Sandro Vaia por Elói, Gazzi, Mariangela, Josué, Rita, Lu…

No final da noite deste sábado e ao longo da madrugada e do dia de domingo, o Facebook e o Twitter foram tomados por elogios a Sandro Vaia, feitos por colegas, amigos e um grande número de leitores, de gente que admira seus textos.

Acho que esse pode ser um bom consolo para a Vera e a Giu – ver a extensão da admiração que se tem por ele.

Faço questão de reproduzir aqui alguns poucos textos de amigos e colegas do Sandro. Evidentemente estarei cometendo a injustiça de deixar de fora outras mensagens que não cheguei a ver, e por isso peço desculpas. (Sérgio Vaz)

Elói Gertel

Me pego no celular ligando para o Sandro Vaia. Quero comentar com ele o último lance do jogo que estou vendo na televisão. Ontem quase liguei para saber sua opinião sobre a manchete de um jornal. E já pensei em ligar para falarmos de política, de um livro, de um filme ou do próximo almoço no Acrópole ou Frangó com a turma de sempre, amigos com quem convivemos no Jornal da Tarde, na Agência Estado, no Estadão. Ah, como é triste perder um grande amigo assim, de repente, depois de uma convivência que atravessou décadas e que se enriquecia diariamente nas conversas que o Sandro iluminava com sua cultura, sua ironia, sua objetividade, sua preocupação com o país e seu carinho com a família e os amigos. Sei que a vida é uma passagem e que a amizade e a fraternidade permanecem no plano espiritual. Descanse, Sandro. Quando pudermos, mais na frente, bateremos um bom papo. Teremos tanto assunto para por em dia, meu irmão. Só uma coisinha: a última vitória do seu time, sobre o meu, foi apenas um acidente. Eles acontecem. E até ouço a resposta do Sandro: “o de sempre, eh, eh…”

Roberto Gazzi

Sábado, 14 de outubro de 2004, um início de tarde com sol e céu azul. Sandro Vaia abre um enorme sorriso e me abraça no meio da enorme Redação do Estado.Tínhamos acabado de receber os primeiros exemplares do jornal de domingo e fizemos um brinde com champanhe. Ele não me disse nada, nunca foi de muitas palavras. Nem precisava. Brindávamos ao novo projeto editorial e gráfico do Estadão. Aquela edição tinha deixado o jornal do dia anterior espantosamente envelhecido, tamanha a mudança para melhor. O italiano Sandro Vaia era o então diretor de Redação e eu um dos coordenadores da reforma. Mais do que todos, ele sabia ser aquele exemplar que tínhamos nas mãos o resultado de um trabalho paciente, difícil, às vezes doloroso, executado com pouca verba e em tempo recorde.

Em 2000, Sandro Vaia tinha iniciado a missão mais difícil da sua já então reconhecida carreira. Fora um profissional destacado no Jornal da Tarde, liderara uma revista, chefiara a Agência Estado. Vaia assumia o comando em um dos momentos mais difíceis e tristes vividos pela redação do jornal em seus 125 anos de história. Dias antes, seu antecessor, Antonio Pimenta Neves, havia assassinado a jornalista Sandra Gomide. Era uma redação traumatizada, de baixíssima estima, outra vítima da gestão errática de Pimenta.

Pacientemente, o filho da aristocrática Mantova conseguiu, com a ajuda dos editores que mantivera no cargo, acalmar e reerguer o moral do time. Para isso, usara sua crença nos fundamentos do ofício. Acreditou no processo de seu conterrâneo, o marxista Gramsci, a guerra dos movimentos: mais do que impor, ensinar, dar exemplo, trabalhar os fundamentos do jornalismo. Como em redação um apelido é eternizado em segundos, pela origem e pela cabeleira já branca, logo se tornou o simpático Gepeto.  E o jornalista, como o carpinteiro, tem de conhecer seu ofício. De pouco adianta o rigor da encomenda, a imposição, se não se sabe cortar, lixar, trabalhar a madeira, fazer os encaixes corretos. E Sandro era um mestre do ofício que amara e ao qual se dedicara desde garoto.

O jornal que buscava, cuja receita parecia simples, era de execução complexa: boas histórias, de preferência exclusivas, a partir de apuração correta e profunda, texto limpo e claro, com título exato e atraente, numa página bem desenhada. Tinha um olho impressionante para maus textos e títulos ruins. Nessas horas mostrava seu sangue carcamano, gesticulava, bufava, xingava. Para tentar conseguir o jornal que perseguia, foi com o tempo trocando peças, moldando o grupo a seu jeito. E delegando, essa qualidade nem sempre presente num chefe.

