O músico que amava os instrumentos

O músico conversa com seus instrumentos, faz comentários sobre cada um deles. Cinco instrumentos, um a um – o violoncelo, a flauta, o contrabaixo, a percussão, o violão.

Para fazer chorar Margot, para fazer dançar a avó, para fazer cantar as palavras da minha canção doçamarga, deixe deslizar o seu arco ao longo do braço. Me dê o lá escondido na alma do violencelo.

Ó flauta, me leve pelas costas da Grécia, lá onde havia bosques e seu canto cheio de alegria. Ó flauta, me perdõe se eu fico nostálgico, se às vezes divago escutando a sua música.

Pousado contra o seu ombro, seu amigo, o contrabaixo, executa discretamente seu papel, discretamente eficaz, e eu não sei quem sustenta o outro, se o homem e o instrumento, unidos como dois apóstolos, ou talvez dois amantes.

E sobre os ritmos do coração, os tamborins, as cascavéis da minha África natal.

Ah, sim, sim: o músico nasceu na África. Não é afrodescendente, é africano de nascimento, ser humano, descendente de seres da raça humana. Especificamente, descende de uma absoluta zorra, uma maravilhosa mistura de origens, às quais erroneamente chamamos de raça, embora raça seja apenas uma, a humana, tão absolutamente imperfeita, tão mal feita de carne, ossos, dúvidas, medos, fragilidades.

Mas não é o caso, não é disso que o músico fala.

E sobre os ritmos do coração, os tamborins, as cascavéis da minha África natal. Me acorde com os sotaques dos países que eu visito, da minha vida que vai dançando, da minha vida que vai depressa demais.

E, no fim, por fim, ao fim e ao cabo, o violão, o instrumento que os músicos, mais do que tocar, abraçam:

Gostaria de prestar uma homenagem à minha ferramenta inseparável, que compartilha minha história, que me ajuda a encontrar as palavras da canção doçamarga que fez chorar Margot, que celebrou meu avô.                

***

Georges Moustaki, nascido em Alexandria, Egito, a cidade da primeira grande biblioteca do mundo – filho de pais gregos que seguiam a religião judaica e falavam italiano, originários da ilha de Corfou – cresceu num ambiente multicultural, entre judeus, gregos, turcos, italianos, árabes e franceses. Em “La Métèque”, a canção de 1969 que foi assim seu “Blowin’ in the Wind”, seu “Grândola, Vila Morena”, sua “A Banda”, seu “Sound of Silence”, a composição que marcaria indelevelmente sua história, ele se definiu como um estrangeiro, um judeu errante, um pastor grego.

Cantaria, em seus discos, em francês, sua língua principal, mas também em italiano, em grego, em espanhol, em português do Brasil – era apaixonado pela música brasileira, gravou Tom Jobim, Chico, Toquinho-Vinicius, até mesmo Herivelto Martins.

Compôs um outro hino aos seus instrumentos – sempre conversando com eles, ou falando deles como se os estivesse carinhando, acariciando, bolinando.

“M’zelle Gibson” é dedicada especificamente à guitarra Gibson. Nós nos conhecemos numa loja de música na qual poucas pessoas apareciam. Senhorita Gibson, eu te carreguei perto do meu coração, como um amante, como um ladrão, sob o olhar surpreso do metrônomo.

E, no final, ele se rendia totalmente a ela: Tu es toujours la plus Jolie/ Des filles des États-Unis / Tu es toujours la plus jolie / Des filles des États-Unis.

***

L’États Unis. Para pronunciar isso aí, neguinho tem que saber quase todos os fonemas específicos da língua francesa. Lé Zêtát Zinis, sendo que o primeiro i dos Zinis não é não é nem i, nem u, é alguma coisa muito específica entre os dois, como o th do inglês, como o c do castelhano.

Poucas vezes ouvi compositores tratarem tão bem, tão carinhosamente, tão ternamente, tão apaixonadamente, tão sensualmente, os instrumentos que acompanham a voz com que cantam o mundo, quanto Georges Moustaki em “Ballade pour 5 Instruments“.

Quanto mais fico mais velho, mais admiro a poesia – e as melodias – de Georges Moustaki.

8 de outubro de 2016

Ballade pour 5 instruments

(Georges Moustaki)

Pour faire pleurer Margot

Pour faire danser grand-mère

Pour faire chanter les mots

De ma chanson douce amère

Laisse glisser ton archet

Le long de la chanterelle

Donne-moi le la caché

Dans l’âme du violoncelle

 

Oh la flûte emmène-moi

Sur les rivages de Grèce

Là-bas elle était en bois

Et son chant plein d’allégresse

Oh la flûte pardonne-moi

Si je deviens nostalgique

Si je divague parfois

En écoutant ta musique

 

Posée contre ton épaule

Ton amie la contrebasse

Joue discrètement son rôle

Discrètement efficace

Je ne sais qui soutient l’autre

De l’homme et de l’instrument

Unis comme deux apôtres

Ou peut-être deux amants

 

Et sur les rythmes du coeur

Les tambourins les crotales

Font revivre les couleurs

De mon Afrique natale

Réveille-moi aux accents

Des pays que je visite

De ma vie qui va dansant

De ma vie qui va trop vite

 

Et je voudrais rendre aussi

Un hommage à ma guitare

Mon inséparable outil

Qui partage mon histoire

Qui m’aide à trouver les mots

De la chanson douce amère

Qui a fait pleurer Margot

Qui a célébré grand-père

2 Comentários

  1. Penha Fernandes
    Postado em 31/10/2016 às 11:20 am | Permalink

    SV, sei que é um plágio.Eu sei que é um plágio com a nostalgia de PF, plagiando.
    “Me acorde com os sotaques dos lugares onde vivi, da minha vida que segue correndo, mas dançando depressa demais.”
    SV, estou sendo incorreta? Má?Sei lá, mas foi o que li, pensei, senti e plagiei. Só com certeza!Dúvida, nenhuma.
    PF, dos lugares onde vivi.

  2. Vivina Assis Viana
    Postado em 09/11/2016 às 7:09 pm | Permalink

    Émouvant!

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