Uma das melhores coisas da vida

1960's - Somzinho

1973, somzão

Em 1972, meu quinto ano de São Paulo, eu já estava bem melhor de vida. Pude alugar o primeiro apartamento só para mim, depois de dividir quarto de pensionato e apartamentos com amigos. Tá certo que era na General Jardim esquina com Rio Branco, em plena Boca do Lixo – ainda não havia a Cracolândia –, mas era só meu, e pude comprar meu primeiro aparelho de som.

Passar das vitrolinhas Philips (na foto do alto, a da casa do Guabirotuba, Curitiba, onde vivíamos em 1967 meu irmão Geraldo, Jorge Telles e eu) para um conjunto de som – pick up inglês, marca BSR, receiver, grandes caixas acústicas – é um dos maiores upgrades que pode haver na vida.

Tenho ótimas lembranças do ano e meio que passei no apê da Boca do Lixo. Em boa parte, por causa de Suely: ela ficava bastante tempo lá, muitas vezes estudando (na foto), outras conversando, ouvindo música. Recebíamos amigos lá, namorávamos. Foi lá que começamos a transar, os dois muito jovens e ainda desajeitados, mas com muito carinho um pelo outro. Ela saiu da Casa Verde e eu saí de lá no final de 1973, quando casamos e fomos para o apartamento da Bela Cintra com Costa, herdado de Marisa e Humberto Werneck, que estavam de saída para a França.

Em outra boa parte, as ótimas lembranças do apartamento da General Osório são por causa do som maravilhoso.

1973, junho - Filme 1 - 27650035 - 550Os primeiros discos que comprei depois da chegada do toca-discos BSR, do receiver Lab 40 e das imensas caixas também da Gradiente – lembro perfeitamente, como não lembrar? – foram Come From the Shadows,  o primeiro de Joan Baez para sua então nova gravadora, a A&M, e Peter, o primeiro solo de Peter Yarrow, sem Noel Paul Stookey e Mary Travers, ambos recém lançados naquele ano mesmo, 1972.

Tomei muita, mas muita, mas muita cachaça ouvindo os belos discos de Peter Yarrow e Joan Baez, ambos com muito baixo, muita guitarra, muita bateria – para quem até alguns anos antes só gravava com suaves violões acústicos.

Quando o baixo entrava depois de uma rápida abertura acústica na primeira faixa do disco de Peter, “River of Jordan”, eu me sentia literalmente às portas do paraíso.

Come from the Shadows foi mais um disco de Joan gravado em Nashville, com músicos de country de primeiríssima qualidade – teclados, guitarra, guitarra de aço, bateria, percussão, outra steel guitar, mais outra guitarra, mais Norbert Putman no baixo – que baixista, Norbert Putman! –, cordas em algumas faixas.

Às portas do paraíso.

Estava de fato melhorando de vida, no terceiro ano no Jornal da Tarde, já trabalhando como copydesk, salário aumentando – como o JT pagava bem, meu Deus! Tanto que já começava a comprar discos importados, no Museu do Disco da Rua Dom José de Barros e na Bruno Blois e na Breno Rossi da 24 de Maio.

Me lembro de chegar do jornal tardão da noite e botar Blonde on Blonde – importado! – pra ouvir. Para não incomodar demais os vizinhos, muitas vezes deitava no chão, perto de uma das caixas. Foi por aí também que comprei meu primeiro fone de ouvido, um troço gigantesco, caro, de boa marca – da qual, infelizmente, não me lembro.

Ao conjunto básico pick up, receiver e caixas, adicionei um descolado  rádio Taterka, AM e FM, e um elegantíssimo gravador de fita cassete Sony, com Dolby. Foi quando comecei a gravar minhas primeiras fitas – mania que tenho até hoje, tendo apenas substituído o meio fita cassete por CD-R.

***

Ah, saudosismo de velhinho.

