O PT sempre foi contra o país

Seu líder supremo, o Messias, Sua Santidade Lula I e Único, pode até se dizer uma metamorfose ambulante, e negar hoje boa parte do que afirmou ontem, mas o PT não pode ser acusado de incoerente, inconstante. Muito ao contrário. Entre o bem do PT e o bem do Brasil, o partido jamais ficou no muro, jamais tucanou, jamais negaceou, jamais tergiversou: primeiro o PT – e o Brasil que se dane.

É sempre bom lembrar:

Quando, derrotada a proposta de diretas-já para a presidência da República, foram colocadas duas candidaturas ao colégio eleitoral, uma que representava o status quo, a ditadura, os militares, outra que representava a oposição democrática à ditadura, o PT não escolheu nem uma coisa, nem outra. E expulsou os deputados que ousaram votar em Tancredo Neves – Beth Mendes, José Eudes e Ayrton Soares..

(Sim: apenas 3 gatos pingados petistas votaram contra Paulo Maluf no colégio eleitoral que pôs fim à ditadura. E foram expulsos do partido. É sempre bom lembrar.)

Quando, vencida finalmente a ditadura militar – não pela outra ditadura que os guerrilheiros da luta armada, Dilma Rousseff inclusive, queriam implantar no país, e sim pela democracia –, foi aprovada a Constituição Cidadã, o PT não a assinou.

Quando, afastado Collor após o processo de impeachment apoiado por quase todos os partidos políticos, inclusive, claro, o PT, instalou-se um governo de união nacional, e o novo presidente, Itamar Franco, convidou a petista Luíza Erundina para o ministério, o PT a expulsou.

Quando o governo Itamar Franco ofereceu ao país um plano para derrotar a hiper-inflação, o PT condenou virulentamente o projeto.

Quando, vencida finalmente a hiper-inflação com o Plano Real, sem o apoio do PT, o governo FHC ofereceu ao país a possibilidade de ter uma Lei de Responsabilidade Fiscal, o PT foi violenta, virulentamente contra o projeto.

Quando o governo FHC privatizou serviços que não cabe ao Estado prestar, nas áreas de infra-estrutura, permitindo que finalmente, depois de décadas de imenso atraso, os brasileiros pudessem, entre outras coisas, ter acesso a uma linha telefônica, o PT foi alacremente, espalhafatosamente, ruidosamente contra.

Agora, quando, após 13 anos no poder, tendo mergulhado o país na mais grave crise econômica, política e moral de sua História, o PT se vê ameaçado de ter que deixar o poder através de instrumentos absolutamente legais, previstos na Constituição, mais uma vez ele prefere tentar salvar sua pele – e o Brasil que se dane.

De uma forma nunca antes vista na História, um partido apela ao mundo contra as instituições do próprio país que ele governa!

O PT clama à comunidade internacional que está em curso um golpe de Estado no país. Levado a cabo por um complô entre o Legislativo, o Judiciário e a Imprensa Golpista!

Seria uma fantástica piada de humor negro, se não fosse trágico.

A patética figura que arruinou a que já foi a sétima ou oitava economia do mundo, que arrasou com a empresa que já foi uma das maiores do mundo, a Petrobrás, que permitiu o alastramento do mais deslavado e bilionário sistema de corrupção já conhecido na História, e o partido que a apóia, pedem que as instituições internacionais trabalhem contra o Brasil!

***

Noticiou-se fartamente que Dilma Rousseff denunciaria o “golpe” ao falar na tribuna da Organização das Nações Unidos, durante a reunião mundial para tratar das ameaças das mudanças climáticas, na sexta-feira, 22 de abril.

Não: na hora de seu pronunciamento oficial, Dilma não ofendeu tanto assim o país. Não falou a palavra golpe. Só caiu em absurda contradição, dizendo que as instituições brasileiras estão firmes mas o país enfrenta o perigo de um “retrocesso”.

