado da linha, mas era fácil de intuir: Lula.

Com anos de janela, o diretor da área de Liquidações, remanescente da diretoria anterior, propõe uma interrupção para o almoço em conjunto para que fosse costurada uma decisão por unanimidade. Quando a reunião é retomada, o clima ameno tinha voltado. Ao final, o Copom divulgou a decisão de elevar a Selic para 26,5% e de aumentar o compulsório sobre depósitos à vista de 45% para 60%. Esse e outros episódios do embate desenvolvimentistas e ortodoxos (ou neoliberal, como os xingava Guido Mantega) no interior dos governos lulo-petistas são dissecados de forma magistral pelos autores de Anatomia de um Desastre. A corda sempre rompeu do lado dos “ortodoxos” por uma simples razão: a cabeça de Lula sempre esteve mais para a Carta de Olinda, que preconizava a ruptura com o “modelo neoliberal de FHC”, do que para o “Lulinha, paz e amor” da Carta aos Brasileiros, com sua promessa de respeito aos contratos e aos fundamentos macroeconômicos.

A reunião do Copom de fevereiro de 2003 foi a última grande vitória dos ortodoxos. Como o livro revela, a adesão de Lula a uma política econômica responsável foi apenas um movimento tático, pois a partir de 2006 a economia passou a se subordinar à política, ou melhor, aos objetivos políticos do caudilho, a começar por sua reeleição e posteriormente à eleição de Dilma.

Dramaticamente, o livro narra como o país perdeu, em 2006, oportunidade de ouro de sanear suas contas com a adoção do déficit nominal zero – proposta de Palocci e de Delfim Neto – e de baixar a meta da inflação para 4%, o que aumentaria a credibilidade da política econômica e reforçaria o grau de confiança dos investidores.

Nas páginas do livro desfilam figuras impagáveis, que serão apreciadas pela história, para o bem ou para o mal. Delas, Henrique Meirelles sai como um servidor com muitos serviços prestados à pátria. Guido Mantega como um bufão, um Polyanna que só meteu os pés pelas mãos. E Dilma e Lula – com maior peso para o caudilho – como os grandes responsáveis pelo desastre anunciado.

Há também figuras menores, desconhecidas do grande público, mas com um poder imenso no reino do lulo-petismo. Uma delas, Arno Augustin, “um trotskista no comando do Tesouro”. Era a alma gêmea de Dilma, iguaizinhos no estilo voluntarista, centralizador e autoritário. Era pela boca de Arno que Dilma enquadrava os demais membros da equipe econômica.

Quem ler o livro deve ficar atento a uma ilustração bem no miolo. É uma reprodução da entrevista de 2009 do então ministro da Fazenda Guido Mantega às páginas amarelas da Veja, na qual faz a seguinte premonição: ”Ninguém mais quer saber de déficit público e inflação. Se no futuro for eleito um presidente irresponsável ele terá de se submeter às regras do jogo ou será impichado.”.

E não é que Mantega acertou uma?

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 15/3/2017. 

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