Sergio Moro fez um inestimável bem ao país

Deverá ir bem longe, ainda, a discussão sobre a legalidade – ou não – da divulgação das conversas gravadas pela Operação Lava Jato. Sobre a legalidade da gravação em si, parece não haver qualquer dúvida, a não ser, é claro, para os próprios investigados, para os lulo-petistas.

As escutas foram devidamente autorizadas pela Justiça. São absolutamente legais.

O que ainda se discute, e ainda vai se discutir muito, é se foi legal ou não a autorização para a divulgação das conversas gravadas.

Nesse caso, não são apenas os lulo-petistas que acusam o juiz  Sérgo Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, de ter cometido ilegalidade, mas também alguns juristas. Há os que entendem que foi legal, há os que entendem que não foi.

Os juristas vão ficar aí discutindo sobre questiúnculas, tecnicalidades, a letra fria da Lei. Que eles se divirtam.

O que importa para o País não são as questiúnculas, as tecnicalidades, a letra fria ou quente da Lei. O que importa para o país é o que foi dito nos telefonemas gravados com autorização da Justiça.

O conteúdo.

Os diálogos mostram uma quadrilha mafiosa em ação.

Isso é o que importa.

Em artigo no Globo deste sábado, 19/3, o deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) foi diretíssimo ao ponto: segundo ele, o juiz Sérgio Moro tinha “por dever de ofício” divulgar as gravações, “em respeito à obrigação de publicidade de atos criminosos. Ocultá-la poderia ser considerado crime de prevaricação”.

Simples assim: ocultar aqueles diálogos que mostram os criminosos praticando crimes seria prevaricação.

Quem tem conhecimento de atos criminosos tem a obrigação de denunciá-los. Silenciar é colaborar com os criminosos. É tornar-se cúmplice.

Ou não é crime um presidente de partido ligar para o então ministro-chefe da Casa Civil e exigir que o governo tome providências, porque uma juíza poderia pedir a prisão preventiva do cacique daquele partido? E em seguida perguntar se o tal cacique poderia ser nomeado ministro naquele mesmo dia?

Ou não é crime um cacique político, ex-presidente da República, ligar para o ministro da Fazenda e ordenar a ele que dê um jeito de a Receita Federal parar de atrapalhar seus negócios, e exigir que a Receita Federal vá investigar o Instituto FHC, a Rede Globo, o SBT?

Miro Teixeira, um dos políticos mais idôneos que sobraram no país, vai de novo direto ao ponto em seu artigo bem curto (cuja íntegra vai aí abaixo). Ele afirma que até o ex-presidente pareceu surpreender-se com o telefonema de Dilma Roussef, para ela, “de viva voz, oferecer a Lula um papel para que ele utilizasse em caso de necessidade”. E sentencia: “Em poucas palavras, a presidente da República, heroína da democracia e até então resguardada pela sua história de integridade pessoal, colocou-se acima da Constituição e a ofendeu mais do que qualquer presidente civil da história do Brasil”.

***

Míriam Leitão também vai ao cerne da questão em sua coluna no Globo deste sábado:

“Não chega a ser surpreendente o palavreado chulo, o machismo, o preconceito das conversas em que o presidente se sentia à vontade com seus interlocutores. O retrato falado de Lula é assim mesmo. O problema não são os maus modos do ex-presidente, mas sim as tentativas de uso do Estado em seu proveito e proteção. ‘Era preciso você chamar o responsável e falar ‘que porra é esta?’, ordenou Lula ao ministro da Fazenda, se referindo à Receita. E o que diz o ministro? Nada.”

E Míriam Leitão conclui seu belo artigo assim:

“Em cada conversa se vê uma pessoa influente, muito influente, pela qual os ministros aguardam ao telefone e que chamam de “presidente” e da qual recebem ordens diretas de interferir no funcionamento do Estado em seu benefício e contra os seus inimigos. É o que assusta, e não as previsíveis grosserias.”

Sim, é assustador, e é criminoso, como esse senhor dá ordens ao atual ministro da Fazenda, num telefonema de algumas semanas atrás, quando era apenas um ex-presidente da República.

