Miryam Lúcia

1960's - Na Vivina - 27480066

A última vez que vi Miryam Lúcia foi em abril de 2012. Nossa, como faz tempo. Quase quatro anos, já. Um ano a mais do que Marina tem de vida. Mas, como quase tudo é relativo, quatro anos não é um tempo tão grande assim para uma amizade que durava 48.

Uma amizade de 48 anos. Isso sim, é tempo.

Nos conhecemos em 1968, o ano de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, que vimos juntos, se não estou enganado num cinema da Avenida São João que faz tempo não existe mais. Eu com 18, ela com 13.

Bem no final de um filme que vi quando tinha 14, Assim Caminha a Humanidade/Giant, a personagem de Liz Taylor diz para o personagem de Rock Hudson que o conhecia bem porque, afinal de contas, haviam estado juntos no último quarto de século. A expressão me marcou profundamente; jamais esqueci do diálogo – um quarto de século, para um adolescente de 14 anos, é maior que o infinito.

Pois nossa amizade tinha o dobro do tempo que Bick e Leslie Benedict viveram juntos em Giant.

É uma das melhores, mais belas coisas da vida, isso de velhos amigos.

Em outro belo filme, When Harry Met Sally…, quando toca “Auld Lang Syne”, a canção tradicional que sempre marca os réveillons nos países de língua inglesa, o personagem Harry dana a falar sem parar que nunca conseguiu compreender direito o que a letra diz, e então Sally, com um sorriso lindo e os olhos brilhantes de Meg Ryan, faz ele quietar dizendo: “De qualquer jeito, é sobre velhos amigos.”

Anyway, it’s about old friends.

Todo mundo, creio, gosta dessa coisa de ter velhos amigos. Miryam Lúcia gostava especialmente. Não perdia uma ocasião de dizer, enfatizar, que a gente era amigo há muito, muito tempo.

2012-04 - As Wiley - 1117Nos vimos duas vezes, em abril de 2012, quando – sempre cometa, passando por aqui de tempos em tempos – veio para assistir ao casamento da sobrinha Emília, filha da sua irmã Ana. Ela trouxe Katherine, a Katuscha, a mais velha; Andrea estava na época morando em São Paulo – e então as filhas estavam junto com ela nas duas ocasiões em que nos encontramos. (Andrea fez essa foto, no meu telefone, acho.)

No dia seguinte ao segundo dos encontros, ela já em Minas, mandei uma mensagem: “Foi pouco, bem pouco. Dá vontade de mais e mais – mas foi muito bom. Acho que desta vez pude compreender um pouco mais como deve ser a sua vida entre as suas duas filhas (…). Deu para imaginar, ainda que bem de longe, como não deve ser nada fácil. O que, ao mesmo tempo, só serve para admirar você mais ainda. Você é uma mulher de muita, muita fibra.”

Ela compreendeu perfeitamente o que quis dizer, pois respondeu: “Yes, you get it. My life. I welcome all of it. I like what is long lasting from long ago. Like you.”

Miryam Lúcia escrevia bem tanto em português quanto em inglês. “What is long lasting from long ago” é uma beleza.

Volta e meia lembrava que fui eu que a ensinei a tirar letra de música, e que dei a ela as primeiras dicas de inglês.

***

Abriu mão de uma carreira promissora no jornalismo da Rede Globo quando resolveu se mudar para os Estados Unidos, nos anos 1970 – agora já não me lembro mais se para estudar ou já para se casar com o Bruce, o marido americano. Tinha começado no jornalismo – influência óbvia do tio, Gilberto Mansur – em Belo Horizonte, e a Globo a havia levado para o Rio. Trabalhou um bom tempo em um programa voltado para o público infantil, com, se não estou enganado, a Paula Saldanha.

E aí foi para o Império. Daí a pouco estava casada e americanizada em Denver, Colorado. De Miryam Lúcia Simões Coelho, Milu para os íntimos. tornou-se Miryam Wiley.

