A fantasia de Marina é a realidade

2016-07 - Marina dia 23 - P1190679 - Corte - 720

Marina brincou aqui longamente, comigo e com a mãe, neste sábado, com os bonequinhos que representam a família dela – tem o papai, a mamãe, a tia Dri, ela mesma, a Cau e o amiguinho Gael. 

Os bonequinhos passeiam, conversam, brincam, tudo exatamente como na vida real.

Brinquei com a Fê que a vida da Marina é tão tranquila e gostosa que, quando vai brincar de faz-de-conta, de fantasia, ela fantasia a própria realidade, o dia-a-dia. Ou realiza a própria fantasia, sei lá.

Teve uma novidade nesta visita: pela primeira vez na vida, a pequena percebeu que é capaz de gravar letras ou números no papel da máquina de trabalhar – que é como ela chama a minha Olivetti velha de guerra. Adorou ver que no papel antes limpo apareciam letras que eram o resultado do seu trabalho, da ação dos seus dedinhos!

***

Aos 3 anos e 4 meses, Marina mantém uma característica deliciosa que desde bem mais novinha já apresentava: não precisa de muita coisa para brincar. Brinca com o que tiver à sua disposição, feliz da vida, na maior. Em geral por bastante tempo.

Pode ser que todas as crianças nessa faixa de idade sejam assim, ou ao menos a grande maioria delas. Pode ser, claro; não sei. Sei que Marina é assim, boa parte do tempo, e isso é abençoado.

Claro, ela não é sempre assim. Há momentos, em especial na casa dela, e também na brinquedoteca do prédio dela, que é bem o contrário: ela parece querer experimentar cada brinquedo, cada tipo de brincadeira durante um rapidíssimo período, alguns minutos, e aí partir para outro. Uma espécie assim de rodízio de brincadeiras.

Mas acho que dá para dizer que, na imensa maior parte do tempo, o que prevalece é a Marina que fica tranquila num brinquedo durante um bom período, felicinha, cara boa, na maior. Sem ansiedade.

Estava assim quando veio visitar o avô neste sábado: chegou com a mãe entre 17h e 18h e saiu às 20h00. Estava alegre, soltinha, super à vontade, tranquila, ansiedade zero.

Levou para a sala os pequenos bonequinhos com os quais tem brincado da família dela mesma, para mostrar para a mamãe.

O faz de conta dela com os brinquedinhos, no entanto, não é estático. De repente, a pecinha que era o Gael vira a Luna, a cadela da Abuelita. E a visita às casas da Abuelita e da tia Dri de repente vira a noite de Natal, e todos os bonequinhos são postos para dormir, enquanto o Papai Noel – este um Papai Noel de matrioscas da sala – chega.

Mas o papai do faz de conta ficou (como o papai de verdade) acordado para ver a chegada do Papai Noel e filmar. Resultado: o Papai Noel percebeu isso, e não deixou presente nenhum!

Não é preciso – pelo menos por enquanto, é sempre bom dizer – comprar brinquedos caros, sofisticados. Se Marina tiver companhia, alguém que esteja gostando de brincar com ela, ela brinca com qualquer coisa – por bastante tempo, com a carinha muito boa, sem ansiedade, na maior.

Adoro isso.

***

Não por nenhuma veleidade natureba, anticonsumista, essas coisas ideológicas, que já tive muito na vida. Não, nada disso. Adoro isso simplesmente porque acho que é um sintoma de saúde, de equilíbrio, de tranquilidade que a pequena demonstra.

Por exemplo: na casa da Mílcia, em Florianópolis, tive a pretensão de apresentar para Marina um jogo de baralho, para ver se ela se interessaria em aprender rouba-monte, agora que já sabe jogar dominó e memória. Não quis saber de jogar – mas adorou a caixinha de madeira com as cartas dentro. Fez de conta que as cartas eram Cláudios, o bicho do Show da Luna. Ela era Luna, eu era o irmãozinho dela, o Júpiter, e ela cuidava dos Cláudios, levava os Cláudios para a dra. Jane, a veterinária.

Brincou disso comigo durante bem mais, mas bem mais de uma hora.

A imaginação, o faz de conta, a companhia de alguém de quem ela gosta e que gosta de brincar com ela – pronto, deu, bastou, foi o suficiente. Não precisa de muito mais.

