A paz ou a paz

Por 52 anos a Colômbia escreveu sua história à bala e encharcada de sangue. Após 260 mil mortos, 45 mil desaparecidos e quase 7 milhões de “desplazados” – colombianos deslocados de suas regiões por causa da guerra -, a paz finalmente pousou no país de Gabriel Garcia Márquez.

A bala de metralhadora transformou-se em caneta, com a qual o presidente da Colômbia, Juan Manoel Santos, e o líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Timochenko (Rodrigo Lodoño), assinaram em Cartagena o tratado de quase 300 páginas, pondo fim ao conflito armado de mais de cinco décadas.

O tratado não é ainda a última palavra. Ela quem dará serão os colombianos, em plebiscito marcado para o próximo domingo. A Colômbia é um mar de feridas não cicatrizadas, de luto e de dor. Mas só há duas alternativas para superá-las: a paz ou a paz. Fora disso, serão mais sangue derramado, mais viúvas e órfãos a chorar seus mortos, mais riquezas destruídas.

A guerrilha das Farc não é apenas uma das mais antigas do mundo, muito embora tenha começado antes de o homem ir à lua e de Che Guevara ter subido a Cordilheira dos Andes. Seu romantismo se limita ao fato de ter sido formada pelos sobreviventes do massacre da República de Marquetália, liderados por “El tirofijo” – Manuel Marulanda.

Cedo, as Farc mostram sua face cruel, matando e raptando civis, usando o sequestro como chantagem política e fator de extorsão. Cometeram crimes de guerra e contra a humanidade. Ao manter relações promíscuas com o narcotráfico e ao praticar o terrorismo, tornou-se um problema mundial. Entrou no rol das organizações consideradas como terroristas pela União Europeia, Estados Unidos e Canadá.

Para a América do Sul foi um fator de desestabilização. Quase leva à ruptura das relações entre a Colômbia, Equador e Venezuela em 2008, quando um acampamento das Farc em território equatoriano foi bombardeado pelas tropas regulares da Colômbia.

Na primeira década do século XXI, a grande preocupação geopolítica dos militares brasileiros era quanto à possibilidade de a guerrilha colombiana usar território brasileiro como rota de fuga ou base de apoio.

Na Colômbia empoçada de sangue as Farc sequestraram a mantiveram a senadora Ingrid Betancourt como refém por seis anos e assassinaram onze deputados do Valle de Cuaca, sequestrados em 2002. A violência tinha outra face: forças regulares do Estado sequestravam camponeses, os “falsos positivos”, e os assassinavam para “engrossar” a lista de “guerrilheiros” mortos em combate.

Nessa selva, os paramilitares de extrema direita, como a Autodefesa Unidas da Colômbia, também se aliava ao narcotráfico e promovia chacina de camponeses, tão bem retratadas na segunda temporada da série “Narcos”.

Para se ter uma ideia da carnificina: em Montes de Maria, região situada no centro dos departamentos de Bolivar e Sucre onde a guerrilha e paramilitares travaram combate contínuo desde os anos 80, foram mortas 80 mil pessoas, a maioria delas civis, simples camponeses.

É essa Colômbia que o acordo assinado em Cartagena, apoiado por Barack Obama, o Papa Francisco e intermediado por Raul Castro, quer deixar para trás. Não é fácil superar traumas e desconfianças. E é mais difícil ainda quando se leva em consideração as palavras de quem viveu seis anos no cativeiro, como Ingrid Betancourt: “Há pessoas que construíram sua riqueza com a guerra, que obtiveram força política com a guerra”.

A paz contraria interesses. Mas é compreensível que parte dos colombianos não concordem com os termos do acordo, particularmente com os que instituem um Tribunal Especial de Paz para julgar os crimes de guerra e contra a humanidade, cometidos ou por guerrilheiros ou os militares; assegura um mínimo de presença das Farc no parlamento; e institui uma remuneração, por dois anos, para os ex-guerrilheiros.

É o preço que se paga para não repetir erros do passado. Há oito anos, foi assinado um acordo por meio do qual os paramilitares entregaram as armas.  Como não encontraram meio de vida, ocuparam parte do espaço deixado pelos cartéis dos anos 90 e integram hoje os chamados Bacrim – bandos de criminosos.

São sábias as palavras de Fabíola Perdomo, uma das viúvas do massacre do Valle da Cauca: “prefiro ver as Farc no Congresso do que vê-las atirando no campo e causando tanta dor”.

Fabíola prega a esperança e faz campanha pelo sim, no plebiscito. Talvez seu gesto se explique pelas palavras do escritor Hector Abad Faciolince, cujo pai foi assassinado por paramilitares:

“A paz se faz para esquecer a dor do passado, diminuir a do presente e prevenir a futura.”

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 28/9/2016. 

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 01/10/2016 às 6:51 pm | Permalink

    Através deste exemplar texto retirei seguinte conclusão:: as FARC se aliaram ao narcotráfico o que também fizeram os paramilitares de direita.
    Agora assinaram um acordo de paz.
    Fica uma indagação? O narcotráfico ratificou o acordo? Quem são os signatários do narcotráfico? Será a paz bem vinda aos narcotraficantes? Será o narcotráfico banido do PIB colombiano?

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