Só porque não houve o vexame maior de incluir o “golpe” no discurso oficial, muita gente respirou aliviada – inclusive um grande e íntimo amigo meu, que chegou a dizer que a mulher foi “inteligente, comedida”.

Inteligente, comedida coisa alguma – para não falar outras expressões mais vigorosas. Poucas horas depois, em entrevista a jornalistas perto do prédio da ONU, ela disse: “Está em curso no Brasil um golpe, então eu gostaria que o Mercosul e a Unasul olhassem esse processo.”

A presidente da República Federativa do Brasil pede que órgãos internacionais – em que há forte presença de “bolivarianos” – prestem atenção ao processo de impeachment para aplicarem sanções ao Brasil!

É tão inacreditável, que é bom escrever de novo: a presidente do Brasil apela a organismos internacionais para aplicarem sanções ao Brasil!

É crime de lesa-pátria, sintetizaram, de imediato, leitores do Estadão.

Cecilia Prada escreveu no Fórum de Leitores do Estadão de 25/4:

“Uma chefe de Estado que denigre seu país e suas instituições e pede sanções contra eles a países estrangeiros e instituições internacionais não deveria ser processada por crime de lesa-pátria? Não há ninguém que proponha uma ação desse tipo?”

Aristeu T. de Mendonça escreveu:

“2016 – Dilma pede ao Mercosul e à Unasul que apliquem sanções, que podem estender-se de políticas, econômicas e até militares, contra o Brasil.

“1835 – Duque de Caxias, comandante das forças imperiais e presidente da Província do Rio Grande do Sul, respondendo à oferta do presidente Rosas de ajuda de tropas argentinas na luta contra os farroupilhas: “Senhor, o primeiro de vossos soldados que transpuser a fronteira fornecerá o sangue com que assinaremos a paz com os imperiais. Acima do nosso amor à República está nosso brio de brasileiros. Quisemos, ontem, a separação de nossa pátria, hoje almejamos a sua integridade. Vossos homens, se ousarem invadir nosso país, encontrarão, ombro a ombro, os republicanos de Piratini e os monarquistas do senhor dom Pedro II”.

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Como volta e meia diz a Mary, leitor é uma maravilha.

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Pedro de Alcântara Azevedo, leitor do Estadão:

“Ao falar no exterior a jornalistas em sanção contra o Brasil, a presidente cometeu ou não crime de lesa-pátria? Isso não enseja a perda da cidadania brasileira, além de outras medidas?”

José Wilson de Lima Costa, leitor do Estadão:

“Depois que a presidente Dilma Rousseff pediu sanções do Mercosul e da Unasul contra o Brasil, os senadores que ainda estão indecisos ou não querem responder sobre a votação do impeachment têm argumentos para decidir. Com mais este crime, de lesa-pátria, ela já não tem condições morais de governar o País.”

***

Têm a maior, a mais absoluta das razões, o PT e todos os partidos autoritários como ele, em fazer campanha firme, eterna, contra a liberdade de imprensa e a existência de jornais economicamente fortes e independentes.

São coisas que não rimam, que não dão certo, que não podem conviver, imprensa livre e regime autoritário. Um necessariamente haverá de excluir o outro.

Um dia depois que esses leitores demonstraram, com sua visão clara, límpida, direta, que pedir auxílio do mundo para ferrar o Brasil é crime de lesa-pátria, o embaixador Rubens Barbosa publicou artigo em que explica com perfeição, com nitidez absoluta, por que esse é um crime sério, pesado.

Na mesma terça-feira, 26, do artigo de Rubens Barbosa no Estadão, O Globo publicou um esclarecedor e importante texto de Pedro Dória, mostrando que, apesar de todo o berreiro do PT, a imprensa estrangeira percebe perfeitamente que não há “golpe” algum em curso no Brasil.

Na quarta, 27, editorial do Estadão pôs a nu que, à falta absoluta e total de argumentos, ao PT do Messias do Triplex só restou mesmo como arma a truculência – a forma mais abjeta, menor, idiota, de se tentar fazer política.

