Pílulas

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Sou um fanático da pílula. E há pílulas de humor – frases ácidas, episódios insólitos – que, na sua concisão e surpresa, valem mais do que qualquer crónica. Vamos, então, às pílulas:

  1. Deixem-me elogiar o crítico de cinema económico. Perdeu-se no tempo o autor e nem o meu velhinho Halliwell’s nem a New York Magazine onde ressuscitam a “crítica”, o referem, mas ninguém escreverá melhor recensão do que esta ao Ben-Hur, de Cecil B. DeMille: “Adorei o Ben, odiei o Hur.”
  2. E já não sei se foi quando a peça estreou na Broadway ou se foi quando se exibiu o filme, mas Walter Kerr, crítico disso tudo no New York Herald Tribune, expressou em três palavras o êxtase estético que lhe inspirou a obra em causa, “I Am a Camera”: “Me No Leica.”
  3. Todos os cinéfilos sabem que Cleopatra, filme de Joseph Mankiewicz, Elizabeth Taylor e Richard Burton, teve uma derrapagem hiperbólica nas filmagens. Em tempo, gente e dinheiro. Quando o produtor, Walter Wanger, finalmente visionou as três horas e picos de filme, disse logo, radioso: “Se toda a gente que entra no filme o for ver ao cinema, pagamos de certeza os custos.” O próprio Mankiewicz, num rasgo de lucidez, acabou por confessar: “Foram os três filmes mais lixados que eu já fiz.”
  4. Pode haver quem não saiba, mas a produção de Gone With the Wind, um dos maiores êxitos de bilheteira de sempre, foi uma verdadeira “geringonça”. A começar na escolha dos actores e a acabar nos realizadores. David O. Selznick, o visionário produtor, teve de substitui George Cukor. Contratou Victor Fleming e como o dinheiro escasseava, propôs-lhe uma percentagem na bilheteira. Fleming cortou-lhe as vazas: “Não sejas maluco, David. Este filme vai ser o maior elefante branco de todos os tempos.”
  5. Humphrey Bogart começou a ficar careca cedo. Um produtor parvo apontou-lhe o dedo ao crânio impiloso. Bogart ia-o matando: “Os cabelos na cabeça que vão para o inferno. O que conta são os cabelos no meu peito.” Sem entrar em intimidades, que não sou de trazer o meu peito para esta coluna, sinto-me, vá lá, desagravado, nas palavras de Bogart.

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Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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