Um salto surrealista

Vi-o dar um salto surrealista, de tomara André Breton. Foi assim que o conheci, no Festival da Figueira da Foz. Nasciam os anos 80, na sala do Casino exibira-se um filme, Rita, e levantara-se um escarcéu que nem Quixote e Sancho Pança.

Na escadaria, esgrimi argumentos com o Eduardo Prado Coelho: ficámos como ouriços-cacheiros prontos a disparar espinhos. Ele era de uma teimosia de veludo e eu, então, um provocador de martelo e escopro. Demo-nos, depois, como Deus e os anjos, quando lhe publiquei o último livro da sua vida.

Veio meio mundo a correr para o debate na sala onde o padre Vieira Marques, director do festival, pusera uma bruta coluna de som, com um sopro capaz de derrubar o prédio do outro lado da rua.

Ainda não conhecia o herói desta crónica. Sabia que era mais de meio surdo e vi que se encostava à coluna. Na sala, o Eduardo aninhou o saber na cadeira, veio o realizador, José Ribeiro Mendes, os dois metros de António-Pedro de Vasconcelos faziam já um elegante fio de sombra sobre as miúdas cinéfilas. O rijo debate ia começar e alguém ligou o som. Oh, meu rico Deus, ouviu-se um estampido de acordar o mundo. É que não foi um PUM, nem um BANG, foi o trovão do nada a converter-se em tudo. E o discretamente encostado à coluna Manuel Cintra Ferreira voou, cabelos no ar, para o centro da sala, num salto de Nelson Évora.

Foi assim que Deus me apresentou o Cintra, a que faço o favor de não chamar apenas crítico de cinema, tal era a devoção que tinha à religião de escuro, luz e sombras que praticava em catacumbas do seu Algarve, do Porto, Figueira, Tróia, Vila do Conde, mas sobretudo de Lisboa e Paris. Amava o cinema, comia-o, bebia-o, fumava-o, dormia com ele. Prodigalizava-lhe mimos perversos: o cinema, já se sabe, é como os gatos, e o que quer é ronronar.

Ficou uma amizade para a vida e para estes seis anos que o Cintra já leva de outro mundo. Derreto-me, agora, de nostalgia por esses anos 80, a Antónia, já casada comigo, a aturar o mercurial Vieira Marques, dono de um Festival que, de Marguerite Duras a Jim Jarmusch e Werner Schroeter, foi um caminho marítimo para outros cinemas. De Rita nunca mais se ouviu falar: nem eu o quero voltar a ver para pensar que ainda hoje é o belo filme que, numa explosão, me apresentou o Cintra.

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O Cintra em fotografia que julgo ser do Chico Grave. Devem estar juntos numa cabine de projecção lá no céu.

 

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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