Transcrevo  estes excelentes textos aí abaixo, para a alegria de tê-los aqui no meu site.

Governo e PT atacam o Brasil no exterior

Artigo de Rubens Barbosa, no Estadão de 26/4/2016.

A radicalização da política interna, agravada com o pedido de impeachment da presidente da República, adquire contornos dramáticos com a decisão do PT de mobilizar forças internas e externas para denunciar um pretenso golpe contra a democracia no Brasil. Ministros do Supremo Tribunal Federal explicam que na discussão e votação do impeachment o devido processo legal vem sendo rigorosamente seguido e que é um grave equivoco insistir na tese do golpe e do retrocesso. Além da incitação interna – “não passarão”, “vamos à luta” – dos movimentos sociais (CUT, MST, UNE e outros), o Palácio do Planalto estimula ações que vão além das nossas fronteiras.

O governo e o PT não hesitam em fazer uso da máquina pública para tentar desinformar governos estrangeiros, organizações internacionais e a mídia sobre o que está acontecendo no Brasil com o objetivo de deslegitimar o futuro governo e atingir a imagem presidencial. As conexões externas do PT e de seus principais líderes – dentro e fora do governo – estão sendo mobilizadas para uma forte campanha contra o Brasil e suas instituições, junto a pessoas em organizações internacionais e governos afins ideologicamente.

Felipe González e Ricardo Lagos assinaram documentos críticos ao processo de impeachment. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e o alto comissário de Direitos Humanos emitiram notas oficiais contra o processo de impeachment, acusando as oposições de golpe. Na longa e inaceitável nota da OEA, Luis Almagro investe contra o Judiciário e o Legislativo brasileiros, chegando a afirmar que não há prova contra a presidente, em clara interferência em assunto interno do Brasil. O secretário-geral da Unasul, a pedido do presidente do Uruguai, emitiu nota criticando a aprovação do início do processo de impeachment na Câmara de Deputados. Os presidentes bolivarianos da Venezuela e da Bolívia se pronunciaram em clara interferência nos assuntos internos brasileiros. O presidente do Equador fez graves afirmações ao qualificar a Operação Lava Jato de Plano Condor e atacar o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal. Raúl Castro também saiu em defesa de Dilma em comunicado oficial do governo cubano. A ministra do exterior de um dos países-membros do Mercosul chegou a afirmar que o Brasil deveria ser suspenso caso a presidente Dilma seja afastada, colocando o Brasil no mesmo pé do Paraguai.

O normalmente esquecido corpo diplomático em Brasília foi convidado a participar da reunião no Palácio do Planalto em que a chefe de Estado fez pronunciamento inflamado dizendo que não renunciaria e que iria lutar contra o golpe. A sede de governo transformou-se em palanque político onde puderam ser ouvidas seguidas manifestações de militantes e de alguns embaixadores que repetiam palavras de ordem e gestos de punhos cerrados e braços esticados. Em encontro com correspondentes estrangeiros, a presidente e Lula repetiram a narrativa do golpe e de crítica ao Ministério Público.

A campanha no exterior adquiriu contornos de realismo mágico quando, depois de mencionar a grave situação e, contraditoriamente, afirmar ser o País uma democracia vigorosa, em evento da ONU sobre clima, a presidente da República pediu a aplicação da cláusula democrática pelo Mercosul e pela Unasul contra o Brasil, se for afastada. Sábado passado, o ministro de Relações Exteriores e o assessor internacional da Presidência visitaram o secretário-geral da Unasul e, em grave atentado contra a soberania do País, formalizaram pedido nesse sentido, em carta assinada por Marco Aurélio Garcia.

Essas demandas inusitadas – não me lembro de nenhum exemplo de chefe de Estado e de governo pedindo graves sanções contra seu próprio país – não levarão a nada, nem interna nem externamente. Com a possível exceção dos países bolivarianos (Venezuela, Equador e Bolívia), nenhum outro aceitará sequer examinar a aplicação da cláusula democrática contra o Brasil.

