Para complicar nossa vida

Concluí que existe, nas fábricas de eletrodomésticos, o DPCVC – Departamento para Complicar a Vida do Consumidor. Veja o caso do forno elétrico que comprei. Os botões de regulagem são pretos, sobre fundo preto. Esses botões têm uma bolinha, uma marca em alto relevo, para indicar o ponto em que vai a regulagem.

A bolinha podia ser branca, amarela, vermelha, mas não – é preta. Pequena e preto sobre preto. Se a sua cozinha não for bem iluminada, vai precisar de uma lanterna para enxergar a marcação.

O painel indica: ligado à esquerda, desligado à direita. Para aquecer um pão, por exemplo, não caía na tentação de passar do desligado para o ligado, girando à esquerda. Nada acontece. Passe do desligado para a imponderável direita, e aí sim funciona.

Substituí o antigo forno, um chinesinho, por um Philco. Vamos prestigiar a indústria nacional, garantir empregos. No fim do livreto de assistência técnica, encontrei: Fabricado na China. Importado por… apenas o número de um CNPJ de Joinville.

Outro problema são os manuais de instruções. Tenho a impressão de que são escritos por técnicos, engenheiros, gente que não entende de comunicação. O que aconteceu com a lavadora de roupas Samsung que comprei ano passado? Esconderam a manchete.

Chegou, minha cunhada deu uma espiada vertical no manual de 40 páginas, e pôs a máquina para funcionar. Pulava como burrico enfezado. Liga-se para a assistência técnica. A mocinha: “Precisa tirar os parafusos”.

Na página 16 do manual está escrito que, para o transporte, o motor vem preso por quatro formidáveis parafusos de quinze centímetros. Ficam na parte de trás da lavadora. Esses é que se tem que tirar. Está claro que em cima da máquina deviam colar um cartaz: ANTES DE LIGAR RETIRE PARAFUSOS DO MOTOR. Podíamos ter feito um grande estrago por falha de comunicação.

O DPCVC nos oferece outras atrações. Móveis de cozinha com acabamento em arestas vivas de alumínio – lâminas que ferem. O porta- escorredor de talheres lavados, todo vazado. Você põe os talheres, eles escapam para a pia e o chão. E o Oscar vai para… o porta-shampoo. Espirrou, cai tudo o que se põe nele. Recomenda-se que, antes do banho, retirem-se os frascos e os deixe sobre a pia. Ou jogue no chão de uma vez.

Janeiro de 2016

 

 

17 Comentários para “Para complicar nossa vida”

  1. hahahahahahaha
    Rir pra não chorar.
    Já passei por umas boas irritações desse tipo.
    Muito bom!

  2. DPCVC- DEPARTAMENTO DE COMPLICAÇÃO DO VALDIR CONSUMIDOR.
    Nosso amigo que o que? Trocou casa por apartamento. Tem facilitador de xercícios físicos, usa serviços de marido de aluguel, aquece pão em forno elétrico, comprou uma lava roupa caríssima e retirou o trabalho da sua lavadeira que lavava e passava sem quatro parafusos traseiro, deixou de produzir emprego e renda em troca de custo benefício altamente duvidoso se colocado na calculadora de qualquer sardenberg. A cozinha planejada supera em planejamento a qualquer PAC. Há bem pouco tempo atras, nosso amigo fazia de tudo em casa, lavava, passava, cozinhava, sem precisar de manual. Sem contar a sua saga com os controles remotos. O moderno Valdir a cada dia descobre que as novas maravilhas propagandeadas precisam de bula e não de manuais, as bulas alertam quando ao uso indevido e seus efeitos.
    Feliz 2016 Valdir.
    ET. Kátia você ia rir muito com o relato do Valdir tentando ligar as lâmpadas pisca pisca da árvore de natal.

  3. Kátia, e não contei nem metade do drama.
    Miltinho, você diz que a lavadeira lavava e passava sem quatro parafusos. Pior é a Dilma, que tem um parafuso a menos, não lava a jato, mas também não passa o ferro como devia.
    (Jesus, livrai os leitores deste site de comentários infames.)

  4. Valdir enquanto eu enchia o site de infames comentários, minha mulher se feria nas arestas de um móvel da cozinha. Um manual de pequenos socorros seria apropriado.

  5. Excelente. É desse jeito mesmo, infelizmente (sem falar na obsolescência programada dos eletros de hoje).
    Acho que as pessoas que escrevem os manuais são de Exatas.
    Agora isso de colocar um botão preto sobre fundo preto e mais a bolinha preta é, em bom português, burrice pura e simples, hein?! Não pensam nem na “vista cansada” das pessoas de mais idade. Ergonomia pra quê, não é mesmo?

