Essa pesquisa sobre conservadorismo é a maior besteira

Em artigo no Estadão desta quinta-feira, 22/12, José Roberto de Toledo decretou que os brasileiros ficaram mais conservadores. Baseou-se em duas rodadas de pesquisas feitas pelo Ibope.

O papel aceita tudo – até mesmo as maiores mentiras, as maiores mistificações, as maiores imbecilidades.

Como vivemos nos tempos da meia verdade, da negação da verdade, da pouca aceitação da verdade, saem por aí pelas redes sociais pessoas asseverando que os brasileiros, segundo comprovou o Ibope, ficaram mais conservadores.

É duro.

O artigo de José Roberto Toledo explica que o Ibope fez duas pesquisas a respeito do conservadorismo ou liberalismo dos brasileiros, uma em 2010, e outra agora em 2016. Nas duas rodadas da pesquisa, foram feitas apenas e tão somente cinco perguntas fechadas.

O Ibope perguntou a um número de brasileiros não especificado no artigo se eles são contra ou favor dos seguintes itens:

1) legalização do aborto,

2) casamento entre pessoas do mesmo sexo,

3) pena de morte,

4) prisão perpétua,

5) redução da maioridade penal.

O Ibope estabeleceu que quem se disser contra os dois primeiros itens é conservador. Assim como quem se disser a favor dos três últimos.

Eis o que diz José Roberto de Toledo em seu artigo:

“O conservador dos conservadores respondeu ser contra os itens 1 e 2, e a favor dos demais – na escala do Ibope, ele marcará 1 de conservadorismo. Já o liberal dos liberais é a favor dos dois primeiros itens, e contra o resto: seu índice é zero. Entre um e outro, o Ibope dividiu os brasileiros em três faixas, conforme a quantidade de respostas conservadoras. A distribuição dos resultados ajuda a entender a projeção de um Bolsonaro.

“Nada menos do que 54% da população brasileira alcançou um índice igual ou superior a 0,7, que o Ibope definiu como alto grau de conservadorismo. Outros 41% – com índice entre 0,4 e 0,6 – estão na faixa do conservadorismo médio. Só 5% ficaram no baixo.

“Na média, o brasileiro marcou 0,686 – bem mais para conservador do que para liberal. Ainda mais relevante, esse índice médio cresceu nos últimos seis anos: em 2010, era de 0,657. Colocando de outra maneira, o grupo dos que atingiram alto grau de conservadorismo cresceu de 49% para 54% nesse período.”

***

Não sou expert em estatística e metodologia de pesquisas de opinião, mas me parece bastante óbvio que duas rodadas de pesquisa, uma em 2010 e outra em 2016, com apenas cinco perguntas às quais o pesquisado só tem a opção de dizer sim ou não, sem qualquer meio termo, não são suficientes para definir como pensam 200 milhões de pessoas.

Por exemplo: quem foi que estabeleceu que defender a redução da maioridade penal é ser conservador, e ser contra é ser liberal? Com que autoridade o Ibope estabeleceu isso como verdade plena, absoluta, universal?

Com base em que se afirma que só se atinge a maioridade penal a partir dos 18 anos?

A maioridade penal varia entre 10 e 15 anos na Finlândia, Áustria, Suécia, Austrália, Irlanda, Dinamarca, Noruega, Islândia e Nova Zelândia. Seriam esses países conservadores por causa disso?

Por que apenas essas cinco perguntas?

Por que não perguntar também sobre eutanásia, casamento entre pessoas de cor de pele diferente, casamento entre pessoas de religião diferente?

Por que nenhuma pergunta sobre questões políticas e econômicas?

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E, para encerrar: quem foi que disse que os institutos de pesquisa de opinião acertam?

As pesquisas erraram feio em várias capitais brasileiras, nas recentíssimas eleições municipais.

As pesquisas erraram feio na avaliação do apoio da população britânica ao Brexit, à saída do Reino Unido da Europa unida.

As pesquisas erraram feio quanto à aprovação em plebiscito do acordo de paz entre o governo colombiano e as Farc.

As pesquisas erraram feio ao indicar que Hillary Clinton venceria Donald Trump nas eleições americanas.

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A maioria dos brasileiros pode até ser conservadora. O conservadorismo pode perfeitamente estar aumentando no Brasil. Mas essa pesquisa do Ibope não significa nada. Porcaria nenhuma. Necas de pitibiribas.

23/12/2016

3 Comentários para “Essa pesquisa sobre conservadorismo é a maior besteira”

  1. .Servaz, o que me intriga é o seguinte. Como o Ibope avalia se o sujeito abordado tem inteira noção do que envolve a questão da maioridade penal, por exemplo. Será que escolhem pelo jeitão do entrevistado, ou perguntam a escolaridade? Se necessário, se expressam em di menor, di maior?
    .Certa vez, fazendo matéria na periferia de São Paulo, sobre justiceiros, encontrei unanimidade: os entrevistados apoiavam os justiceiros, “bandido tem que morrer”. Então dei com uma mulher contrária às execuções. Como não era uma pesquisa, quis saber por quê?
    .Porque mata, acaba, respondeu. Tem que primeiro arrancar uma mão, um braço, uma perna, para ele sofrer o que merece.

  2. Sou contra o aborto, justamente porque sou radicalmente contra a pena de morte. Em nenhum dos dois casos, por motivos religiosos, já que sou ateu. Apenas considero a vida humana sagrada. Pouco me importa se duas pessoas do mesmo sexo resolvem se casar. Isso é um assunto que diz respeito somente a elas. Acho necessária pelo menos a existência da pena de prisão perpétua para alguns casos, sempre com a possibilidade de revisão futura. E não acho que o menor de idade brasileiro seja um retardado, menos consciente do que os dos diversos países citados pelo Sérgio Vaz. Queria ver o Ibope rotulando essa salada.

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