Mas, ao contrário do que diz Míriam, eu acho assustador também a forma com que Lula fala. Certo, não é surpreendente, mas é assustador.

O ministro mais antigo do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, usou adjetivos absolutamente adequados para qualificar Lula. Num dos telefonemas gravados, Lula tinha afirmado que “temos uma Suprema Corte totalmente acovardada”. O decano STF chamou a reação de Lula de “torpe e indigna”, “típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de Juízes livres e independentes”.

***

O linguajar é assustador.

Está certo: de fato não é supreendente, como também afirma Dora Kramer, no Estadão de sábado, 19/3:

“O palavreado chulo usado nas conversas telefônicas dele com amigos e correligionários choca, mas não surpreende. É apenas algo mais grosseiro, obsceno, arrogante e sexista que o linguajar usado em público, inclusive enquanto presidente da República. Aquele que se mostra por inteiro nas gravações da Polícia Federal é o mesmo de sempre. Desde o tempo em que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.”

Mas eu insisto: o fato de não ser surpreendente o palavreado chulo não torna mais palatável, mais aceitável o retrato que as conversas gravadas pela Operação Lava Jato mostram ao país do sujeito que foi presidente da República duas vezes e continua sendo, ao longo destes infelizes cinco anos e dois meses e meio de desgoverno Dilma Rousseff, influente a ponto de dar ordens ao ministro da Fazenda.

A grosseria, o sexismo, a arrogância, a soberba que as conversas demonstram ad nauseam são, sem trocadilho, nauseantes. Mas é forçoso admitir: pior que a forma é o conteúdo.

Lula se mostra um político autoritário, que tem um profundo desprezo pela democracia, como diz Merval Pereira em sua coluna no Globo de sexta-feira, 18/3. Eis o início do artigo (cuja íntegra vai mais abaixo):

“O Lula que as gravações liberadas pela Operação Lava Jato revelam é um político autoritário, com uma visão nada republicana do país, que exige lealdade e gratidão daqueles que nomeou, e trata com desdém os adversários e as instituições públicas, e um homem sexista,  que faz piadas de profundo mau gosto e referências grosseiras a militantes femininas de seu entorno.

“O ex-presidente Lula revela ainda um tremendo desprezo pela democracia que diz respeitar, instruindo seus seguidores a agirem com violência contra adversários, para que estes sintam receio de se oporem aos petistas. Diz a seu irmão Vavá, por exemplo, que os ‘coxinhas’ que chegarem perto de sua casa vão levar uma surra dos sindicalistas que estão de guarda.”

“Entre palavrões e xingamentos, exigências e deboches, (Lula) se apresenta em toda a sua nudez, sem qualquer pudor por pessoas ou instituições.”, escreve Nelson Motta, no Globo de sexta, 18/3. “Vaidoso de seu poder e de sua invulnerabilidade, Lula se mostra nos grampos em toda a sua horrenda nudez. Grosso, cínico, autoritário, arrogante, vingativo, esculhamba o Supremo, o STJ, a Câmara e o Senado — porque não o estão defendendo como ele queria, como se todos lhe devessem favores e reverência.”

***

E aqui volto ao início: o que importa para o País não são as questiúnculas, as tecnicalidades, a letra fria ou quente da Lei. O que importa para o país é o que foi dito nos telefonemas gravados com autorização da Justiça.

Esconder esses diálogos, não expor essas conversas para o conhecimento da sociedade brasileira, isso sim, seria criminoso.

zzzzzzzz ptExpor esses diálogos foi um serviço inestimável ao Brasil. Inestimável.

Não dá para prever o que vai acontecer, e pode até ser que o juiz Sérgio Moro venha a receber algum tipo de punição por ter tornado públicos os diálogos gravados pela Operação Lava Jato. Se isso vier a acontecer, será, isso sim, uma absurda, tremenda injustiça.

Sérgio Moro prestou os mais valiosos serviços ao país que se poderia almejar.

