A sabedoria do desapego, a arte do bom humor

Agora, se fosse para falar sério, como na canção doída e linda de Chico do disco de 1970 …

(“Dou um chute no lirismo / Um pega no cachorro / E um tiro no sabiá / Dou um fora no violino / Faço a mala e corro / Pra não ver a banda passar.”

Se fosse para falar sério, teria eu aprendido, ainda que apenas um pouquinho, alguma coisa da sabedoria infinda do desapego, com a dura lição que tive nos dois últimos meses de ser obrigado a revirar cada livro, cada disco, cada DVD, cada pasta, cada caixa, cada um, enfim, dos suportes físicos desta casa absolutamente atulhada de suportes físicos?

Não sei.

A mais verdadeira resposta é esta. Não sei.

Sim, me desapeguei de muita coisa. Botei fora carradas e mais carradas de revistas, coleções inteiras. Muitos livros. Até mesmo muito DVDs, coisa mais recente. Porradas de fitas cassete, que ainda guardava em caixas escondidas nos lugares mais recônditos, embaixo de muita areia do tempo. Coisas absolutamente inúteis, como canhotos de cheques, comprovantes de pagamentos de contas dos anos 90…

Algumas revistas não fariam e não farão falta alguma, jamais – revistas de lançamentos de DVD, de CD…

Jogar fora, dar num sebo as coleções das revistas Première francesa e Premiere americana de cinema, isso me doeu um tanto. Ou bastante, ainda não sei avaliar direito.

Resolvi não abrir mão da coleção da Studio, a mais bela revista de cinema das últimas décadas. Guardei. Muito provavelmente nunca mais vou ler ou sequer folhear qualquer um dos exemplares – mas fico feliz em saber que eles estão todos ali no Buraco Número 2 do escritório, perto do meu dedo mindinho do pé esquerdo. Não é muito fácil chegar até lá: é necessário retirar a tábua de madeira sobre rodinhas onde ficam minha CPU e meus pés, e aí me agachar embaixo da mesa em que ficam minha tela e meu teclado, e então, numa manobra contorcionista, mexer no Buraco Número 2.

Mas me consola, e muito, saber que eles estão ali, todos os exemplares da Studio. Se eu quiser mexer com eles, é só fazer um esforcinhho físico, e pronto.

***

Ah, mas se botei fora uns 200 exemplares da Première francesa e outros 200 da Premiere americana, então sou capaz da santa, da excelsa sabedoria do desapego…

Será?

Sei não. Não me sinto nem um pouquinho mais santo, nem um pouquinho mais sábio, nem um pouquinho mais perto de Buda ou do Nirvana porque tive que me desfazer de uns oito carrinhos de supermercado de suportes físicos.

(Sim, foram uns oito carrinhos de supermercado. Aqui no prédio temos um carrinho que fica na garagem; subi com ele vazio e desci com ele cheinho de suportes físicos que iriam para o lixo umas oito vezes, ao longo destes dois meses negros de descupinização e pintura da casa.)

O que sinto é que me desfiz de um bando de livros, de discos, de DVDs, de revistas não porque eu estivesse a fim, mas porque não tinha outro jeito. Porque não cabia mais nada na casa. Porque as estantes estavam todas feias demais, atulhadas, com coisas fora do lugar, a casa toda com um jeito favelento por causa disso e Mary se queixando e querendo que tudo ficasse mais agradável de se ver.

Não foi desapego. Foi porque não tinha outro jeito.

(Me custa um pouco admitir isso, mas a verdade é que a casa ficou bem melhor. Duzentas vezes melhor.)

***

Mas o texto está sério e chato.

Toda a idéia de falar aqui da descupinização e pintura da casa como se fossem as aventuras de um Indiana Jones encontrando tesouros perdidos sob as areias do tempo foi para enfrentar a barra pesada, a chatice, com bom humor. Queria combater a obrigação chata com alguma brincadeira – como tentei fazer, por exemplo, quando parei de fumar.

Diacho: verdade! Parar de fumar é algo muito parecido com jogar fora suportes físicos. A gente não faz porque quer, porque é gostoso, porque é sensual, porque é simpático, porque é charmoso – faz porque tem que fazer e não tem outro jeito, cacete!

OK, mas pra que lembrar disso agora? Agora era a hora de começar a mudar o tom, mudar o clima. Deixar de lado a chatice, e, diacho, aproveitar algum bom humor, que é o que há de bom na vida.

Verdade.

***

Uma das coisas mais gostosas que revi, neste processo de mexer com tudo que há dentro de casa, foi uma pastinha chamada “Folclore havaiano”.

Há ali vários desenhos, feitos por diferentes colegas do Jornal da Tarde, gozando a minha cara por causa da minha viagem ao Havaí.

Em 1981, fui ao Havaí – a trabalho, ao menos teoricamente. Era uma daquelas bocas-livres fantásticas: a Pan Am, então toda poderosa, estava abrindo uma ligação São Paulo-Rio-Honolulu, via Miami e Los Angeles, e então convidou os grandes órgãos de imprensa para fazer a viagem, com paradas na ida em Los Angeles e na volta em San Francisco, hospedagem nos maravilhosos hotéis da rede Intercontinental, que pertenciam ao conglomerado Pan Am.

Cada jornal ou revista escolhia uma dupla de texto e foto, é claro, de acordo com os seus próprios critérios. O Estadão, por exemplo, fez a escolha objetiva, profissional: escalou Janete Gutierre, competente, séria (além de linda), que editava o Suplemento de Turismo. No JT, o convite era para o Sandro Vaia, que na época editava a Variedades, onde saíam as matérias de turismo. Por algum motivo o Sandro não podia ou não quis ir – e eu acabei premiado com a fantástica boca-livre.

Hoje, pode parecer estranho que tenha havido tanta gozação só pelo fato de eu ter ido ao Havaí, mas é fácil explicar. Em parte, é simplesmente porque as redações – como  já falei no capítulo anterior – eram alegres, bem humoradas, e tudo era motivo de riso, de gozação. Em parte, é porque eu tinha fama de comunista, anti-American way of life, sisudo demais em relação às coisas éticas.

E então a viagem fez a alegria de um monte de gente na redação do Jornal da Tarde, que passaram dias e dias me gozando antes da ida e depois da volta.

Ah, meu, quer coisa melhor na vida do que rir, achar graça, curtir, saborear as delícias do bom humor?

***

Quer saber? Não vou reclamar se não conseguir aprender na vida a arte, a sabedoria profunda do desapego. Gostaria de continuar vivendo e aprendendo a arte, a sabedoria do bom humor.

Com a casa cheia de suporte físico – ou não. Isso, a rigor, importa muito pouco.

29/12/2017

Para ler o capítulo anterior.

Um Comentário

  1. Luiz Carlos Toledo
    Postado em 09/01/2018 às 1:34 am | Permalink

    “Conhecer” um trotskista-dylanista-jornalista-vigarista, com fama de comunista, que já foi ao Havaí numa boca-livre da Pan Am, é realmente impagável.

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