O que eu fiz com meu primeiro salário

Meu primeiro salário veio dentro de um envelope marrom, alto, estreito, típico dos RHs da época, quando o uso dos bancos ainda era muito restrito. Foi em espécie, não me lembro o valor, só me lembro que era gordo: eu havia conseguido meu primeiro emprego por indicação de meu irmão, Mauro, diretor de um banco que atendia solícito às demandas do meu primeiro patrão, Moysés Gorodetski, dono da São Bento TV Discos, uma loja de eletrodomésticos na Rua São Bento, na parte mais nervosa do que hoje é chamado de Centro Velho de São Paulo.

Eu era um misto de auxiliar de escritório/office-boy. Trabalhava num mezanino de madeira no interior da loja em companhia de Raquel, uma moça linda, de olhos grandões e bem delineados, minha primeira chefe. Ficou indignada com a minha contratação: ela queria um auxiliar experiente e seu Gorodetski lhe deu um “meninão” que nunca havia usado uma máquina de calcular na vida – eu. Na verdade, eu entendia mais de escritório que o Sílvio Santos de energia nuclear, ou seja, necas de pitibiriba, como se dizia na época… (A referência a Sílvio Santos é porque na época em que estas histórias se deram ele já reinava absoluto na televisão brasileira.)

Raquel passou a gostar de mim ao perceber meu empenho em ajudá-la e em aprender de tudo tão rapidamente quanto possível. Não precisei mais de um mês de experiência para atender, sozinho, os clientes que compravam a crédito: eles sentavam, um a um, a minha frente e eu fazia as perguntas-padrão — endereço, renda, se casa própria ou alugada, etc. etc.

Puxava conversa e já manifestava as características que me levariam ao jornalismo alguns anos mais tarde: curiosidade, habilidade no relacionamento, prazer em entrevistar as pessoas. Essa era uma das atividades agradáveis da minha nova e primeira função.

Havia as tarefas detestáveis, como passar às vezes um dia inteiro ligando para clientes para dar alguma informação do interesse de cada um, ou da loja. Depender do telefone, nessa época, era uma verdadeira tortura. Uma ligação, apenas UMA LIGAÇÃO, demorava duas ou três horas e só se completava com muita sorte; para se ter idéia das dificuldades, estavam proibidos os programas de TV ou de rádio que dependiam de telefonemas de telespectadores e ouvintes, o que hoje é até incentivado.

Foi, aliás, o maldito telefone que me pôs pra fora do primeiro emprego. As circunstâncias de minha primeira demissão merecem ser relembradas.

Uma filial

A São Bento TV Discos crescia, esbanjava progresso. Eu ainda estava lá quando foi aberta uma segunda loja, numa galeria de comércio nas imediações. Dudu, o filho de Gorodetski , tomava conta dessa filial, que começou a funcionar sem sequer um telefone. Quando tinham ligações para Dudu, éramos orientados a chamá-lo. Eu, besta, fui atender uma das ligações, peguei só o nome de quem ligou e corri para chamá-lo.

Ele conhecia a pessoa e foi para a matriz correndo. Eu voltava também, mas não consegui alcançá-lo. Ao chegar à matriz ele já tentara atender ao telefonema, mas a ligação havia caído.

Tão logo me viu, foi pedindo: “Anda logo, rapaz, me dá o telefone de Fulano”. E eu repliquei, ainda calmo: “Não anotei, Dudu; pensei que você soubesse”.

Dudu ficou histérico! Começou a gritar: “Incompetente! Estúpido!”. O que ele não esperava, aconteceu: reagi com o mesmo destempero e no mesmo tom de voz!

– Estúpido é você! Incompetente é você! – eu respondia enquanto subia para o mezanino, onde Raquel me esperava com os olhões ainda mais abertos, de assustada.

Dudu subiu atrás de mim e atrás dele subiu seu pai já com o cinto em punho! Não pude ver o que aconteceu lá embaixo, mas sei que Moysés expulsou o filho da loja sob uma tempestade de chibatadas. Dudu tinha, quando muito, 28 anos.

