Quem, como, onde, quando, por quê

Um ônibus pegou fogo por volta das 20 horas desta segunda-feira, dia 26, no bairro do Sumaré, Zona Oeste de São Paulo. O fogo se alastrou para dois automóveis e atingiu também uma árvore, provocando uma nuvem gigantesca de fumaça que podia ser avistada de vários bairros da região. Não houve feridos.

zzzzzzzzz-500O incidente aconteceu na Rua Bruxelas, bem perto da Rua Havaí e do trecho final da Avenida Doutor Arnaldo. É um trecho de subida forte. Segundo testemunhas, estava vazando combustível do ônibus; houve um tranco, a traseira bateu no chão, com o impacto, surgiu uma faísca.

O motorista deu ordem para que os passageiros descessem, o que foi feito aparentemente sem transtornos.

Os pneus derreteram com o fogo, e o veículo, desgovernado, começou a descer a ladeira de ré. Foi quando bateu num carro, e houve uma explosão.

Duas viaturas do Corpo de Bombeiros apagaram o incêndio.

         ***

O texto acima era o que meu amigo Valdir Sanches gostaria que eu tivesse escrito como legenda da foto que postei no Facebook.

Redigi agora, no meio da tarde de quarta-feira, com base em informações tiradas daqui e dali – de uma primeira notícia publicada no site da Folha de S. Paulo e em posts do próprio Facebook.

Redigi a notícia, é necessário explicar, como uma resposta à crônica brincalhona que o Valdir enviou para o 50 Anos de Textos.

Como sou um repórter ruim, o texto que fiz aí não contém algumas informações que seriam necessárias mesmo numa matéria pequena, se fôssemos seguir as regras do bom jornalismo.

OK, o lead, o primeiro parágrafo, tem os elementos básicos. Quem, ou o que: um ônibus. Como: pegou fogo. Onde: Rua Bruxelas, assim, assado. Quando: por volta das 20 horas, e tal.

Não tem o por que, o que motivou o incêndio. Tá, essa informação está lá, mais tarde – uma faísca teria atingido o ônibus do qual saía vazava combustível.

Não tem o nome da linha do ônibus. Por ali passam pelo menos três linhas de ônibus, que eu saiba. Uma delas é o Apiacás, o ônibus cujo ponto final fica a uma quadra do meu apartamento, e que Mary e eu usamos volta e meia, mais de uma vez por semana. Precisava especificar de qual linha era o ônibus.

Não há informações sobre os dois carros que foram atingidos pelas chamas. Uma boa notícia deveria trazer a marca e a cor de cada um deles. Se estavam estacionados ou se vinham atrás do ônibus.

Seria bom ter o nome do motorista do ônibus. Uma frase dele para colocar entre aspas. O número, ainda aproximado, de passageiros. Se possível, algumas frases entre aspas de dois passageiros, pelo menos.

Mas, para isso, eu teria que ter saído daqui de casa no momento exato em que minha filha me mandou a foto feita pelo Carlos da janela do  apartamento deles, e ido até o local.

E teria que ter feito as perguntas certas às pessoas certas.

Teria, em suma, que ter agido como um bom repórter. Coisa que, repito, não sou, nunca fui. Não é frescura, falsa modéstia – algo que não tenho. Fui um bom jornalista, acho, e muita gente acha também – mas sempre fui da cozinha, da redação. Fui um excelente copydesk – o profissional que pega o texto do repórter e o melhora, aprimora, se necessário o reescreve inteiramente. E, depois, fui um bom editor, editor-executivo, editor-chefe. Mas nunca fui bom repórter.

***

Bem, os tempos mudam, a Lusitana roda e a imprensa, assim como o Natal, já não é a mesma. Eis o texto publicado no Estadão desta quinta, dia 27, sobre o incêndio:

“Incêndio atinge ônibus na zona oeste de SP

Um incêndio destruiu um ônibus ontem, por volta das 20 horas, na Rua Bruxelas, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, de acordo com o Corpo de Bombeiros. As chamas também atingiram uma árvore e dois veículos, mas não houve vítimas. A corporação não informou as causas do incêndio.”

***

Um toque a mais nesta historinha:

O inusitado acontecimento se deu a menos de cem metros do prédio em que reside o respeitado jornalista Melchíades Cunha Júnior! Aposentado, sossegadão, o indigitado periodista nem precisaria ter saído em desabalada carreira para estar no local do fato no momento em que este se dava. Bastaria ter pego o elevador, caminhado 50 metros e entrevistado motorista, cobrador, passageiro. E feito um bom texto, que poderia ter terminado com a informação de que, não tendo havido feridos, nenhum dos passageiros precisou ser levado para o nosocômio mais próximo do local do sinistro.

Este parágrafo acima tem os termos apropriados para uma reportagem dos anos 40, caríssimo Valdir?

28/12/2016

Foto Carlos Bêla

2 Comentários

  1. Postado em 28/12/2016 às 4:35 pm | Permalink

    Sergio, as duas notas mostram bem a diferença entre o jornalismo de “pé na estrada”, de antigamente, e o de “bunda no sofá”, de agora!

  2. valdir
    Postado em 28/12/2016 às 5:28 pm | Permalink

    Bem, o coletivo foi destruído, mas não houve feridos para ser levados ao nosocômio e atendidos pelos facultativos de plantão. Tampouco deu-se o clássico “morreu ao dar entrada no PS”.
    Minha implicância, não com Sérgio Vaz, mas com a Folha, foi a falta de referência a vítimas. O que o Estado resolveu na terceira linha e Sérgio na quarta: não houve feridos. Poderia ser, no primeiro momento, “não se sabe se há vítimas”. Preocupação com o mais importante, a vida humana.
    Sergio Vaz é ótimo repórter, como tem mostrado na cobertura de suas viagens a lazer. Vem um texto completo, detalhado, muito bem escrito sobre aqueles momentos de descanso.
    De tudo, o que me deliciaria no episódio do ônibus seria Sergio, ao ter a foto de Melchiades, dizer para ele: “Mel, em cinco minutos estou passando aí para cobrirmos essa história”. E Melchiades: “To pegando caneta e bloco e descendo para a portaria.”

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