Porque, simplificando bastante, desenhando esquematicamente, é como se dizia na foto mostrada nas redes sociais: um crime é um crime. Mas, segundo a lógica do lulo-quadrilhismo, criminoso é quem fez a foto do crime.

Moro não poderia ocultar as gravações

Artigo de Miro Teixeira no Globo de 19/3/2016

Criou-se a grande armadilha. Escalaram o Lula como bode expiatório da Lava Jato. Contra as ruas pró- Moro, planejaram as ruas pró-Lula, em mais uma tentativa de desqualificar a Justiça. É um truque.

Os recursos às decisões de Moro feneceram nas instâncias superiores. A gravação da presidente Dilma, de viva voz, a oferecer a Lula um papel para que ele utilizasse em caso de necessidade, ainda não instrui qualquer processo. Até Lula pareceu surpreender-se com tal iniciativa.

Em poucas palavras, a presidente da República, heroína da democracia e até então resguardada pela sua história de integridade pessoal, colocou-se acima da Constituição e a ofendeu mais do que qualquer presidente civil da história do Brasil.

Incidente inédito, não surge de vozes enlouquecidas de golpistas. É da voz suave da Presidente que se revela a violação de princípios como da moralidade e da impessoalidade. Ofendeu a República. Perdeu a qualidade para presidir o País. O impeachment avança.

Sobre seu uso processual falarão advogados, Ministério Público e Juízes, nos ritos permitidos pela democracia garantista dos direitos dos réus e também das vítimas: o povo.

Mas a reação social e institucional foi sintetizada pelo Ministro Celso de Mello, em resposta aos agravos de Lula. Palavras que serviram para ensejar apressado pedido de desculpas. Se nula a gravação, dela não se ocuparia a Suprema Corte do País. “Esse insulto ao Poder Judiciário traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos escalões da República, reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação, firme, justa, impessoal e isenta de juízes livres e independentes “. (Transcrito de O GLOBO).

A resposta valida a divulgação do conteúdo gravado, à qual estava obrigado o juiz Sérgio Moro ou lá quem a tenha feito, por dever de ofício, em respeito à obrigação de publicidade de atos criminosos. Ocultá-la poderia ser considerado crime de prevaricação.

O retrato falado

Artigo de Míriam Leitão no Globo de 19/3/2016.

Qualquer pessoa pode ser flagrada em conversas inconvenientes se o telefone for gravado, mas o que se ouve nos diálogos de Lula vai além disso e mostra a intenção de cometer ilegalidades. O telefonema para o ministro da Fazenda, por exemplo, é um dos absurdos. Ele queria usar a Receita Federal em seu favor e contra supostos inimigos. Isso é intolerável no estado democrático.

Não chega a ser surpreendente o palavreado chulo, o machismo, o preconceito das conversas em que o presidente se sentia à vontade com seus interlocutores. O retrato falado de Lula é assim mesmo. O problema não são os maus modos do ex-presidente, mas sim as tentativas de uso do Estado em seu proveito e proteção. “Era preciso você chamar o responsável e falar ‘que porra é esta?’”, ordenou Lula ao ministro da Fazenda, se referindo à Receita. E o que diz o ministro? Nada. O que ele deveria dizer: lembrar que os auditores fiscais têm autonomia, que não se usa a máquina para proteger alguns, e para perseguir outros. Afinal, o ex-presidente havia sugerido ao ministro acompanhar o que a Receita fazia junto com a Polícia Federal, avisando que o Instituto Lula mandaria para ele as informações sobre a atuação dos fiscais. A nota do Ministério da Fazenda diz que nada recebeu do Instituto. Isso é insuficiente. O que se esperava do ministro é que ele reagisse em defesa dos órgãos dos quais é superior hierárquico apenas temporariamente. O Fisco tem que ser neutro, ele é guardião do sigilo fiscal dos contribuintes, ele coleta o dinheiro coletivo que financiará as políticas públicas. A Receita Federal é um órgão do Estado. Não é do PT.

