Minha alma chora…

Tom Jobim, o carioca essencial, começa seu delicioso Samba do Avião com um verso que sempre me emocionou: Minha alma canta/ vejo o Rio de Janeiro…  A chegada ao Rio no Aeroporto do Galeão, que inspirou o Tom, é um dos espetáculos mais deslumbrantes entre os que o Rio oferece, só empata com a beleza estonteante vista do alto do Corcovado.

Mas, neste momento, a alma de quem, como eu, ama o Rio, não consegue cantar. Comemorar o que? A prisão de dois governadores de Estado em dois dias? Isso nos alivia, percebemos que não estamos sós, há juízes atentos, preocupados em não deixar o rombo aumentar. Um rombo que já está estratosférico e que arrebentou com o Rio de Janeiro.  Mas alegria?

Não, isso não me dá alegria. Entristece e muito. Alegria imensa eu teria se eu visse o Rio – a cidade e o Estado – voltarem a ser respeitados por seus administradores. Temos a fama, justificada, de votar mal. Mas eu nos defendo assim: a culpa maior não é dos partidos políticos? Por acaso essas instituições se preocupam com quem vão apresentar aos eleitores?

Desde ontem temos dois ex-governadores em Bangu 8. Garotinho, que estava no hospital Souza Aguiar, foi transferido para o presídio debaixo de muito tumulto, num espetáculo estrelado por sua filha; Cabral está lá desde ontem de manhã, quando foi recebido com entusiasmo por muitas pessoas, algumas com guardanapos na cabeça, recordação de suas farras parisienses com o dinheiro que tanta falta faz ao nosso estado.

Copio aqui um trecho do despacho do juiz Sergio Moro quando da prisão de Sergio Cabral:  “Essa necessidade faz-se ainda mais presente diante da notória situação de ruína das contas públicas do governo do Rio de Janeiro. Constituiria afronta permitir que os investigados persistissem fruindo em liberdade do produto milionário de seus crimes, inclusive com aquisição, mediante condutas de ocultação e dissimulação, de novo patrimônio, parte em bens de luxo, enquanto, por conta de gestão governamental aparentemente comprometida por corrupção e inépcia, impõe-se à população daquele Estado tamanhos sacrifícios, com aumentos de tributos e corte de salários e de investimentos públicos e sociais”.

“(…) diante da notória situação de ruína das contas públicas do governo do Rio de Janeiro”. Não há nenhum exagero nas palavras de Sergio Moro. O Rio de Janeiro está muito sofrido. Crimes hediondos, assaltos, roubos, fome, miséria, moradores de rua em quase todos os bairros, salários atrasados, bueiros que explodem e matam os passantes, manifestações violentas, invasões e ocupação de prédios públicos num total desrespeito às leis, falência à vista, agressões a idosos e a crianças, a cidade conseguiu ficar inóspita, desagradável, triste, sem aquele viço que a caracterizava.

Veremos, de agora em diante, a debandada dos apoiadores dos dois ex-governadores. Sobretudo dos grandes que tanto acarinharam Sergio Cabral. São bem capazes de declarar que nem sequer o conheciam.  A ex-presidente declarou, sem nenhum pudor, que jamais foi aliada de Cabral. Esqueceu-se do ‘Estamos Juntos’ usado pelos dois tantas vezes em tantas ocasiões.

O silêncio será a arma de muitos grandões. Provavelmente, antes do galo cantar três vezes, outros chefões também negarão sua associação com Cabral.

Cariocas não gostam de dias nublados, diz Adriana Calcanhoto em seu belo samba dedicado ao Rio. Ver com nitidez solar o Cristo com os braços abertos a abençoar quem aqui vive ou aporta é parte integrante da beleza desta cidade. Disso não podemos, e não devemos, nos esquecer.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 18/11/2016. 

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