Sua excelência, a versão

Os fatos são os fatos, ou os “hechos son los hechos”, como costumam afirmar os espanhóis.  Mas no governo Dilma Rousseff não é bem assim. Aliás, é inteiramente ao contrário. Os fatos não importam e sim a versão, galgada à condição de “sua excelência” pela estratégia do lulo-petismo de não largar o osso, de se manter no poder a qualquer custo. Mesmo à custa da verdade.

Mal iniciamos o ano e tivemos duas pérolas de puro exercício de retórica, de contorcionismo mental: o artigo lavrado pela douta presidente, publicado na Folha de S. Paulo, e a entrevista surreal do seu ministro da Casa Civil, Jaques Wagner.

Se fossem produto apenas da alienação da realidade, já seria preocupante. Afinal, estamos falando da primeira mandatária do país e do seu principal operador político, o homem escalado por Lula para tirar o governo da sinuca de bico em que se meteu.

Mas é algo muito mais grave. É um estratagema no qual Dilma e sua equipe propositadamente distorcem a realidade, mudam a versão dos fatos conforme o tempo vai passando, como se este apagasse tudo, inclusive a memória de um povo.

Não inventaram a roda, claro. Lula já usou deste expediente na época do mensalão. Primeiro foi à TV para se dizer indignado, traído por alguns companheiros. Depois reduziu o episódio a uma questão de Caixa 2, a “recursos não contabilizados”, para usar uma expressão do então tesoureiro do PT, Delúbio Soares.  Quando se sentiu fortalecido, alardeou que tudo não passou de uma conspiração das elites e da mídia golpista.

Incrível a semelhança com os dias atuais.

Em seu artigo a presidente foi pela mesma linha, ao responsabilizar a oposição pela crise política que nasceu, cresceu e se realimenta no próprio Palácio do Planalto. A mesma ladainha foi recitada por seu Chefe da Casa Civil: “… O erro para mim é muito mais da oposição, que fez uma agenda do tapetão”.

De forma homeopática, o governo vem alterando seu discurso no sentido de torná-lo mais verossímil aos brasileiros. Afinal de contas, alguma satisfação há que ser dada para tanto desemprego, tanta queda do PIB e inflação. Isso sem falar da mega corrupção na Petrobrás.

Aquela versão da carochinha da campanha eleitoral, quando a candidata vendeu terreno na lua enquanto praticamente quebrava o país, não se sustentou uma semana após a apuração das urnas. A presidente, de forma envergonhada, teve de admitir a existência da crise econômica. Mas fez de conta que nada tinha a ver com isso, atribuindo tudo aos EUA, à União Européia e à China.

Não colou. A água bateu no pescoço. Os feiticeiros palacianos inventaram então uma nova versão, a mais recente. Por meio de platitudes e generalidades, Dilma reconheceu genericamente que houve erros e acertos em seu governo. Quais?  Mistério…

De fato, é difícil decifrar a linguagem hermética do ministro da Casa Civil, quando se vê na contingência de abordar tema tão espinhoso: “a impopularidade de Dilma é consequência de que a gente teve que consertar medidas tomadas em 2013 e 2014, que tiveram seu lado positivo e, como tudo na vida, também consequências negativas”.

Em matéria de eufemismo, Jaques Wagner superou sua superiora. Se Dilma contornava o vocabulário chamando corrupção de malfeitos, seu operador inovou ao chamar de notícia “não boa” a inflação, os juros altos. Impressionante a ginástica mental para reconhecer que a “foto do final do ano não é boa”.

E tudo isto para empurrar a responsabilidade pela crise nas costas de Guido Mantega, ministro da Fazenda em 2013 e 2014, e do mais recente “renegado”, o ex-ministro Joaquim Levy.

Lula, Dilma e companhia apostam na premissa de que política é a arte do embuste. Insistem na prática cotidiana do engodo. Até quando?

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 6/1/2016.

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