Estudou jornalismo de novo lá, e se orgulhava disso; se orgulhava de escrever em inglês com a mesma facilidade e domínio absoluto da língua quanto escrevia em português.

Fez tentativas de escrever de lá para publicações brasileiras, mas não deu certo, não deu sorte, não calhou, não rolou. Sempre teve mágoa por causa disso, e para mim, pelo menos, não escondia isso. Em tudo na vida há o quesito sorte. Eu, euzinho, tive justamente a sorte de conhecer Gilberto Mansur, o tio dela – e foi graças a ele que virei jornalista. A Miryam Lúcia faltou sorte.

Depois que a família se mudou para Massachussets, trabalhou como repórter e colunista em um jornal de lá, Metrowest Daily News. Escreveu belos textos, muitos deles sobre a dura vida dos imigrantes – a região de Boston tem uma imensa colônia de brasileiros e de latins, essa pobre gente que vive abaixo do Rio Grande.

Tive que insistir muito para que ela finalmente admitisse colaborar com este meu site aqui. Ela me mandou alguns dos textos que publicou lá – mas, depois de algum tempo, parou. Desinteressou-se. Já enfrentava a doença. Enfrentou-a durante muitos anos, nem sei quantos, nem quero saber.

***

zzzzz miryamSempre se lembrava do meu aniversário. Sempre mandava algum alô no dia. Ficava ofendida quando eu não me lembrava do dela.

Se eu juntasse tudo que tenho aqui em casa de coisas que Miryam Lúcia me escreveu e que eu escrevi para ela, e o que eu escrevi sobre ela, daria um volume do tamanho de Guerra e Paz, ou maior. Guardei tudo o que ela me mandou, desde as cartas todas escritas em São João del-Rei a partir de 1968.

Tinha, como todo mundo tem, suas idiossincrasias. Às vezes implicava com pessoas. Implicou com uma que já era muito minha amiga quando a conheci. Quando tivemos um período em que nos vimos bastante, lá por 1986, e eu estava me separando de Regina, implicou com Regina, com base numa informação torta, boba.

Às vezes parecia estar encerrada nela mesma, numa certa egotrip. Em alguns momentos é possível que estivesse mesmo – e tinha carradas de razão para tanto, dadas as barras que enfrentou. Mas a verdade é que, mulher forte, de fibra, de coragem, que encarou tanta vicissitude na vida, Miryam Lúcia era também um pessoa de fantástica sensibilidade, de capacidade de perceber as coisas.

Por exemplo: acompanhou Marina via Facebook, mesmo quando a doença batia forte. Em abril passado, comentou, misturando os temas (desde adolescente adorava ir escrevendo, nos textos pessoais, seguindo o fluxo dos pensamentos, sem respeito à ordem lógica): “Tenho acompanhado bem de perto Marina Poppins (adorei!) A quimioterapia agora é de comprimidos. Tem feito algum efeito. Gostei da Marina adorando a música do leãozinho.”

Fiquei absolutamente derretido quando ela proclamou imensos elogios às opções que fiz de parar de trabalhar cedo, assim que considerei possível, e de me dedicar aos meus próprios textos, depois de 36 anos de jornalismo dedicados a cuidar do texto dos outros.

Escreveu para mim, depois daquele que seria o nosso último encontro (sempre misturou as duas línguas, nas mensagens, nas cartas): “I may not have had the chance to mention, but I’m in awe of your ability to preserve yourself: your soul, your way, your approach to your own understanding of life… I would dare to say that the modern world and the big city didn’t transform you, didn’t shrink you ability to be who you are.”

Pessoalmente, havia resumido isso numa frase curta: “Você inventou sua vida.”

Pouquíssimas vezes recebi elogio como este.

Acho que elogiei Miryam Lúcia muitas vezes. Sei que elogiei. Mas será sempre menos do que ela merecia.