O que choca é a narrativa de golpe ser usada no exterior pelo governo e pelo PT contra o próprio país e suas instituições. O resultado é um desserviço ao Brasil, pois vai contra o interesse nacional e a imagem do País no exterior. Procura-se criar um clima venezuelano de confrontação e de instabilidade política que inexistem no Brasil. O futuro governo terá de executar uma estratégia de longo prazo para neutralizar essa campanha de lesa-pátria, construída para oferecer a narrativa do PT para as eleições de 2018.

Todos esses episódios contribuem para macular a percepção a respeito do trabalho sério e competente desenvolvido pelo Itamaraty, por representarem interferências indevidas no trabalho diplomático e em seus processos decisórios. Como ocorreu com a iniciativa de funcionário com notórias ligações com o PT de enviar a todas as embaixadas brasileiras instrução para que diplomatas fossem designados para transmitir aos governos locais a ameaça de golpe contra a presidente e, agora, com a presença do ministro do Exterior na Unasul.

A recuperação do prestígio do Itamaraty e de sua centralidade no processo de decisão e execução internas são condições necessárias para o Brasil voltar a exercer efetiva liderança e passar a influir de forma positiva no cenário regional e multilateral, deixando de lado a atitude de “anão diplomático” que hoje prevalece.

Neste momento crítico para a instituição, que deveria defender os interesses brasileiros no exterior, e deverá responder, com o novo governo, aos ataques contra o País, é importante relembrar a lição do patrono da diplomacia brasileira. Pouco antes de assumir o Itamaraty, no início do século 20, Rio Branco afirmou, sem meias-palavras, que não se devem confundir interesses partidários com os interesses maiores do País.

***

Na edição de 27/4/2016, o ex-embaixador Rubens Barbosa publicou a seguinte correção:

Ao contrário do que se afirma no artigo “Governo e PT atacam o Brasil” (26/4, A2), não houve carta do assessor internacional da Presidência da República formalizando pedido de aplicação da cláusula democrática contra o Brasil. Segundo se sabe – já que não há relato oficial do encontro –, o assunto teria sido discutido com o secretário-geral da Unasul, que enviou carta – de conhecimento das autoridades brasileiras – aos ministros do Exterior e presidentes dos países-membros pedindo os bons ofícios para preservar a ordem democrática no Brasil.

A imprensa estrangeira não vê golpe

Artigo de Pedro Dória, no Globo de 26/4/2016.

Há uma imensa confusão rondando as redes sociais a respeito do que dizem ou não os jornais estrangeiros sobre a crise brasileira. Tornou-se comum, por algum motivo misterioso, afirmar que lá fora há um movimento condenando o que a presidente Dilma Rousseff chama de “golpe”. Não é verdade.

Qualquer jornal ocidental divide o que publica em dois grupos. Há notícia e há opinião. Notícias são matérias (mais curtas) ou reportagens (longas, em geral com apuração de fôlego) que saem do trabalho de um ou mais repórteres que tentam relatar os fatos e como as opiniões se dividem a seu respeito. Opinião é outra coisa. Há editoriais (a opinião do jornal), colunas (pessoas que o jornal contrata para manifestar sua opinião com frequência) e artigos avulsos, para quando alguém tem uma opinião para manifestar. Por fim, ali no meio do caminho entre a notícia e a opinião, estão as análises, que sem manifestar uma preferência pessoal tentam ajudar o leitor a compreender o contexto no qual um fato se dá.

É assim que se organizam jornais brasileiros, do resto das Américas e da Europa.

Um dos textos mais citados é “A razão real pela qual os inimigos de Dilma Rousseff querem seu impeachment”, publicado pelo jornal britânico “The Guardian”. É um artigo de opinião avulso, assinado por David Miranda. Não é a opinião do jornal. É a opinião de um cidadão brasileiro.

