Olho gordo

Tema único na agenda, na cabeça e no discurso da presidente Dilma Rousseff, o impeachment tem acentuado o distúrbio bipolar que desde sempre acomete o seu governo. Nesta última semana, os altos e baixos que até pouco tempo a psiquiatria classificava como maníaco-depressivos oscilaram com velocidade estonteante. Como espasmos, Dilma, Lula e os seus cantaram vitórias e amargaram derrotas sucessivas. E não conseguiram debelar os surtos.

A insistência de Dilma em escapar da realidade, conferindo ao seu governo e a si méritos imaginários, parece se encaixar no descritivo de psicopatias graves.

Na sexta-feira, ao entregar moradias do Minha Casa, Minha Vida, Dilma garantiu que fazia um enorme esforço para continuar os programas sociais na crise, eximindo-se da responsabilidade de ter degringolado a economia. Mais um pouco, diria que a culpa era de FHC.

Depois de repisar a tese de que impedimento constitucional é golpe, acrescida agora do adendo de que ela não cometeu crime de responsabilidade, Dilma reeditou a lengalenga de que seus opositores apostam no quanto pior melhor. Mas foi além: acusou-os de botar olho gordo.

Olho gordo significa mau-olhado ou inveja. Na primeira acepção é pouco provável que opositores estejam fazendo reza brava para afastar a presidente. Até porque têm apostas mais consistentes – processos de impeachment em curso no Parlamento e de cassação no TSE. A outra hipótese só seria aplicável pela cobiça direta ao cargo, algo que só poderia ser atribuído ao vice Michel Temer.

No mais, difícil imaginar que alguém tenha inveja da posição de Dilma, execrada por mais de 70% dos brasileiros. Muito menos inveja de seu governo, um dos piores de que se tem notícia.

Impedida ou não pelo Parlamento ou pelo TSE, Dilma deixará um estrago de dificílima recuperação nas próximas décadas.

Conseguiu, com êxito, fazer o país retroceder 25 anos, incluindo aí a área social que, em discurso, é tão cara ao petismo. Uma derrocada que começou no segundo mandato de seu patrono Lula, e que de lá pra cá só se aprofundou.

Tudo o que se fez em nome dos pobres quando visto a olho nu, revela o inverso.

Mais de 50% dos R$ 40 bilhões das pedaladas apontadas no processo de impeachment, que o governo diz ter operado para garantir programas sociais como o Bolsa Família, foram para subsidiar investimento privado de amigos – boa parte deles grandes empresários -, por meio do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES. Ao todo, o Bolsa Família custa R$ 27 bilhões ao ano, menos de um terço do déficit já assumido pelo governo para 2016, e que deve chegar a muito mais.

Mais grave: em programas que realmente garantem desenvolvimento e qualidade de vida, andou-se rapidamente para trás.

No saneamento básico, conforme revelou reportagem de Giovana Teles (Jornal da Globo) em parceria com o Contas Abertas, a irresponsabilidade governamental é criminosa. Dos R$ 62 bilhões previstos nos PAC 1 e 2 para água e esgoto, apenas 7% foram executados. Desde 2007. Não à toa, 35 milhões de brasileiros não têm água tratada, a coleta de esgoto chega só a 48% e tratamento é quase luxo. Depois, ficam estarrecidos com surtos de dengue, zika e chikungunya.

O quadro de desgoverno total se repete na Educação, em que os alunos brasileiros perdem para o terceiro-mundo, e na Saúde, área em que o país amarga a 50ª colocação na pesquisa da Organização Mundial da Saúde/2014. Um pornográfico penúltimo lugar, atrás da Argélia, Irã e Azerbaijão.

Paralelamente, o país gasta mais de R$ 400 bilhões com a máquina pública federal, R$ 214 bilhões em salários. Custeia nada menos do que 113 mil cargos de confiança, 30% deles de livre provimento. Ao mesmo tempo, amarga o segundo ano consecutivo de crescimento negativo e recessão, com mais de 10 milhões de desempregados.

Dilma vive hoje a alucinação de que é vítima de um complô conspiratório. Deve ser perturbador. A mesma Dilma encantada com os olhos que pareciam de lince de seu marqueteiro e que na campanha à reeleição mentia sem pudor ao prometer um governo de encher os olhos, agora reclama de olho gordo.

Mas no caso dela nem as imbatíveis sete ervas — espada de São Jorge, comigo-ningúem-pode, guiné, arruda, pimenteira, alecrim e manjericão – salvam.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/4/2016.

3 Comentários para “Olho gordo”

  1. Só o que funcionou bem no governo Dilma foi o marketing. Uma das heranças mais preocupantes que a incompetência petista nos deixou foi uma profunda desindustrialização. Hoje praticamente nos limitamos a exportar produtos agropecuários e minerais. Em compensação, até os produtos menos sofisticados são importados da China, com nossa indústria fechando por não conseguir competir. Não dá para ser independente à custa de produtos primários. Mas o percentual de participação da indústria no PIB desabou. A ironia é que fomos reconduzidos à vala comum da dependência tecnológica por um partido que dá murros na mesa contra o imperialismo econômico.

  2. Olho gordo na exata medida. Um partido que fingia dar murros na mesa e um governo que se ufanou em sexta economia as custas de venda de boi, soja, minério, de olho gordo no petróleo a 100 dólares o barril.
    A Fiesp mostrou-se incompetente sem ajuda do Estado, como se a queda do PIB pudesse ser creditada indústria. O setor de serviços nele incluídas as empreiteiras e a Petrobrás sofreram consideráveis reduções.
    O capital imperial é taxativo ao afirmar que: quem não sabe brinca não desce para o play. Palmas para os chineses que além de brincar passaram a donos da bola, a brincadeira permitida foi mão de obra barata e mercado consumidor atrativos ao capital.
    Não brinquem direito com o capital imperialista, pois podem sofrer embargos em represália.
    Não basta ter olho gordo há que ter coragem e competência.

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