Uma cama perversa

Já sabemos que isto com a América não vai lá com paninhos quentes. Bem pode a inspirada França inventar o cinema que a invenção acaba no colo americano.

Eu jurarei sempre pelos irmãos Lumière, mas Thomas Edison reclama, com tanto vasto descaramento como razão, ter sido o primeiro.

Sim, talvez o kinetoscópio de Edison já estivesse a provocar orgásticas convulsões aos espectadores, quando o cinematógrafo dos Lumière chegou à gare. Mas não filmaram a mesma coisa, nem da mesma maneira.

Edison, pioneiríssimo, fechou o kinetoscópio num estúdio: pano negro em fundo, os actores a moverem-se à frente da câmara, assim se fizerem, em 1894, curtos filmes de 20 a 40 segundos. Filmou ali a trapezista Alcide Capitaine, mulher perfeita. Fato justo de lantejoulas, Capitaine desdobra o ágil corpinho em acrobacias, que os 5 segundos que vi me autorizam a qualificar de pasmosas. Filmou mais mulheres: Anne Oakley, elegante, de Winchester na mão, pum-pum-pum, a estilhaçar umas bolas de vidro lançadas para a direita alta; a espanhola Carmencita dançou um vago flamenco; uma eventual marroquina, a dança do ventre. E homens? Há o exibicionismo do musculoso Eugen Sandow, pai do culturismo, e há combates de boxe.

Mulheres, tiros e punhos, era o que Edison oferecia ao público. Reconhece-se a matriz da futura Hollywood. Mas como é que Edison mostrava os filmes? Por um tostão, espreitando, em pé, para um óculo, o espectador tinha a visão solitária do filmezinho de 40 segundos. Não, não era cinema: era, pelo buraco da fechadura, menos do que uma rapidinha.

Os Lumière converteram a câmara numa janela para o mundo, filmando a entrada de um comboio na gare; os mergulhos de um excitado grupo no mar; num terraço, o duche a baldes dos banhistas regressados da praia; o roubo dos cavalos a um cocheiro adormecido. Era o mundo, a realidade encenada. Depois, com um projector, mostraram os filmes a uma sala cheia de gente sentada e em êxtase.

Com os temas de Edison e a sala escura dos Lumière, de uma cadeira à outra faiscou uma rede de excitação íntima e colectiva, um fulminante raio de fuga e sensualidade. O acrisolado eu de cada espectador sonhar-se-ia outro à pala de um fluxo de luz e sombras derramadas num oscilante lençol branco. Nascera o cinema, cama perversa em que podemos ser quem nunca realmente seremos.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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