Mas o “Guardian” manifestou sua opinião em editorial, publicado com o título “Uma Tragédia é um Escândalo” e no qual aponta os que considera responsáveis pela crise em que nos encontramos: “transformações da economia global, a personalidade da presidente, o PT ter abraçado um sistema de financiamento partidário baseado em corrupção, o escândalo que estourou após as revelações, e uma relação disfuncional entre Executivo e Legislativo”. Sem poupar em momento algum o Congresso ou Eduardo Cunha, em nenhum momento o jornal britânico sequer cita o termo “golpe”.

Outros órgãos de imprensa importantes se manifestaram em editoriais.

O do “Washington Post” começa assim: “A presidente brasileira Dilma Rousseff insiste que o impeachment levantado contra ela é um ‘golpe contra a democracia’. Certamente não o é.” A partir daí, desanca tanto o governo Dilma quanto o Congresso Nacional. O único elogio que os editorialistas do “Post” conseguem fazer ao Brasil é que, no fundo, “este é um preço alto a pagar pela manutenção da lei — e, até agora, esta é a única área na qual o Brasil tem ficado mais forte.”

A revista “The Economist” também opinou a respeito. “Em manifestações diárias, a presidente brasileira Dilma Rousseff e seus aliados chamam a tentativa de impeachment de Golpe de Estado. É uma afirmação emotiva que mexe com pessoas além de seu Partido dos Trabalhadores e mesmo além do Brasil.” Adiante, seguem os editorialistas, “a denúncia de Golpes tem sido parte do kit de propaganda da esquerda.” O tom é este. Para a “Economist,” o problema é que Dilma perdeu a capacidade de governar, e, em regimes presidencialistas, quando isso ocorre a crise é sempre grave.

O francês “Le Monde” intitulou o seu editorial “Brasil: este não é um Golpe”, que suscitou críticas do editor responsável pela relação do jornal com seus leitores, Frank Nouchi. Ele considera a cobertura de seu periódico boa mas o editorial pouco equilibrado. Suas críticas sugerem o jornalisticamente óbvio: os editorialistas não levaram em conta o outro lado e passaram batidos, por exemplo, pelo envolvimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, em escândalos próprios. Nouchi não pede desculpas, como sugerem alguns. O que o ombudsman cobra é um editorial mais parecido com o dos outros veículos, capaz de mostrar por inteiro o fundo do poço brasileiro.

As mesmas críticas generalizadas às instituições políticas brasileiras estão no editorial mais recente, publicado pelo americano “The Miami Herald”. “Os brasileiros não devem se distrair. O crime que trouxe o país abaixo é roubo por parte de quem ocupa cargos públicos. Que sigam atrás dos bandidos e deixem para os eleitores o destino de políticos incompetentes.” Para os editorialistas, a incompetente é Dilma, e bandidos, os políticos envolvidos em corrupção.

Há também uma série de manifestações avulsas de opinião. Dentre as mais populares dos blogueiros governistas está a entrevista concedida pelo jornalista americano Glenn Greenwald a Christiane Amanpour, da CNN. Greenwald, que vive no Brasil e é casado com com o autor do artigo do “Guardian”, é também um premiado e respeitado jornalista que se especializou na difícil relação entre direitos civis e tecnologias digitais. Nas redes sociais, é um crítico contumaz da solução do impeachment. À CNN, disse que “plutocratas veem agora uma chance de se livrar do PT por meios antidemocráticos.” Cita, como contexto, o extenso envolvimento de inúmeros deputados, a começar pelo presidente da Câmara, com escândalos de corrupção. Mas, mesmo quando questionado diretamente por Amanpour, evitou o termo “golpe”.

A análise mais favorável à presidente foi assinada pelo correspondente da principal revista de língua alemã, a “Der Spiegel”, e publicada em seu site. Jens Glüsing é o único a criticar a Operação Lava-Jato, de acordo com uma versão traduzida, afirmando que “o sucesso subiu à cabeça (do juiz Sérgio) Moro”. Ele atribuiu “aos partidários de Lula” a advertência de que se prepara “um golpe frio contra a democracia brasileira”.