Acompanhei a sequência da “novela” via relatos de Raquel e de outros funcionários para os quais o “garoto do mezanino” transformara-se num herói ou em alguém que teve a coragem de responder, com altivez, a usual “arrogância” do filho do patrão. Dudu escondeu-se em Miami e de lá, por telefone, que nos Estados Unidos já falava com todo mundo, chantageou o pai, que, abatido pela saudade, o trouxe de volta com a condição de, antes, demitir seu “agressor”.

Eu gostei do desfecho: foi Raquel que calculou minhas “verbas rescisórias” e o fez com raiva de Dudu e generosidade para com o auxiliar que iria perder.

Pagar contas

Havia também outras atividades prazerosas, como sair, sempre a pedido do patrão Moysés Gorodetski, para pagar contas atrasadas no caixa das agências bancárias. Eu era perito em livrar a São Bento TV Discos dos juros de mora pelo atraso. Dava uma chorada com o caixa, dizia que o responsável pelo atraso era eu, e alguns se comoviam e liberavam o pagamento sem ônus. Gorodetski sorria e me dava um gostoso abraço de agradecimento.

Isto tudo acontecia em 1966, ou seja, dois anos depois de instaurada a “Redentora”, como era chamada, já com ironia, uma das mais virulentas ditaduras militares da América Latina, e na véspera dos chamados “Anos de Chumbo” (1968). Eu era um colegial cheio de sonhos.

Fui eleito presidente do Grêmio de um Colégio de mais de 4.000 alunos, se somados os três turnos — manhã, tarde e noite. Estudava à noite e trabalhava durante o dia para ajudar no sustento da família.

Não demoraria muito para ter início a agitação estudantil que quase me leva para a luta armada. Fui salvo pelo medo e, principalmente, pela racionalidade de menino que despertara para a vida muito cedo: nunca vi alguma lógica no enfrentamento da ditadura pela força.

O jovem sacudido pela mãe às 5 horas da manhã tomava café e partia, ainda sonolento, com uma marmita embaixo do braço (que vergonha de ser pobre, meu Deus !). Morávamos num bairro de São Caetano do Sul (Vila Gerty), tomava um ônibus para ir até o centro da cidade, onde tomava outro para São Paulo. Descia no Parque D. Pedro I, subia a General Carneiro e ía a pé até à rua São Bento.

Ônibus sempre lotado, na ida e na volta! No primeiro ônibus para o centro de São Caetano, encontrava-me por vezes com três integrantes dos Demônios da Garoa, meus ídolos até hoje.

No Colégio, participei e venci um concurso de Oratória. Foi a Raquel, minha nova companheira de trabalho, quem ajudou a preparar meu primeiro discurso: uma comparação entre Brasil e México. Não me lembro mais o que disse, mas o disse com tamanha empolgação que a comissão julgadora não hesitou em me conferir o primeiro lugar.

Nessa época, durante a Copa do Mundo de 66, íamos, meu pai, meu irmão Luiz, e eu assistir aos jogos no televisor de meu irmão Mauro, que morava lá pelo centro da cidade. A caminhada era de 20 quilômetros de ida e volta, mas valia a pena pelo convívio entre irmãos e a qualidade do futebol que presenciávamos, com direito a ver Pelé, Garrincha e outras belezuras. A TV chegaria em casa só em 69.

Ah, já me ía esquecendo de dizer o destino dado ao meu primeiro salário, recebido numa sexta-feira: nem tirei o dinheiro do envelope, levei para casa, e, no sábado à tarde, tomei um ônibus e fui entregá-lo para meu irmão mais velho, Lauro , que insistia em ser agricultor numa várzea de São Bom Jesus dos Perdões, a 100 quilômetros de São Paulo. Lauro havia escrito à família uma carta para informar que passava por grandes dificuldades: “No próximo sábado, vou vender a mangueira de irrigação e quando gastar esse último dinheirinho só Deus saberá o que vai me acontecer…”

Lauro foi o primeiro irmão a partir, não faz ainda cinco anos.

Acho, portanto, que meu primeiro salário teve um ótimo destino, não acham?

Agosto de 2016

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