O ministro diz: “conta com a gente para o que der e vier”. Espera-se que seja apenas uma manifestação de solidariedade por afinidade partidária. De um militante falando para o líder do partido, e que “gente” seja ele, pessoalmente, e não o Ministério da Fazenda que esteja sendo oferecido para apoio tão amplo. Lula continua “você precisa se inteirar do que eles estão fazendo no Instituto”. O ministro avisa que “eles fazem parte”. Quer dizer que a Receita integra a Operação Lava-Jato. Lula diz que se “eles fizessem isso com meia dúzia de grandes empresas resolvia a arrecadação do estado”. Diante dessa proposta de uso da Receita, o ministro diz “uhum”. Depois de mandar que o ministro chame o responsável para admoestá-lo com palavrões, ele dá a lista dos que gostaria que fossem alvos, “a Globo, o Instituto Fernando Henrique, SBT, Record” e solta outra das suas palavras favoritas. O ministro em resposta pede que Paulo Okamoto envie para ele os papéis do Instituto. Lula reclama que uma investigação contra a “Veja” está parada desde 2008. E usa outra palavra ofensiva aos agentes da Receita. O ministro disse que mandou apurar a razão de haver “velocidade diferente” de investigação. Nada nesse diálogo é “republicano”. O que está acontecendo na conversa é uma tentativa clara de uso da máquina de fiscalização e controle tributários. E lamentavelmente não encontra no interlocutor uma pessoa que lembre como a Receita Federal precisa ser num país democrático. Isso eleva os temores do que pode ter sido tratado pelos dois no encontro pessoal que tiveram depois.

Lula ainda não havia sido nomeado ministro. Era, nos momentos dos diálogos, um ex-presidente. Mas manda Jaques Wagner, então chefe da Casa Civil, que diga a presidente para falar com a ministra Rosa Weber, do STF, sobre a ação que ela julgaria. Mostra que tinha expectativa de ter um procurador-geral submisso e grato. Em outro diálogo fica claro o motivo da escolha do ministro da Justiça, Eugênio Aragão. “Fico pensando que o Aragão deveria cumprir o papel de homem naquela porra”. Assim ele se refere ao ministério mais antigo do Brasil, criado antes da independência. E o papel “de homem” é obviamente controlar a Polícia Federal. Afinal, diz, “ele parece nosso amigo”. Parece mesmo.

Em cada conversa se vê uma pessoa influente, muito influente, pela qual os ministros aguardam ao telefone e que chamam de “presidente” e da qual recebem ordens diretas de interferir no funcionamento do Estado em seu benefício e contra os seus inimigos. É o que assusta, e não as previsíveis grosserias.

A íntegra do pronunciamento do ministro Celso de Mello

Em sessão do Supremo Tribunal Federal na quinta, 18/3

Os meios de comunicação revelaram, ontem (quarta, 17/3), que conhecida figura política de nosso País, em diálogo telefônico com terceira pessoa, ofendeu, gravemente, a dignidade institucional do Poder Judiciário, imputando a este Tribunal a grosseira e injusta qualificação de ser “uma Suprema Corte totalmente acovardada”!

Esse insulto ao Poder Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte desta Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos escalões da República, reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de Juízes livres e independentes, que tanto honram a Magistratura brasileira e que não hesitarão, observados os grandes princípios consagrados pelo regime democrático e respeitada a garantia constitucional do devido processo legal, em fazer recair sobre aqueles considerados culpados, em regular processo judicial, todo o peso e toda a autoridade das leis criminais de nosso País!

A República, Senhor Presidente, além de não admitir privilégios, repudia a outorga de favores especiais e rejeita a concessão de tratamentos diferenciados aos detentores do poder ou a quem quer que seja.

Por isso, Senhor Presidente, cumpre não desconhecer que o dogma da isonomia, que constitui uma das mais expressivas virtudes republicanas, a todos iguala, governantes e governados, sem qualquer distinção, indicando que ninguém, absolutamente ninguém, está acima da autoridade das leis e da Constituição de nosso País, a significar que condutas criminosas perpetradas à sombra do Poder jamais serão toleradas, e os agentes que as houverem praticado, posicionados, ou não, nas culminâncias da hierarquia governamental, serão punidos por seu Juiz natural na exata medida e na justa extensão de sua responsabilidade criminal!

