A roçar-se pelo delírio

Aí estão eles, embrulhados na mesma cama: Kennedy, o pai de todos os Kennedys, e Gloria Swanson, a maior diva dos anos 20. Kennedy despachou o marido da Swanson para um dia de pesca no alto mar e mandou Rosa, sua mulher, ter o oitavo filho em Boston, longe de Hollywood. Livres, foi uma cama diária de três anos e não lhes chegava: levaram os lençóis para o cinema.

Kennedy era já o estratega financeiro de três grandes estúdios. Ficou também à frente da produtora de Gloria. Subiu-lhe, do baixo-ventre à cabeça, a vocação de produtor. Chamou o mais heterodoxo génio de Hollywood, Eric von Stroheim, e pediu-lhe uma obra-prima para o metro e cinquenta de mulher que o fazia roçar-se pelo delírio. O que Stroheim lhes contou aterraria o mais pintado.

Vejamos, Gloria Swanson seria, no filme, uma lindíssima noviça. Mas o noivo de uma rainha iníqua e louca poria nela a cobiça dos seus olhos lúbricos. Apontar-lhe-ia para os tornozelos a dizer que lhe caíra aos pés a mais íntima peça de lingerie. Ela, humilhada e em fúria, tiraria a cobiçada peça e, escandalizando as freiras, atirava-lha à cara. O príncipe cheiraria com vagar os folhos do troféu e raptaria a dona, imiscuindo-se-lhe na desprotegida inocência. Não quereria já casar com a rainha. A funestíssima soberana descobriria, chicoteando a já pouco noviça e expulsando-a do reino. A fugitiva de Cristo desaguaria em África, a dirigir com tal estúrdia um bordel, que lhe chamariam Queen Kelly.

A esta edificante história do próprio Stroheim, chamou ele “The Swamp”, pântano, se for mal traduzido, ou lamaçal, se quisermos ser autênticos. Kennedy e Swanson chamaram-lhe pêra doce. E meteram-lhe, primeiro um, depois todos os dentes. Foi a mais mítica de todas as catástrofes da história do cinema. Um vingativo acto de Deus.

Nas filmagens, Kennedy submergiu Swanson em generosidade e galantaria. Construiu-lhe um chalé, deu-lhe casacos de arminho. O mundo deles tinha a leveza de umas farófias do meu querido e falecido senhor Armindo. Mas o filme, Queen Kelly, foi um desastre sublime. E Kennedy voltou a financeiro, pondo-se ao fresco da pele de produtor. Swanson, sozinha, foi ver as contas. Devia um milhão de dólares, num rol que incluía o generoso chalé e os galantes casacos de arminho.

Será extrapolar muito dizer que começou aqui um certo penchant catastrófico da família Kennedy por Hollywood?

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*