Marina, o caldeirão e a doçura

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Marina mexia numa cadernetinha em que a gente vem colando figurinhas e ela tem feito um ou outro desenho. Estava fazendo de conta que anotava na cadernetinha a história que iria contar para a Compridona, a bonequinha magrela e alta que nem ela mesma. E ia falando enquanto anotava: “Faz muito tempo que não te amo. Esse é o título da história”.

Custei a acreditar que ela tivesse dito mesmo isso. Mas ela disse, sim, e depois até repetiu: “Faz muito tempo que não te amo” é o título da história que ela anotava para contar para a filhinha Compridona.

Que figura!

É muito impressionante como o repertório de Marina cresce alucinadamente, a cada semana. O vocabulário, as noções a respeito das coisas. Fico intrigado a cada vez que ela aparece com palavras novas – e ela aparece com palavras novas todas as vezes que a vejo, e a vejo pelo menos duas vezes por semana.

Estou absolutamente cansado de saber que é assim com todas as crianças dessa geração. Não estou dizendo que Marina é especial: todas as crianças da geração dela são assim – caíram no caldeirão de informação assim que nasceram, que nem o Obelix caiu no caldeirão da poção mágica.

Falo dela não porque seja especial, mas apenas e tão somente porque é a minha neta, uai!

***

Aos 3 anos e 7 meses, Marina ainda não definiu se é destra ou canhota. Pega nos talheres com as duas mãos, pega nas canetinhas ou lápis para desenhar com as duas mãos, usa tesourinha com as duas mãos. Neste feriado de 2 de novembro, quando chegou na nossa casa, depois de um passeio de duas horas e muita, muita brincadeira na praça que a deixou fisicamente cansadinha, estava decidida: “Quero brincar com a tesoura”, informou, e já foi se encaminhando para pegar a pasta em que ficam o material de desenho e a tesourinha.

(Em geral Marina já chega sabendo do que vai querer brincar primeiro. Às vezes, fica em dúvida: “De que que a gente vai brincar?” Neste feriado, estava super decidida – e optou por uma brincadeira mais leve, com menos exercício físico, uma decisão absolutamente sábia para quem tinha corrido pra cá e pra lá sem parar na praça.)

Cortou picadinho umas três páginas de revista velha. Pedacinhos bem pequeninos – e alguns um pouco maiores. Segundo ela, os pequeninos eram para a massa do bolo, e os maiores, para a cobertura. Encheu um velho e abandonado cinzeiro preto de plástico com a massa e a cobertura do bolo. Primeiro cortou com a mão direita, depois trocou a tesoura para a esquerda.

Anoto aqui essa indefinição apenas para registrar um dado da realidade – nenhuma preocupação com isso ou aquilo. Acho absolutamente normal a indefinição, mesmo ela se prolongando um pouco mais do que eu supunha – mas o que raios eu entendo de época certa para uma criança se definir sobre ser destra ou canhota?

Só tenho a impressão (e não sou só eu) que ela está tendendo a se demonstrar canhota.

Mas o fato é que quando, depois de cortar muito papel, ela pegou a tal cadernetinha, e começou a escrever, quer dizer, a fazer de conta que escrevia, o fez com a mão esquerda. E, escreveu (quer dizer, traçou algumas linhas como se estivesse escrevendo) da direita para a esquerda – como os chineses, os japoneses, os árabes e também os judeus, creio.

Confesso que aquilo me deixou um pouquinho grilado – mas não falei nada. Ainda é cedo demais. Qual seria o sentido de eu dizer: a gente escreve deste lado aqui para este aqui? Besteira.

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Como todas as crianças dessa geração que caiu no caldeirão de informação, Marina surpreende com o vocabulário, com o conhecimento de conceitos. No domingo agora, surpreendeu a Mary e a mim sabendo identificar que aquele macarrão que a avó tinha preparado para ela se chama penne. Também no domingo, dia em que reviu a avó depois de três semanas em que ela esteve fora, em viagem, nos surpreendeu ao dizer “anteontem” e demonstrar que já entende o que significa ontem, o que significa anteontem.