Esse, Senhor Presidente e Senhores Ministros, o registro que desejava fazer.”

Água de morro abaixo

Artigo de Dora Kramer no Estadão de 19/3/2016

Aos escândalos de corrupção e ações de má gestão acrescentam-se dois fatores que tornam o governo insustentável: o repúdio das ruas e o comportamento indecoroso dos mais poderosos entre seus integrantes. Neste último quesito, o homem que presidiu o País por oito anos e volta agora para presidi-lo de fato, deu o empurrão que faltava.

O palavreado chulo usado nas conversas telefônicas dele com amigos e correligionários choca, mas não surpreende. É apenas algo mais grosseiro, obsceno, arrogante e sexista que o linguajar usado em público, inclusive enquanto presidente da República. Aquele que se mostra por inteiro nas gravações da Polícia Federal é o mesmo de sempre. Desde o tempo em que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e ainda assinava Luiz “Ignácio” e sem a incorporação do apelido ao sobrenome.

A ausência de decoro não se expressa apenas na falta de civilidade idiomática, mas também no modo de agir. E aqui falamos da presidente Dilma Rousseff e sua deliberação ação para proteger Lula da prisão. Suas negativas não resistem à recomendação para que ele assinasse o termo de posse na Casa Civil antecipadamente e o usasse em “caso de necessidade”. Dilma alegou que se tratava de uma precaução para o caso de o ministro nomeado não poder comparecer à cerimônia de posse.

Se fosse verdade, a presidente é quem usaria o documento. A aludida “necessidade” seria dela; de formalizar a posse do ministro. No entanto, Dilma transfere o uso à conveniência de Lula. Óbvio: para o caso de o juiz Sérgio Moro acatar o pedido de prisão preventiva feita pelo Ministério Público de São Paulo. Ademais, não consta que o mesmo não tenha sido pedido a Jaques Wagner, que assumiria a chefia de gabinete da Presidência estando ausente da posse. O ex-chefe da Casa Civil naquele dia fazia aniversário e estava em Salvador.

Evidenciada a fraude, queira o bom senso que o Palácio do Planalto não tenha feito uso de documento falso ao exibir o termo de posse assinado apenas pelo ministro nomeado. Sem a assinatura da presidente o papel não teria validade. Se a ideia era deixar a parte burocrática em ordem, a firma de Dilma deveria necessariamente constar da documentação.

É também a respeito desse tipo de atitude – que, diga-se, não é nova – que se insurge parcela significativa da sociedade, contra a qual a presidente Dilma se colocou na quinta-feira ao qualificar os protestos como “gritaria de golpistas”. Abandonou o tom conciliador e os apelos à moderação, preferindo aderir à provocação. Apresenta-se, desse modo, em estado de completa submissão ao antecessor que transformou em sucessor “in pectore”, transferindo a ele as decisões de governo e aderindo à tática de confrontação proposta por ele.

Preferiu dar um “não” às ruas que, em contrapartida, exigem um “sim” à sua renúncia.

Comportamento rasteiro

Artigo de Merval Pereira no Globo de 18/3/2016

O Lula que as gravações liberadas pela Operação Lava Jato revelam é um político autoritário, com uma visão nada republicana do país, que exige lealdade e gratidão daqueles que nomeou, e trata com desdém os adversários e as instituições públicas, e um homem sexista,  que faz piadas de profundo mau gosto e referências grosseiras a militantes femininas de seu entorno.

O ex-presidente Lula revela ainda um tremendo desprezo pela democracia que diz respeitar, instruindo seus seguidores a agirem com violência contra adversários, para que estes sintam receio de se oporem aos petistas. Diz a seu irmão Vavá, por exemplo, que os “coxinhas” que chegarem perto de sua casa vão levar uma surra dos sindicalistas que estão de guarda.

Uma dessas conversas mais reveladoras do caráter de Lula é justamente com a presidente Dilma, onde diz que “temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado. Temos um presidente da Câmara fodido, um presidente do Senado fodido, não sei quantos parlamentares ameaçados. Fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre.”