Com o tempo o produto melhorou e isso foi fundamental para a maior conquista de sua gestão: resgatar o moral de seus profissionais. Tirou a redação do fundo do poço para deixá-la novamente orgulhosa de estar fazendo um dos melhores jornais do Brasil. Trabalho espelhado na reforma de 2004, ganhadora de vários prêmios nos anos seguintes. Obra de um mestre, como seu grande ídolo Ademir da Guia, o líder da Academia palmeirense dos anos 60 e 70. Sandro adorava futebol e era apaixonado pelo Palmeiras. O que não o impedia de ter entre os amigos do peito alguns corintianos fanáticos. Como Ademir, era elegante, efetivo, preciso, mas discreto. Jogava antes para o time, mais do que para a arquibancada. Evitava holofotes. Fugia das muitas reuniões burocráticas e desnecessárias inerentes ao cargo. Gostava de se concentrar no jornalismo.

Deixou o jornal em 2006. Mas continuou na lida. Já fora do dia-a-dia das redações, manteve até seus últimos dias a excelência jornalística, analisando em frases curtas, com perspicácia, humor e elegância, as muitas notícias do Brasil e do mundo, usando a tecnologia dos novos tempos. Tendo como matéria-prima principal as notícias do jornal que amava e ajudou a aperfeiçoar.

Sem Sandro Vaia, o jornalismo perde um mestre do ofício.

Mariangela Hamu

Inteligente e sensível, Sandro Vaia foi um dos melhores mestres e chefes que tive no jornalismo. Não me deu vida fácil, ainda bem, mas me tratou com enorme respeito e reconhecimento. Por tudo e pela amizade, minha gratidão.

Josué Leonel

Perdemos Sandro Vaia. Íntegro, inteligente, inovador, meritocrata, líder, um dos maiores jornalistas com os quais convivi. Comandou a Agencia Estado em seu auge, ajudando o serviço de tempo real Broadcast a se tornar lider inconteste de mercado. Sandro era um diretor presente, sempre pronto a dar sugestoes em coberturas e matérias, mas com ele a Broadcast tinha total autonomia. Montou uma equipe excepcional e a deixava trabalhar. No Estadão, comandou uma das maiores reformas iditoriais do jornal. Tenho orgulho de ter feito parte desta história. Com Sandro, experimentei alguns dos melhores momentos em minha carreira, e dele nunca faltaram estímulos e motivação. Descanse em paz Sandrão, voce lutou o bom combate.

Moisés Rabinovici

Li que Sandro estava morto enquanto longe de SP, em férias. Não foi surpresa, mas mergulhei em profunda tristeza. Desde que Vera, sua bravamulher, no último almoço do JT, em novembro, quis minha ajuda para incluir o Sandro num plano de saúde, suspeitava que o estado dele era muito grave: pâncreas, como Steve Jobs, cuja fortuna não o salvou. Vera estava se antecipando, advertida por médicos. Não sei se o Sandro sabia dos riscos que corria. Falamos ao telefone quando da morte recente da mulher do Valdir Sanches, outro querido amigo, e ele nada havia comentado de sua saúde, apenas que continuava sem seguro. Combinamos um almoço. Aí ele foi internado.

Sandro e eu fomos dos primeiros repórteres do JT. Compartilhávamos as mesmas expectativas profissionais, ríamos do nosso dia a dia, jogávamos pelada no corredor que nos separava ou unia ao Estadão, e nos dedicávamos com zelo e paixão às reportagens. Quando chefes, anos depois, divergíamos, mas sempre fomos leais um com o outro, não importa o que nos separasse. Nossa relação estava além das divisões no jornal, no Grupo Estado. Demiti-me quando ele se tornou diretor do Estado e JT, por não estar contemplado em seus planos, e porque tinha também sido demitido quem nos contratara para o JT, o Murilinho Felisberto, a “Rainha”. Qualquer que fosse o caminho que nos separasse, tínhamos o atalho que nos unia, irmãos de uma mesma empreitada, repórteres forjados no mesmo celeiro, então jovens da mesma geração, ele imigrante e eu filho de imigrantes. Guardo na memória uma tarde em que nos divertimos bastante. Tinha postado no site da Agência Estado um mosquito voando, já não me lembro o motivo. Sempre que ele surgia na tela, Sandro o atacava com um jornal enrolado, tentando acertá-lo como a uma mosca que só pára, morta. A cada série de jornaladas no monitor, ríamos contagiando outros na redação. Continuarei na estrada, em férias agora pesarosas. O atalho sumiu. Fica a imagem do caçador sorridente do mosquito virtual. Ciao, Sandro, Ciao. Beijo, Vera.