No principal jornal espanhol, “El País”, seu antigo correspondente e ainda colaborador no Brasil, Juan Arias, também escreveu uma análise. “Aquilo que para o governo e seus seguidores no PT é visto como um Golpe, para a oposição parece uma oportunidade de mudança de rumo político após 13 anos de poder.” Arias ressalta que Eduardo Cunha está envolvido em escândalos de corrupção, observa que há polarização política cada vez mais aguda, mas, em momento algum, endossa a versão do governo. Esta é a opinião do PT e pronto, não que a oposição seja inocente.

A cobertura estrangeira é boa, é detalhista, com muita frequência põe o dedo em nossas feridas mais abertas. Nenhum dos editoriais de grandes veículos é superficial. Todos veem a estrutura política brasileira derretendo. E nenhum compra a ideia de que há um golpe em curso.

Só restou a truculência

Editorial do Estadão em 27/4/2016

A presidente Dilma Rousseff sofreu mais uma significativa derrota na tramitação do processo de impeachment no Congresso. A comissão do Senado que avalia o caso escolheu como relator o tucano Antonio Anastasia (MG), ligado ao presidente do PSDB, Aécio Neves. Os governistas tentaram de todas as formas impedir que Anastasia fosse eleito, mas o colegiado foi implacável: seu nome foi avalizado com apenas 5 votos contrários entre os 21 membros titulares, placar que reitera a galopante desvantagem de Dilma na luta contra o impeachment.

Essa desvantagem tende a crescer, porque o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), em quem o Palácio do Planalto depositava a esperança de manipular o processo em seu favor, demonstrou indisposição para interferir nas escolhas da comissão e no prazo para a conclusão dos trabalhos, que a maioria oposicionista pretende encurtar.

Os seguidos reveses de Dilma e do PT no campo institucional – na Câmara, no Senado e no Supremo Tribunal Federal, que avalizou todo o processo de impeachment até aqui – certamente explicam o destempero do chefão petista Luiz Inácio Lula da Silva, que chamou sua tropa para ir às ruas e desestabilizar um eventual governo de Michel Temer.

Sem argumentos legais ou políticos para derrubar o impeachment, já que o afastamento de Dilma é consenso entre os brasileiros e segue estritamente a previsão constitucional, Lula deixou de lado o pouco que lhe restava de responsabilidade e partiu para o ataque frontal às instituições.

Em encontro da Aliança Progressista, que reúne partidos de esquerda de várias partes do mundo, Lula disse que Dilma é vítima de “uma aliança oportunista entre a grande imprensa, os partidos de oposição e uma verdadeira quadrilha legislativa, que implantou a agenda do caos”. Essa frase – que estava num discurso escrito, ou seja, não foi dita de forma impensada – resume o atentado que Lula da Silva e seus comparsas estão dispostos a cometer contra a democracia no Brasil.

Incapaz de reunir os votos necessários para impedir o impeachment, nem mesmo depois de tentar comprar deputados num quarto de hotel em Brasília, Lula agora desqualifica o mesmo Congresso que lhe foi tão útil nesses anos todos – e que, acima de qualquer consideração sobre sua qualidade, foi eleito pelo voto direto e, portanto, é legítima representação popular.

No discurso, Lula disse também que o impeachment é uma “farsa” que “envergonha o Brasil aos olhos do mundo”, como se a grande vergonha brasileira não fosse a devastadora corrupção capitaneada pelo PT e seus acólitos, que gangrenou as estruturas do Estado, arruinou a Petrobrás e rebaixou a política nacional a um ordinário balcão de negócios.

O que se vê é Lula fazendo o possível para ampliar essa vergonha, lançando no exterior sua campanha para desacreditar as instituições democráticas. Àqueles dirigentes partidários estrangeiros, o chefão petista disse que “em todo o mundo há vozes responsáveis alertando para os riscos de um golpe de Estado no Brasil” e pediu aos colegas que “levem a seus países a mensagem de que a sociedade brasileira vai resistir ao golpe do impeachment”.