***

zzzzonkyo1 - 720

zzzzonkyo2 - 720

Me lembrei do primeiro som da minha vida, depois das vitrolinhas Philips, porque ontem, aposentado o bravo Onkyo, após 15 anos seguidos de ótimos serviços prestados, meu amigo Fabio De Domenico instalou no lugar dele um Denon, um tal AV Surround Receiver AVR-2308CI. Nem sequer é zero bala – o Fabio descobriu ele semi-novo, em excelentes condições, o que para mim está perfeito.

Mary e eu tínhamos ficado mais de um ano, talvez até dois anos, com o Onkyo já muito exausto, tadinho, cada vez dando menos conta do recado.

O Fabio fez uma apresentação geral, impressionantérrima – é um milagre neste mundo de milagres como é possível que todo aquele som venha pela internet, quando a gente bota o iPad ou o laptop ligado ao som e portanto à TV.

Depois que o Fabio foi embora, estreei o novo Denon com o DVD dos Cowboy Junkies de 2007, Trinity Revisited.

Cacete!, Marynha exclamou. Como foi possível que a gente tivesse ficado mais de um ano, quase dois, sem um som bom?

Verdade. Como foi possível?

Ainda não tive tempo de curtir muito. Vimos um filme no Now, e o som é espetacular – embora a gente não tenha botado muito volume, porque já era de noite. E hoje ouvi, entre as 21 e as 22h, Sailing to Philadelphia, o Mark Knopfler de 2000, com duetos com James Taylor e Van Morrison.

Uma maravilha.

É como descobrir um novo mundo, oh brave new world! É como mudar de óculos depois de muito tempo, e voltar a enxergar o mundo com perfeição.

Há poucos prazeres tão absolutos na vida quanto um bom som, um puta de um som.

2/8/2016

4 Comentários

  1. Lucia Zaidan
    Postado em 03/08/2016 às 9:02 am | Permalink

    Parabens pela nova aquisição. Não demorarei ir aí para me deliciar com o novo aparelho! Beijos. Sogrinha

  2. Fábio De Domenico
    Postado em 03/08/2016 às 4:20 pm | Permalink

    Linda sua história. Histórias de aparelhos e discos me emocionam mais do que de muita gente por ai, pois traz a lembrança e a referencia do tempo mais fiel que um relógio suíço.
    Sérgio, as escolhas foram audióphilas. Esse cowboy junkies é um primor de gravação. E o Mark Knopfler em hdcd entra pelos póros. Aproveitem a maciez e o detalhamento do denon. Afinal, o primeiro denon agente nunca esquece…abs

  3. MILTINHO
    Postado em 04/08/2016 às 10:26 am | Permalink

    Quem sabe um som igual ao do FHC, este sim um puta som.
    Já havia uma boa aparelhagem quando fui recebido na casa do Sérgio além de umas boas antárticas geladíssimas, bom papo, som de qualidade e música MPB idem do grande e belo acervo fonográfico.
    Época em que conheci Regina e Inês e o PT era minha esperança.
    Se a memória não em falha o pick-up (toca discos) era um Pioneer ou Gradiente.

  4. Mônica De Domenico
    Postado em 12/08/2016 às 7:34 pm | Permalink

    Posso imaginar o que sentiram após a chegada do Denon, ainda que usado, porém com certeza já um pouco amaciado.
    Ao longo desses 34 anos de convivência com Fábio e seu primoroso gosto musical, pude compartilhar de várias substituições como esta, algumas mais sofridas que outras. É duro quando o som está ótimo mas você tem que abandonar seu equipamento que já faz parte da família por um que comporte as novas descobertas do ser humano.
    Com o tempo vai se adaptando ao novo conceito de som, formatos de mídias digitais, aplicativos e tudo mais, mas nunca se esquece das alegrias que os equipamentos velhinhos e aposentados puderam um dia te proporcionar.
    Espero que aproveitem ao máximo essa nova fase !!

Um Trackback

  1. […] Pio leu um textinho que publiquei aqui dias atrás, falando sobre som, aparelho de som. O texto começava […]

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