Foi bonita a festa

ARBX - 31/07/2016 - SvÉO PAULO - POLITICA / MANIFESTACAO VEM PRA RUA - FORA DILMA Manifestacao na Avenida Paulista liderada pelo movimento Vem Pra Rua. Foto: Rafael Arbex / ESTADAO

Foto Rafael Arbex/Estadão

Teve muito menos gente na Avenida Paulista desta vez. Isso é fato. Nem importa se haverá número oficial da PM, se haverá o cálculo sempre esquisito do Datafolha. Teve muito menos gente do que em todas as manifestações anteriores pelo Fora, Dilma, Fora, PT.

Eu estive em todas, eu sei, eu vi. Em 15/3, em 12/4, em 16/8 de 2015. Em 13/3/2016, a maior de todas, a maior manifestação política que já houve no Brasil, maior ainda que as jornadas pelas Diretas-já.

E o que acontece na Avenida Paulista é o grande espelho do que acontece Brasil afora.

Pelo que já deu para ver nas fotos, houve manifestações anti-Dilma e anti-PT em diversas, diversas, diversas cidades país afora neste 31 de julho – capitais e cidades do interior. Não foram imensas multidões como em outras ocasiões – mas teve gente. Foi expressivo. No Rio de Janeiro, por exemplo, a manifestação foi bastante grande, massiva, impressionante.

Foi expressivo, em especial, porque as manifestações foram desconvocadas por dois dos grupos mais ativos nas anteriores todas, o MBL, Movimento Brasil Livre, e o Nas Ruas.

Já a partir de metade da semana anterior, ali pelo dia 20, 21, começaram a surgir boatos de que a grande manifestação marcada para o dia 31/6 estava sendo cancelada. Houve boatos, e houve desmentidos nas redes sociais.

Na terça-feira, 26, o Estadão publicou matéria abrindo a página 7 com o seguinte título: “Grupos adiam ato pró-impeachment”.

O texto, assinado por Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho, explicava que o Movimento Brasil Livre e o Nas Ruas haviam optado por se manifestar mais perto da votação do impeachment pelo Senado, que deverá acontecer lá pelo finalzinho de agosto. E que o Vem Pra Rua havia preferido manter a data inicialmente marcada.

Dizia a reportagem:

“Um dos coordenadores nacionais do MBL, Kim Kataguiri, afirmou que o adiamento da participação do grupo foi decidido pela baixa adesão dos seguidores ao protesto e por ele estar marcado em data muito distante da votação no Senado. ‘A mobilização não estava boa’, admitiu. O estudante de Direito disse que as coordenações estaduais do MBL foram informadas do adiamento da participação do grupo no dia 31, mas foram liberadas para organizar atos locais se assim quiserem.”

Em suma: dois dos principais grupos que organizavam a manifestação passaram, na prática, faltando menos de uma semana para o 31/7, a desconvocar as pessoas para o ato. A convocar as pessoas para que elas não fossem para as ruas, já que “a mobilização não estava boa”.

Na sexta-feira, 29, O Globo on line publicou esta notícia: “Partidos se afastam das manifestações de rua pró-impeachment”. O olhinho, a linha fina, complemento do título, explicava: “PPS foi o único a convocar partidários para ir às ruas domingo”.

Quem foi para as ruas neste domingo foi apesar dos movimentos organizadores e dos partidos políticos. Contra a vontade de dois dos maiores organizadores, e sem qualquer apoio dos dois maiores partidos que fizeram oposição ao lulo-petismo, PSDB e DEM.

Quem foi para a rua foi por pura, simples, clara vontade – forte, irreprimível – de se manifestar contra Dilma Rousseff, pelo impeachment, contra o PT, a favor da Lava Jato, a favor da ação do juiz Sérgio Moro, a favor da ação da Polícia Federal, contra a corrupção que o PT institucionalizou em 13 anos, 5 meses e 12 dias trágicos para o país.

Isso distancia ainda mais os que vão às ruas pelo Brasil dos que vão às ruas por um partido e seu projeto de poder.

A imensa maioria dos que vão com camisas e bandeiras vermelhas – todos sabemos disso – vai em troca de alguma coisa, seja um sanduíche de mortadela, seja um pagamento em dinheiro mesmo. E vai em condução providenciada e paga por uma das organizações de sustentação do lulo-petismo – as quais, por sua vez, mamam nas tetas do Estado, ou mamavam, até o dia 12 de maio.