O problema, para Lula, é que sua voz já não tem o vigor dos tempos em que se julgava um grande líder mundial. A campanha movida por ele e por Dilma para sensibilizar governos e entidades mundo afora contra o tal “golpe” tem sido um completo fracasso.

Nem mesmo a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), bloco de inspiração bolivariana, conseguiu aprovar alguma moção de repúdio ao impeachment.

Mas Lula não parece se importar com o vexame. “As ameaças à democracia no Brasil e na América Latina dizem respeito a toda a comunidade mundial. Dizem respeito à luta entre civilização e barbárie”, disse o líder da tigrada. Ele tem razão: hoje, mais do que nunca, é preciso defender a civilização, calçada no respeito às leis, contra a barbárie, representada pela truculência daqueles que, por não terem mais um pingo de dignidade, não sabem perder.

27/4/2016

2 Comentários

  1. MILTINHO
    Postado em 28/04/2016 às 5:45 pm | Permalink

    A ESPERANÇA MENININHA CONTINUA CANDIDAMENTE CONVIDAR O VELHO CEGO E ANTOLHADO A CAMINHAR!

    A sociedade, que não é Estado nem mercado liberal, no entanto, despertou e mostrou seu rosto em 2013. Ela não é monolítica nem utilitarista, nem conservadora nem progressista, mas múltipla e indomesticável.

    Aliás, a sociedade unifica seu inimigo na medida em que sabe que ambos — Estado e mercado — sempre andam juntos. Os liberais sabem que dependem do Estado para assegurar o principal dos direitos no seu imaginário: a propriedade privada.

    Os estatistas, igualmente, sabem que o Estado hoje é um grande mercado comandado pelos oligopólios econômicos, como o próprio caso brasileiro demonstra.

    Ambos vendem suas versões como se fossem as únicas e inevitáveis, sem que seja possível encontrar uma linha de fuga capaz de exceder esse jogo batido.

    A sociedade, no entanto, sabe que existe essa saída. A todo momento brotam experimentações que são criadas pelos mais variados sujeitos a reinventar permanentemente a noção de espaço coletivo, de festa e escola, de natureza e desenvolvimento, traçando alternativas econômicas, políticas e ecológicas ao binômio Estado/mercado e sua lógica do capitalismo consumista e da burocracia desligada da sociedade.

    Desenhar essa alternativa passa por uma descolonização geral do pensamento, livrar-se dos complexos de subdesenvolvimento e inferioridade. O mundo hoje respira por aparelhos e os dilemas da Europa mostrar o quanto se exige uma alternativa que poderia brotar daqui mesmo, com os coletivos de ocupação, a luta contra a obsolescência programada, a vida pautada em outros motivos que não o dinheiro, a alimentação pautada na saúde, na variedade e na qualidade.

    Ao contrário do que se pensa, nada disso é exclusividade de uma “minoria esclarecida”, mas desejo de muitos que não se veem representados pela falta de ousadia dos projetos do Estado-mercado. Trata-se sim de uma utopia que muitos desejariam embarcar.

    VAMOS CAMINHAR, VOVô!

  2. LUIZ CARLOS TOLEDO
    Postado em 30/04/2016 às 12:49 pm | Permalink

    Perfeito, Sérgio. O PT é uma seita medieval, para quem o paraíso é o poder eterno sobre o estado. Todas as vezes que teve a oportunidade de se colocar ao lado do Brasil, preferiu as prioridades do PT. E puniu aqueles raros petistas que colocaram o Brasil na frente dos interesses do partido. O pior é quando despreza toda a experiência mundial em economia, para fazer experimentos alternativos. Não aceita o que deu certo em todos os países que se desenvolveram economicamente e fica tentando reinventar a roda, levando o Brasil para o buraco, com consequências terríveis para os mais pobres.

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