Canções, Natal, Marina

Quando Neil Young lançou After the Gold Rush, eu tinha 20 anos, dois de São Paulo. Era uma época de inícios: começava a trabalhar no Jornal da Tarde e, no começo do ano seguinte, começaria a namorar a menina mais especial do pedaço e a fazer Jornalismo na ECA. Nem me lembro por que, mas o LP e a canção que dá o nome a ele ficou na minha cabeça com um gostinho de ECA, de juventude, de muito sonho à frente.

Hoje, 46 Natais depois, no ano em Mary viu Neil Young ao vivo num deserto da Califórnia, topei por puro acaso no YouTube com um vídeo do trio Emmylou, Dolly & Linda cantando “After the Gold Rush”. As três gravaram a canção no disco Trio II, de 1998, mas a sensação que tive ao ver o vídeo, as marcas da idade já fortes nas três cantoras que admiro há tanto tempo, foi de que aquela era uma gravação bem mais recente.

Emocionou.

Postei o vídeo no Facebook, e até postei também outra versão de “After the Gold Rush”, a feita pela k. d. lang para o álbum Hymns Of The 49th Parallel, de 2004, só com músicas de compositores canadenses.

Aí fui tomar banho antes de ir ali na casa da minha filha para a noite de Natal e, como sempre, deixei o iPod no modo shuffle, randômico, ao azar – e aí, entre as mais de 15 mil músicas que poderiam tocar, tocou “After the Gold Rush” com k. d. lang.

Passei anos ouvindo da minha irmã citar frase que ela atribuía a Nietzsche: “coincidências não existem”. Ao que às vezes eu rebatia com aquela outra, que alguns atribuem a Einstein: “coincidências são a maneira de Deus permanecer anônimo”.

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Minha filha passou três Natais sem ter alegria alguma com a festa, depois que perdeu a mãe, a menina mais especial do pedaço, que era festeira, gregária, e se divertia juntando montes de gente em volta dela a cada Natal. Não tenho saudade alguma daqueles três Natais tristes que passei ao lado dela – tristes como será o deste ano para quem perdeu pessoas queridas. Meu Deus, e como todos nós perdemos pessoas queridas este ano.

Foram três Natais sem alegria alguma – mas, a partir do de 2013, Marina fez tudo mudar.

Este agora será o quarto Natal em que a filha da minha filha nos deixa babando de alegria.

Por coincidência, ou não, Marina passou a noite anterior à noite do Natal na casa do vovô. A primeira vez em que dormiu aqui só com o vovô – a vovó está em Belo Horizonte, com a mãe, os irmãos e a sobrinha dela.

Era a noite do especial do Roberto, e vi quase tudo. Perdi só o trecho com Caetano e Gil, porque exatamente naquela hora estava cuidando de pôr a pequena para dormir. Saí da sala levando Marina para o quarto que foi da mãe e agora é dela exatamente no momento em que Caetano cantava “Marina” de Caymmi. (A foto dela é da manhã do 24 de dezembro; a foto acima é de quando a mãe tinha a idade que Marina tem hoje. )

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Por coincidência – ou não –, o Arthur Dapieve publicou uma esplêndida crônica no Globo do dia 23 – o dia do especial do Roberto, o dia em que Marina dormiu aqui pela primeira vez só com o vô pra cuidar dela – sobre Joni Mitchell, outra canadense que admiro muito, assim como Neil Young e k. d. lang. No seu belo texto, Arthur Dapieve fala bastante de “River”, que Joni Mitchell gravou em Blue, seu álbum de 1971, um ano depois de After the Gold Rush.

Tenho Blue há muitos anos, é um disco belíssimo – profundo, que é preciso ouvir muito para que a gente vá percebendo toda a grandeza das canções –, mas foi só quando Madeleine Peyroux gravou “River” em dueto com k. d. lang, no álbum Half the Perfect World, de 2006, que finalmente descobri a música.

“Penso muito em Joni a cada dezembro”, escreveu Arthur Dapieve. “Em ‘River’, uma de suas músicas mais perturbadoras, mas cantada num jeitinho só dela, a narradora conta que o Natal está se aproximando. Enquanto as pessoas unem suas vozes em ‘canções de alegria e paz’, ela sonha patinar embora dali num rio congelado. ‘Mas não neva aqui, fica bastante verde’, lamenta. Para mim, este é o hino de todas as minhas inadequações natalinas.”

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As minhas próprias inadequações natalinas, seguramente amplificadas pela perda de Suely, me fizeram escrever um texto espantosamente desesperançado, “Ainda por cima inventamos o Natal”, em que dizia que, “como se não bastassem o câncer, a aids, o enfarte, a proibição de fumar, de beber, de comer sal, gordura, tudo o que tem gosto e dá prazer”, como se não bastasse uma enumeração infindável de desgraças, ainda por cima inventamos o Natal. “Como se a vida fosse doce e mansa e tediosa como num filme sueco, como se não houvesse problema algum, aí inventamos o Natal, pra deixar todo mundo mais tenso, estressado, nervoso, na correria, na pressão – tem que encontrar fulano, tem que encontrar sicrano, tem que dar presente para este, este, este, este e aquele.”