Uma bela homenagem no jornal de Wellesley

O jornal Wellesley Townsman publicou, na quinta-feira, dia 10, um belíssimo texto sobre Miryam Lúcia. Um texto escrito com carinho, com afeto, por quem seguramente a conhecia bem. Não veio asssinado. Transcrevo:

Editorial: The Townsman family loses one of its own

Miryam Wiley was surrounded by those she loved when she died of cancer on Sunday evening. It was just the way she would have wanted it.

To know Miryam was to be drawn into her world – a world where culture, language, and talents of all kinds mixed at the Wileys’ Parker Road home. Fueled by the delicious food that Miryam learned to make in her native Brazil, guests might find themselves mingling with artists, journalists, or young people with learning disabilities. It was Miryam’s gift that she made everyone feel valued and accepted.

Many of those same people were at the Wellesley College Club in September, when her daughter Andrea, wearing her mother’s wedding gown, married her fiance, Mauricio Silva, Jr. A treasured video of the day shows Miryam singing for the crowd. Last month, a second ceremony took place at a beautiful old church in Brazil, so their Brazilian relatives could watch the young couple exchange their vows. Miryam had hoped to join her husband Bruce and daughter Katherine there, but by February, she was in hospice and simply too weak to make the trip. Instead, her friends — some of whom had come from across the country to be with her during the days leading up to the wedding — reserved a room in the hospice unit and crowded in to spend that emotional afternoon with her.

Had she been reporting on the celebration, she would have given readers every poignant detail — the transformation of the room with festive wedding decorations, the mother-of-the-bride corsage given to the guest of honor by the nurses, the homemade dishes piled on tables, and the television set up in an effort to show the ceremony in Brazil as it was happening. Miryam was a longtime writer for the Townsman and other publications, and she loved being part of that life. When the Townsman was on Crest Road, she convinced then-editor Neil Swidey to convene a meeting of the paper’s freelancers in the back room, so they could get to know one another. Of course, they joined Miryam’s circle of friends.

Suzanne Hansmire, one of those freelancers, said, “I’ve met so many colleagues over the years who were always looking for the ‘big story’ but Miryam knew that every person and every event contained a story that would touch the heart or bring readers a smile.”
Miryam discovered early in life what she wanted to do. She had earned journalism degrees from the Federal University of Minas Gerais in Belo Horizonte, Brazil and from Metropolitan State College in Denver. She worked as a TV journalist while still living in Colorado, where she met and married Bruce.

During her 25 years as a resident of Wellesley, she began writing a column in the MetroWest Daily News, “In America,” and wrote compelling, beautifully crafted features for the Townsman. Her last Townsman interview was with a Wellesley College professor who was also a writer. She was still undergoing treatment for her cancer when she took the assignment, so it took weeks for her to complete the interview and write the story, but she never waivered in her conviction that she would finish it. She did.

7 e 10 de março de 2016

 

3 Comentários

  1. LUIZ CARLOS TOLEDO
    Postado em 08/03/2016 às 2:24 am | Permalink

    História comovente, Sérgio. Me lembro que li alguns textos muito interessantes dela, assinados como como Miryam Wiley.

  2. MILTINHO
    Postado em 08/03/2016 às 3:14 pm | Permalink

    Enfim SerVaz!

    Elogiar é fácil difícil é merecer elogio. O texto merece elogio. A amizade expressa é maior, tocante, supera qualquer elogio.

    Miryam sensível e competente ousou dizer com propriedade “não encolher a sua capacidade de ser quem você é”.

  3. Maria Amélia Palumbo
    Postado em 09/03/2016 às 6:53 am | Permalink

    Tive que imprimir seu texto. De certa maneira ele guarda um pouco da Miryam, com quem convivi na minha adolescência.
    Anos mais tarde já trabalhando como jornalista, ela escreveu um lindo texto sobre minha mãe. Inesquecível. Minha amiga tinha uma energia pra lá de boa e iluminava a cena. Vai fazer muita falta.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Textos » Sonho em 23/08/2016 às 1:51 pm

    […] lembrei, é claro, mais uma vez, de Miryam Lúcia. Melhor que ninguém ela percebeu e expressou com todas as letras: “Você inventou sua […]

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