Os que vão com camisas e bandeiras amarelas, verdes ou azuis vão por sua conta, sem receber absolutamente nada material em troca.

Desta vez, neste domingo, 31 de julho, os de verde-amarelo foram às ruas contra a recomendação de organizações, grupos.

Apesar da recomendação de organizações, grupos.

Apenas porque se sentiram na obrigação cívica de ir.

Então é assim: teve muito menos gente na rua do que das outras vezes. Mas valeu. Roubando o verso do grande compositor, foi bonita a festa, pá!

31/7/2016

3 Comentários

  1. MILTINHO
    Postado em 01/08/2016 às 12:21 am | Permalink

    Nas ruas em defesa do Estado Democrático de Direita.
    Vovô não se livrará do estigma de golpista.

  2. MILTINHO
    Postado em 01/08/2016 às 12:38 am | Permalink

    Por mais que existam vilões, não há salvadores da pátria. Os políticos com problemas judiciais não entregarão seus cargos e continuarão em postos estratégicos, o Congresso não pautará os mais urgentes interesses nacionais, a população mais fragilizada continuará pagando a conta das políticas de austeridade, as investigações continuarão sofrendo inúmeras pressões políticas por todos os lados, a apropriação do público em benefício do privado não deixará de ocorrer, os vergonhosos benefícios (em especial nas altas esferas poder judiciário, executivo e legislativo) não serão diminuídos e nem se tornarão condizentes com a realidade encontrada no restante do país, a educação não se tornará prioridade, a alienação de partidos pequenos continuará existindo, as coligações partidárias mais esdrúxulas continuarão acontecendo sem bases ideológicas e o pragmatismo e o fisiologismo continuarão sendo o norte das ações dos grandes agentes políticos.

    Não haverá ação pontual que mudará esse cenário. O problema não está só nos atores, mas no enredo, na trama, na forma como nos constituímos politicamente, como se dá nossa representação, como nos organizamos socialmente e cobramos as ações de Estado. Estamos diante de um problema estrutural: a falta de organização e fomento para a participação sócio-política, essenciais para o fortalecimento das instituições democráticas e sua atuação reguladora e que vão além de bater panelas ou o ativismo de sofá. Não há, portanto, como esperar ações isoladas de rompimento de um processo que é institucional, suprapartidário e histórico no âmbito federal, estadual, municipal ou demais esferas públicas.

  3. NOSSO MEDO
    Postado em 01/08/2016 às 12:31 pm | Permalink

    Todos os dias indivíduos normalmente inteligentes e classes sociais inteiras são feitos de tolos para que a reprodução de privilégios injustos seja eternizada entre nós. Para enxergar com clareza nosso real lugar no mundo, é fundamental compreender como nossa elite intelectual submissa à elite do dinheiro construiu uma imagem distorcida do Brasil de modo a disfarçar todo tipo de privilégio injusto. Os poucos que hoje controlam tudo precisam desse “exército de intelectuais” do mesmo modo como os coronéis do passado precisavam de seu pequeno exército de cangaceiros.

    Necessário compreender as reais contradições da nossa sociedade. Nos bolsos do 1% mais rico da população brasileira, está o resultado do trabalho dos 99% restantes. E assim é há muito tempo, diante do olhar passivo de toda a população. Se a maioria subjugada raramente levanta a voz contra esse estado de coisas, é porque a violência física que antes permitia uma desigualdade tão grande e uma concentração de renda tão grotesca foi substituída, no Brasil formalmente democrático de hoje, por uma espécie de “violência simbólica”, que se disfarça em convencimento pelo melhor argumento.

    Ao dominarem todas as estruturas do poder, da informação e da inteligência, os privilegiados monopolizam os recursos que deveriam ser de todos e abre caminho para a exploração do trabalho da imensa maioria sob a forma de taxa de lucro, juros, renda da terra ou aluguel. Tamanha violência simbólica só é possível pelo seqüestro da inteligência brasileira em prol desse 1% mais rico, que passa a monopolizar os bens e recursos escassos, sejam materiais ou ideais. Em vez de apontar para as causas reais da concentração da riqueza social e para a exclusão da maioria, essas concepções de intelectuais servis ao poder nos levam a acreditar que nossos problemas advêm da “corrupção apenas do Estado”, levando a uma falsa oposição entre o Estado demonizado, tido como ineficiente e corrupto, e um mercado visto como reino de todas as virtudes

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