Dias depois de tanta desesperança, escrevi um segundo texto, ainda bem amargo, mas já com um tom mais leve, que falava exatamente da canção “River”:

“Todo mundo que se irrita com Natal (e o número é muitíssimo maior do que se poderia imaginar) deveria ouvir Madeleine Peyroux e k.d. lang cantando ‘River’. É uma vingança suave, doce, melancolicamente doce, contra essa insanidade de hordas de pessoas fazendo compras freneticamente, freneticamente com a necessidade básica, urgente, absurda, estressante, de se mostrar feliz.”

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Em dezembro de 2014, fiz mais um texto sobre Natal e, como sempre, como quase todos os meus textos, falando de canções. Era totalmente, absurdamente diferente do tom dos dois anteriores.

Contava que tinha ido para a Avenida Paulista, e visto, claro, o que Paul Simon, na tristíssima “The Late Great Johnny Ace”, do disco Hearts and Bones, de 1983, chamou de “a maré do Natal”.

“E aí, depois da terceira cervejinha , comecei a achar o mundo não absolutamente cruel, e a Christmas Tide, afinal de contas, não tão horrorosa assim. Até creio ter visto algumas pessoas sorrindo. Então tá: give me love, give me peace on Earth.”

Em dezembro de 2014, troquei as canções tristes de Joni Mitchell e Paul Simon pela canção quente, positiva, pra cima, de George Harrison.

Claro: em 2014 já havia Marina.

24 de dezembro de 2016        

Um Comentário

  1. Jussara
    Postado em 26/12/2016 às 2:32 am | Permalink

    Ai, que chique, o vovô tomando conta da netinha sem a ajuda da vovó. =)

    Vou te contar que o Natal de 2010 não foi nada fácil pra mim também. Foram 3 perdas na família, todas repentinas, sendo uma de uma prima na flor da idade, dentre outros acontecimentos. Senhor, que ano pesado foi aquele? No geral foi puxado pra todo mundo, parecia que o ano não queria terminar. E claro que algumas dores são maiores que outras. [Me lembro de ter mandado aquele seu texto para uma prima, porque super me identifiquei com ele naquele ano, e ela “Nossa, não sabia que você não gostava de Natal”… Pimenta no olho dos outros é refresco mesmo, hein?!].

    Quanto ao Natal em si, acho que nunca fui fã. Quem é que já não passou por ceias enfadonhas, com a TV ligada no programa de fim de ano da Globo, tendo que aturar parentes bêbados, tias, cunhadas, primos, you name it chatos, com aquelas perguntas que até já viraram meme? (Graças aos céus, parece que o fenômeno se dá em todas as famílias).

    Quando tento puxar pela memória não consigo sentir saudade de nenhuma época de Natal. Só há uma fase, acho que na adolescência, em que eu sentia “a magia do Natal”: uma coisa e até um cheiro especial no ar, já no começo do mês de dezembro. Hoje, com o consumismo desenfreado, parece que isso sumiu (já faz alguns anos, na verdade). Para mim é uma data triste, ainda que não tenha motivo; se eu não ficar atenta, me bate uma “bad”, como se diz hoje. Mas eu tento me manter em paz, tento não pensar em problemas nem em soluções; fico só ouvindo a minha playlist de músicas de Natal, lendo e vendo algum filme temático.
    Algumas das músicas da minha playlist são tristes, apesar de bonitas, e daí fico pensando nisso que você disse: das pessoas que perderam entes queridos. Que tristeza! O Natal mexe demais com a gente, e isso pode ser bom ou ruim. Parece que mexe com as memórias mais profundas, com mágoas, e então, nos encontros, dá-lhe alfinetadas ou conversas que nem sempre são agradáveis (não é à toa que há filmes que abordam exatamente essas contendas).

    O Natal não é necessariamente algo pra cima, alegre, festivo, mas não deixa de ser uma época bonita, onde mesmo os corações mais endurecidos se abrem para a generosidade e o amor. Para os cristãos, é uma data mais que especial, embora simbólica, e para mim esse é o verdadeiro sentido da comemoração.

    Acho que as crianças trazem de volta a alegria e o significado do Natal, e é aí que entra a Marina.

    PS: Achei tristes todas as músicas que você postou aqui, mesmo a do George Harrison (que na versão da Marisa Monte é mais pra cima) tem um quê de tristeza, sei lá. Fala de fardo, de um amor e uma paz que ele tenta alcançar, e sabe Deus se consegue… Acabei voltando para minha lista de músicas de Natal. hehe (Acho que vou ouvi-la por mais 1 ou 2 dias, antes que comece o horroroso clima de carnaval pela chegada do fim do ano…*suspiros*).
    Adorei as fotos, na primeira vez em que li o texto elas ainda não haviam sido publicadas.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Textos » Marina e a Fortuna em 06/02/2017 às 12:18 pm

    […] 3 anos e 10 meses, Marina demonstra com absoluta clareza como gosta de ver show de música. Não dança, não canta junto. […]

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