Mary usava, toda orgulhosa, uma camiseta do Desert Trip, o grande festival realizado em outubro no meio do deserto da Califórnia, o Woodstock para velhinhos, com Bob Dylan, Rolling Stones, Paul McCartney, Neil Young, The Who e Roger Waters. E comentou para Marina que, na parte de trás da camiseta, estavam escrito os nomes das bandas que ela tinha ouvido tocar no festival. Inclusive – disse ela – tem um deles que era da banda que a sua mãe ama, os Beatles. Marina disse: “Sei, o Paul”.

E, no entanto, ainda tloca o r pelo l, que nem o Cebolinha.

Tloca o r pelo l com a vozinha mais gostosa que há no mundo. Tloca o r pelo l, mas raras vezes erra nas concordâncias nominal e verbal, e demonstra que aprendeu muito bem a usar o subjuntivo.

***

Adoro acompanhar o crescimento dela, ver as novidades, ver como vai aumentando o repertório, como vai se dando o desenvolvimento intelectual. Claro, tudo isso é interessantíssimo – mas o que mais me fascina em Marina é a doçura.

Faz declarações de amor à mãe. Faz carinho na avó direto e reto. Aconchega-se na avó como uma gatinha, literalmente como uma gatinha. Às vezes (é mais raro, mas também acontece) pede colo do avô para ver um DVD. Dá beijo na careca do avô quando vai embora daqui de casa ou quando eu vou embora da casa dela.

Refere-se aos amiguinhos assim mesmo, “meus amigos”. Gosta dos colegas da escola, dos vizinhos do prédio, mas tem especial ligação com duas amiguinhas menores que ela, Nina e Marcela. Formam uma deliciosa escadinha, são como primas-irmãs. Eu as chamo de As Três Mosqueteiras.

Há pouco, menos de uma semana atrás, teve um dia especialmente movimentado, cheio de passeios, fazendo visitas e recebendo visitas. Na hora em que a mãe a pôs na cama para dormir, disse: – “Mamãe, sabe o que eu mais gostei no dia de hoje? A carinha feliz da Marcela quando ela chegou aqui em casa e me viu”.

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3/11/2016

2 Comentários

  1. maria helena
    Postado em 04/11/2016 às 7:53 pm | Permalink

    Vô da Marina
    o registro que você faz sobre o crescimento da Marina vai ser o tesouro dela. Por enquanto, é o nosso tesouro! É um barato ler sobre o crescimento da encantadora menininha (crescimento, aliás, de uma rapidez…).

    Ela está tão alta! E é impressionante saber que ela reconhece penne, sabe quem é o Paul, e já entende de coberturas e recheios de bolos… É um espanto.

    Mas o que eu mais gostei e me deliciei foi com a conclusão do dia alegrinho: “Mamãe, sabe o que eu mais gostei no dia de hoje? A carinha feliz da Marcela quando ela chegou aqui em casa e me viu”.
    Isso foi o máximo!!!

  2. Jussara
    Postado em 06/11/2016 às 1:24 pm | Permalink

    Concordo com tudo o que Maria Helena escreveu. O fato de ela reconhecer Paul, e saber que é um ex-Beatle, é demais. Falar nisso, não é o pai da Marina que não gosta da banda?

    Incrível como daqui a pouco ela faz 4 anos, e como cresce a olhos vistos, que mesmo quem só a acompanha por fotos, como eu, consegue notar.

    Isso de escrever da direita para a esquerda acho que é normal, assim como fazer algumas letras espelhadas.

    Marina certamente é uma criança inteligente, mas acredito que o meio a ajuda e faz com que ela desenvolva mais rapidamente seu potencial: os pais, os avós, a escola etc.

    Adorei o vídeo. Queremos mais vídeos com ela! (Engraçado como ela não se deixou afetar pelo “linda” soltado pelo avô babão, continuou a tarefa super séria).

    PS: Mary viajou por 3 semanas então? (Só feras nesse festival, hein?!). Agora entendo por que teve gente que soltou texto um atrás do outro no 50ADF. Eu não estava dando conta de acompanhar. =D

2 Trackbacks

  1. […] que posso dizer sem medo de errar que sou uma das pessoas que mais conhecem Marina. Sendo assim, sei muito bem que é uma criaturinha doce demais. Mas ela conseguiu me surpreender […]

  2. Por 50 Anos de Textos » Canções, Natal, Marina em 06/02/2017 às 12:20 pm

    […] três Natais sem alegria alguma – mas, a partir do de 2013, Marina fez tudo […]

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