  6. Jussara, você tocou em um ponto fundamental, a obsolescência planejada. A indústria não respeita nem a obsolescência não planejada do consumidor (no meu caso).
    Miltinho, li seu texto rapidamente, porque uma pilha de louça me esperava. Reli, e digo-lhe o seguinte. Essa exuberância toda que você cita se resume a uma faxineira de vez em quando e móveis da classificação CB (Casas Bahia), que, por sorte já estavam no apartamento. Se as novas maravilhas viessem com bula, eu me daria bem. Me especializei nessa leitura de suspense.
    Miltinho, grande 2016 para você.

  7. Valdir enquanto te lia minha mulher foi ferida por maldita quina do móvel da cozinha. E o merthiolate, ( vide Bula ) um medicamento anti-séptico que tem como substância ativa o Digluconato de clorexidina , veio em moderna embalagem tipo bicos de pulverização ( sprays ) que me causou certo embaraço. O acidente me transformou de “agente operador” de primeiros socorros a “operador de pia” já que a lavadora de louças, nunca utilizada, que há 10 anos enfeita a planejada (?) cozinha permanece passiva a espera que eu leia o maldito “manual” escrito em mau português pelo anedótico “manuel”. A modernidade nos espreita em 2016.

  8. Miltinho, pois é, enquanto nos esfalfamos como pianistas, Sérgio Vaz se muda para hotel em algum lugar exclusivo do nosso litoral, acompanhado de D. Mary, da doce Marina, e da baby sitter. É verdade que ele merece férias, por sua vigilância constante e implacável dos desmandos do governo e malfeitos do PT.
    Nada mais justo que, no ameno anoitecer praiano, depois de um dia de comunhão com a natureza, solicite ao garçom seu Johnny Walker Blue, acompanhado de amáveis acepipes.
    Dona Mary também saberá se cuidar… Bem só nos resta esperar pela volta do titular da página, revigorado e sorridente.

  9. O meu celular foi vítima de obsolescência não planejada. Tropeçou e caiu no balde de gelo do vinho, no restaurante Palato, de Maceió. Devia estar bêbado. No momento, está dentro de um pote de arroz, pois me indicaram isso como técnica revolucionária de secagem de eletrônicos. Estou escrevendo de um xing ling que comprei por 94 reais. A compahia telefônica aqui em Maceió diz que só me dará um celular novo se eu for numa loja de Brasília,onde moro. A família me aconselha a tirar o escorpião do bolso. Mas ainda tenho esperança no pote de arroz. Excelente texto, como sempre, Valdir.

  10. Ao sair do pote de arroz, e caso não se recupere, para onde seguirá o obsoleto artefato? Para o lixo descartável de Maceió ou para lixões de reciclo de Brasília?
    Valdir, será que Servaz e Luiz estão juntos no JatiúcaResort? Morro de inveja destes coxinhas.

  11. Luiz Carlos, não chego a dizer que é cinismo, mas o bêbado da história ser o celular me parece um nadinha improvável. Em todo caso, o fabricante poderia prever casos de afogamento em baldes de gelo, desde que o rótulo da garrafa fizesse jus, o que parece ser o caso. A companhia telefônica está coberta de razão. Não custa você comprar uma passagem para o celular e embarca-lo aos cuidados de uma comissária.
    Miltinho, coxinhas? Não conheço nenhum coxinha. Mas que eles podem estar no Jatiúca em ameno congraçamento, podem.

  12. O pote de arroz não fez nenhum efeito ainda. O pior é que andam comendo o arroz do pote. De vez em quando minha mulher rouba e cozinha duas xícaras do meu revolucionário secador de celulares. Escondi o pote numa gaveta, mas minha mulher e meus hóspedes me obrigaram a revelar o esconderijo. É torturante escrever neste xing ling de 94 reais.

  13. Não e não. Ou seja: so contrário do Sérgio Vaz, não frequento hotéis caros como o Jatíúca. E os meus hóspedes aqui no Kevala não são o famoso casal. Só para você ter o prazer de me chamar de coxinha, Miltinho, Kevala é o nomedo edifício na Pinta Verde node fica

  14. …Kevala é o nome do edifício na Ponta Verde onde fica o meu apartamento de férias em Maceió. O bairro é vizinho à Jatíúca. Caso encontre o famoso casal no calçadão,aviso.Só não mando mando foto do flagrante porque este xing ling que vos escreve não tem câmera.

  15. Luiz, já conhecia seu AP de Maceió de outros textos e verões. Fiz apenas uma malvada alusão às férias dos coxinhas em um texto ficção sobre um provável encontro em prais do nordeste brasileiro. Sei muito bem que o AP fica na Pinta Verde próximo a Jatiúca e bastante distante do Malecón paraíso dos petistas.
    Invejo seu bom gosto nacionalista, se encontrar Sérgio transmita meus votos de bom 2016 extensivo a você e aos surrupiadores do seu terapêutico arroz.

    E.T. Valdir continua pautando bem atestam, Kátia, Jussara, Luiz e EU

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