***

Aqui, neste sábado na casa do vovô e da vovó sem a vovó que está em Belo Horizonte, depois de brincar um tempão com as bonequinhos da família, foi pegar o material de cozinha. Disse que a comida ia ficar melhor do que o normal – e a mãe me explicou que ela descobriu essa coisa de “melhor do que o normal” nos últimos dias. Exercitou os plurais falando direitinho todos os esses dos elementos que ia cozinhando. “Ela não é da Moóca”, a mãe comentou com o avô.

Durante a brincadeira da cozinha, eu e Fê éramos os filhinhos dela.

Brincou com o material de cozinha um tempão gostoso, até que a Fê conseguiu convencê-la a interromper um pouquinho o que ela estava cozinhando para os filhinhos para fazer ela mesma um lanche.

Para minha surpresa, pela primeira vez ela quis fazer lanche na sala. Perguntei se ela queria ouvir alguma música, e pediu o disco de carnaval do Palavra Cantada. Cantou junto com várias das canções.

***

2016-07 - Marina dia 23 - Foto Fê - Corte 2 - 500Teve piquenique no quarto que foi da mãe e onde agora ela de vez em quando dorme. Acho uma absoluta delícia o cuidado, o esmero dela ao abrir o meu lenço que serve de toalha de piquenique e espalhá-lo no chão sem deixar dobrinha alguma. Fê fez a foto: ela está segurando a bolsinha de fazer piquenique. São coisas indissociáveis, esse bolsinha e o piquenique.

Depois pediu a máquina de trabalhar. E foi muito lindinho quando, pela primeira vez na vida, reparou que ela, com a máquina de trabalhar, consegue imprimir letras no papel!

Adorou!

Eu trouxe correndo papel novo.

A questão é que a Olivetti é muito grande, muito velha, muito pesada. E Marina, por ver a mãe usar todos os dedos em cima do teclado do computador, desde sempre espalha os dedinhos no tecladão da Olivetti. Ao contrário dos que não fizeram curso, Fê passou para Marina a forma correta de botar as mãos diante do teclado. Mas, no caso da Olivetti, isso é prejudicial para a pequena, porque ela só consegue fazer com que apareça algo no papel se apertar forte com o dedo indicador…

De qualquer maneira, amou ver as letrinhas colocadas lá pelos seus próprios dedinhos.

Uma pegou o papel observou as letras: “Tá fraquinho”, reclamou. Ô meu Deus! Será que vou achar pra comprar uma fita nova para a velha Olivetti?

Teve uma hora em que Fê e eu estávamos olhando para ela brincando, e minha filha me falou exatamente o que eu estava sentindo: – “Dá vontade de agarrar e apertar, né?”

É, Fia. É isso mesmo. É exatamente isso.

24/7/2016

3 Comentários

  1. MILTINHO
    Postado em 27/07/2016 às 11:10 am | Permalink

    Novas fotos da Marina e vídeo do João Lucas reforçam minha esperança!

  2. Luiz Carlos Toledo
    Postado em 27/07/2016 às 2:34 pm | Permalink

    É um vovô bobalhão. Mas com toda razão. Hoje eu também estou muito feliz, aqui em Maceió, com as notícias de uma menininha lá de Brasília. Uma que ainda nem nasceu e nem tem nome, mas vem a ser a irmãzinha caçula do Jõao Lucas, o intrépido ex-cabeça de cone, meu sobrinho-neto. Para não fugir à tradição da família cone, houve uma suspeita de que a mãe, Gabi, pudesse ter contraído zika, sem perceber que estava grávida. Foram meses de suspense, até ser atestado hoje que é uma menininha e está em perfeito estado. Quanto ao sexo, não confio muito, porque, entre outras estripulias do cabeça de cone, seu primeiro exame também deu sexo feminino. Provavelmente a tal zika foi, na verdade, dengue, doença que me pegou junto com a metade da família. Então, um grande viva para a dengue, que incomoda, mas pelo menos permite que as menininhas(?) nasçam perfeitas.

  3. MILTINHO
    Postado em 28/07/2016 às 1:54 pm | Permalink

    Confraria dos vovôs babões felicita Gabi! Que venha uma menininha então em dezembro perto do Natal, para reforçar nossa esperança no Brasil do futuro já que o atual é olímpico e de medalhas duvidosas.

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Textos » Sonho em 23/08/2016 às 1:49 pm

    […] Que nem Marina, que, quando vai fantasiar, vai fazer de conta, faz de conta que está brincando com a família de verdade. […]

  2. […] Marina hoje me contou um sonho. […]

  3. Por 50 Anos de Textos » No shopping com Marina em 02/10/2016 às 2:58 am

    […] fui pela absoluta primeira vez a um shopping com Marina, e ela me deixou […]

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