Coube ao decano do STF, ministro Celso de Mello, dar uma resposta à altura, pois o presidente atual, Ricardo Lewandowski, não iria falar, embora tenha sido citado diversas vezes. Tanto que iniciou a sessão de ontem lendo a pauta e chamando o primeiro processo, como se nada estivesse acontecendo no país. Celso de Mello pediu a palavra e externou o sentimento majoritário da mais alta Corte de Justiça do país:

“Esse insulto ao Poder Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte desta Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos escalões da República, reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de Juízes livres e independentes, que tanto honram a Magistratura brasileira e que não hesitarão, observados os grandes princípios consagrados pelo regime democrático e respeitada a garantia constitucional do devido processo legal, em fazer recair sobre aqueles considerados culpados, em regular processo judicial, todo o peso e toda a autoridade das leis criminais de nosso País”.

Em outra conversa, Lula faz uma piada sexista sobre sua assessora Clara Ant, que provoca gargalhadas em Dilma: “entraram cinco homens na casa dela, ela pensou que fosse um presente de Deus, mas era a Polícia Federal”. Em outra conversa, com Jaques Wagner, os dois gozam os problemas que a senadora Marta Suplicy teve nas manifestações: “A Marta teve que se trancar na Fiesp. Foi chamada de puta, vagabunda, vira-casaca.”, diz Lula, ao que Wagner responde: “É bom pra nega aprender.”

Tanto quando falar com Wagner para que Dilma pressione a ministra Rosa Weber, quanto com o ex-ministro Vanucchi, Lula trata as mulheres de maneira no mínimo grosseira: “Se os homens não têm saco, vamos ver se uma mulher corajosa pode fazer o que os homens não fizeram”. E, ao falar sobre a necessidade de mobilizar as mulheres do partido para assediar um juiz de Rondônia acusado de maltratar a mulher, Lula pergunta: “Cadê as mulheres de grelo duro do PT?”.

O ex-presidente Lula mostra bem seu “republicanismo” quando manda o ministro da Fazenda Nelson Barbosa ver o que a Receita Federal está fazendo no Instituto Lula. Cobra de Rodrigo Janot, o Procurador-Geral da República, gratidão por ter sido nomeado, e recebeu de troco o comentário de que ministério não blinda ninguém, e que não deve a Lula gratidão nenhuma.

Com o deputado petista Wadhi Dhemous, que já foi presidente nacional da OAB e está no Congresso graças a uma manobra de Lula, pois era suplente do PT, o ex-presidente mostra toda a sua visão “democrática”, quando fala sobre o juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato: “Bicho, eles têm que ter medo. Eles têm que ter preocupação…”.

Enfim, para quem é tido como um grande articulador político, Lula queimou todas as pontes e revelou-se um desqualificado, com um padrão moral rasteiro.

Lula nu

Artigo de Nelson Motta no Globo de 18/3/2016

Nelson Rodrigues sempre dizia que “se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém falaria com ninguém”. Os últimos acontecimentos mostram que se todos os eleitores soubessem o que os políticos falam quando pensam que ninguém está ouvindo, ninguém votaria em ninguém.

Vaidoso de seu poder e de sua invulnerabilidade, Lula se mostra nos grampos em toda a sua horrenda nudez. Grosso, cínico, autoritário, arrogante, vingativo, esculhamba o Supremo, o STJ, a Câmara e o Senado — porque não o estão defendendo como ele queria, como se todos lhe devessem favores e reverência.

O “Lulinha paz e amor” criado por João Santana, no escurinho do celular se mostra o “Lulão pau e rancor”, como nos velhos tempos, agora revelado pelos grampos da Polícia Federal. Entre palavrões e xingamentos, exigências e deboches, se apresenta em toda a sua nudez, sem qualquer pudor por pessoas ou instituições.

A favor da ideia de Lula nu, que já é uma piada, louve-se que, mesmo nos piores momentos, ele consegue manter o humor de grande comediante. Como quando abre a porta para a Polícia Federal e faz a piada antológica: “Ué! Cadê o japonês”. Ou quando Jaques Wagner pergunta se ele está amadurecendo a decisão (de ir para o Ministério), e ele responde que amadureceu tanto que já está podre. Ou quando diz a Wagner que irá a um encontro com Dilma “se não estiver preso”, e os dois riem juntos.