Rita Tavares

Tenho muita gratidão ao Sandro Vaia. Quando voltei a SP depois de 10 anos como repórter de política, resolvi mudar de rumos. Bati na porta da AE e pedi uma vaga na Economia. Ele não entendeu, insistiu que eu voltasse para política mas foi generoso e topou o risco, ao me contratar. Fiquei 15 anos por ali. Foi um dos maiores chefes que ive. Descanse em paz, Sandro.

Lu Fernandes

Triste demais com a morte de Sandro Vaia. Jornalista brilhante, correto, íntegro. Cidadão preocupado com o País e corajoso nas suas posições. Fará muita falta.

Magda David Hercheui

Morreu Sandro Vaia. Um dos grandes jornalistas deste Brasil. Trazia inteligência e ética para as nossas discussões. Dava um exemplo de um jornalismo sério, que não se dobra às conveniências. Trabalhei com o Sandro durante dez anos. Devo muito a ele, tanto que não cabe em palavras. Este grupo foi criado a partir de conversas com Sandro, por conta de nossas preocupações com o avanço das atividades nada republicanas do Partido dos Trabalhadores e seus alinhados. A cada dia vemos a confirmação de que suas preocupações estavam certas. O Brasil ficou mais pobre hoje. Deixo aqui minha homenagem ao amigo Sandro e ao jornalista Sandro Vaia, que honrou o jornalismo até os últimos dias de sua vida. Nossos pensamentos estão com sua família. Boa viagem, querido amigo.

Beth Lopes

Servaz, também me junto a você nessa hora tão triste… Perdemos nosso guia, nosso mentor no jornalismo… E eu perdi o melhor chefe que tive na vida, aquele que juntamente com uma redação fantástica, que incluía você e tanta gente querida, me deu ‘colo’ quando fiquei grávida da Vic. Gratidão imensa por tudo e pela honra de ter convivido com ele. Meu coração chora…  Siga em paz e na luz, Sandrao, com todo nosso amor e gratidão.

Angélica de Moraes

Morre um dos maiores jornalistas brasileiros. Tive a honra de conhecer Sandro Vaia quando ele chefiava a revista Afinal, onde colaborei com críticas de artes visuais na metade dos anos 1980, recém chegada de Porto Alegre e buscando inserção no jornalismo cultural paulistano. Sandro Vaia acolheu meus textos e serei sempre grata por essa oportunidade. RIP, mestre! Obrigada, Sérgio Vaz, meu querido editor, por noticiar o fato com um texto memorialistico de primeiríssima qualidade, como o homenageado merece.

Márcia Pinheiro

Como todos sabem, morreu Sandro Vaia, que foi meu chefe por 12 anos na Agência Estado. Não, nunca fui amiga dele. Era apenas uma subalterna que o consultava a cada pauta mais delicada. Era, talvez, uma aprendiz. No fundo, sempre achei o cara um grande sarrista. Um lado que eu particularmente adorava. Aos amigos próximos e à família, meu conforto.

Ricardo Noblat

Sandro colaborou semanalmente com o blog desde 2009. Foi uma inteligência privilegiada, um jornalista de raro talento e um homem digno acima de tudo.

O Antagonista

Sandro Vaia morreu.

Ele foi diretor do Estadão. Ele foi também colaborador de O Antagonista.

Eu, Diogo, logo depois da estréia do site, pedi para que ele nos enviasse uma frase por semana.

Ele topou imediatamente.

Expliquei que não tínhamos dinheiro para pagá-lo.

Ele respondeu:

“Não tenho aspirações profissionais a esta altura da vida. Só aspiro a desinfetar um pouco o ar poluído que respiramos neste país”.

Com sua morte, a qualidade do ar piora um bocado.

3/4/2016

2 Comentários para “Sandro Vaia por Elói, Gazzi, Mariangela, Josué, Rita, Lu…”

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