Um dos grampos mais reveladores é o seu esculacho em um constrangido e atemorizado ministro Nelson Barbosa, reclamando da Receita Federal por estar em cima do Instituto Lula. Ele não diz que o IL está limpo, exige aos berros investigações na Globo, no Instituto Fernando Henrique Cardoso, na Gerdau e em outras grandes empresas.

Mas nunca explicou o que o Instituto Lula fez com os R$ 34,9 milhões que recebeu em doações, legais e declaradas. Que ações contra a fome foram bancadas pelo IL? A quem o IL ajuda com dinheiro, trabalho, comida, bolsas de estudos? Quanto o IL gastou para ajudar os fracos e oprimidos, como a Fundação Bill Clinton?

O que faz o Instituto Lula, além de pagar seus funcionários e servir o próprio Lula?

20/3/2016

3 Comentários

  1. NOSSO MEDO
    Postado em 20/03/2016 às 11:04 am | Permalink

    VAI TER GOLPE SIM!
    Falta de rumo da oposição é ainda mais surpreendente que a ruína do governo.
    Serra defende no senado a idéia de que é preciso criar uma “frente de reconstrução” nacional do país em torno de TEMER. o impeachment VIRÁ.
    O palavreado chulo e grotesco ouvido e preferido pelos coxinhas em uníssono nos estádios, foi substituído por coloquiais conversas levadas ao povo por através das escutas LEGAIS do judiciário partidário e veiculadas pela TV GLOBO líder confessa do GOLPE.
    Vai haver golpe sim, só falta produzir um cadáver.
    Já queimei minhas camisas vermelhas, em linguagem chula, quem tem cu tem medo.

  2. MILTINHO
    Postado em 21/03/2016 às 9:24 am | Permalink

    MAIS UM GOLPE

    ‘Democracia se faz no voto’, diz Doria ao vencer prévias do PSDB-SP
    “Essa será uma eleição nacional. O Lula já disse que vem aqui defender seu afilhado Fernando Haddad. O povo paulista jamais será petista”, declarou Doria

    Leia mais em: http://zip.net/bws2C4
    Leia mais em: http://zip.net/bws2C4

  3. MILTINHO
    Postado em 21/03/2016 às 9:44 am | Permalink

    QUADRILHA DEPOSTA,QUADRILHA POSTA.
    O senador José Serra (PSDB-SP) afirmou que o vice-presidente Michel Temer (PMDB) deve assumir compromissos com a oposição e com o país caso a presidente Dilma Rousseff seja afastada da Presidência. O tucano afirmou ao jornal “O Estado de S. Paulo” que o vice tem de se comprometer a não concorrer à reeleição, não interferir nas próximas eleições municipais e estaduais, não promover uma caça às bruxas e montar um Ministério “surpreendente”.
    Serra tem conversado com empresários, nomes do mercado e do Judiciário e com políticos sobre a possibilidade de Temer assumir, caso Dilma seja afastada pelo Congresso. Entre esses interlocutores estão os ex-ministros Nelson Jobim e Armínio Fraga, o deputado Roberto Freire (PPS-SP) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
    Apesar de sempre ser apontado como provável ministro de Temer, ele diz que o PSDB deve esperar para discutir cargos. No entanto, o senador, economista de formação, está ajudando Temer nos primeiros diálogos sobre o chamado Plano de Reconstrução Nacional, e aponta as áreas da infraestrutura e de exportações como vitais para o sucesso da empreitada.
    Na avaliação de Serra, “o novo governo não deve realizar nenhum tipo de retaliação a nenhuma força política”. O senador disse ainda que “acho altamente provável que o impeachment se materialize” e que “seria melhor para o país, para a política e para ela própria que a presidente Dilma renunciasse, mas essa é uma decisão que cabe exclusivamente a ela”.

    As informações são do jornal “O Estado de S. Paulo”.

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