Uma simples, delicada, suave canção de amor

Uma das músicas de Bob Dylan de que mais gosto, não canso nunca de ouvir, e ao contrário, tenho grande prazer a cada vez que ela surge no iPod durante uma caminhada, ou em casa mesmo, não é uma canção revolucionária, de protesto contra a injustiça social, a indústria armamentista, ou sobre o medo da bomba atômica, do apocalipse, do armagedon.

Nem é uma daquelas cheias de imagens surrealistas, loucas, fellinianas, talvez buñuelianas, doidianas. Nem é da fase ultra-religiosa, nem é da fase mais que madura do homem que observa todo o longo passado e faz considerações sobre o tempo a vida o amor a morte, o homem que quer chegar até o Céu antes que fechem a porta.

É uma simples, delicada, suave canção de amor.

Não que seja uma canção das menos conhecidas no meio da vastíssima obra do sujeito que compõe maravilhas desde os 22 até agora, os 70 e tantos anos.

Um monte de gente importante a gravou, graças a Deus.

zzzzbob1O próprio autor não a gravou em nenhum de seus discos oficiais de estúdio. A primeira gravação da música pelo autor saiu apenas na coletânea Bob Dylan’s Greatest Hits Volume II, lançada em 1971.

Compôs quando era jovem, muito jovem, jovem demais. Segundo indica a primeira edição das letras de Bob Dylan, Writings and Drawings by Bob Dylan, que tenho numa edição inglesa de 1973, “Tomorrow is a long time” foi composta entre os discos The Freewheelin’ Bob Dylan, de 1963, o segundo, e o terceiro, The Times they are a-changin’, de 1964.

Ou seja: “Tomorrow is a long time” foi composta entre 1963 e 1964. Quando Dylan, nascido em 1941, tinha entre 22 e 23 anos.

Como é possível que um fedelho de 22, no máximo 23 anos, saiba dizer tanto, e de maneira tão bela, sobre o amor?

Bem, a pergunta é absolutamente sem sentido. Todas as perguntas sobre como é possível Bob Dylan fazer tantas canções absolutamente geniais são sem sentido. Não há resposta possível.

***

zzzzbob2Ouvi pela primeira vez “Tomorrow is a long time” com Odetta, quando estava no que chamo de meu exílio curitibano, que durou dois anos, 1966 e 1967. A extraordinária cantora incluiu a música em seu disco Odetta Sings Dylan, de 1965, o primeiro de tantos e tantos e tantos discos dedicados a canções do cara. Algum tempo atrás fiz um textinho especificamente sobre esse disco.

Odetta no YouTube.

Muitos anos e dois casamentos depois, ouvi a gravação de Elvis Presley. Saiu numa coletânea de dois LPs produzida em 1989, The Songs of Bob Dylan, que, se não me falha a memória, comprei em Londres, na única vez em que estive lá, em janeiro de 1990. Acho que foi a única música de Dylan que Elvis gravou – e a versão é lindérrima. Nunca fui fã de Elvis, mas tiro o chapéu a cada vez que ouço a extraordinária versão que ele fez da canção.

Elvis no YouYube.

Ian & Sylvia é um caso de adoração: eles fizeram “Four Strong Winds”, aquela absoluta maravilha. Pois bem: Ian & Sylvia gravaram “Tomorrow is a long time” – uma beleza.

Ian & Sylvia no YouTube.

Judy Collins, a mulher dos mais resplandescentes olhos azuis da música, gravou a canção. Tudo bem: ela gravou dezenas de Dylan’s songs. Talvez tenha sido a artista que mais gravou Dylan, depois de Joan Baez.

Judy Collins no YouTube.

Nos discos oficiais originais de Joan Baez não havia “Tomorrow is a long time”. Só em 2001, a Vanguard – a gravadora em que ela fez seus 13 primeiros discos, entre 1960 e 1971 – lançou uma edição remasterizada do álbum In Concert Part 2, com várias faixas bônus, inclusive “Tomorrow is a long time”.

Joan Baez no YouTube.

Uma das versões mais fascinantes dessa música extraordinariamente bela foi feita por Rosalie Sorrels. Não tenho idéia de quem seja ela – mas já a admiro por essa única faixa dela que conheço, que saiu numa coletânea fantástica, A Nod to Bob – An Artists’ Tribute to Bob Dylan on His 60th Birthday, um disco que ganhei do meu amigo há muito sumido Fábio De Domenico.

O maravilhoso Geraldo Azevedo e um amigo dele chamado Babal tiveram a coragem de tentar traduzir para o português os versos magníficos, perfeitos, do jovem Dylan. Ouvir a versão dele só fez aumentar minha admiração – que já era imensa – pelo homem de Petrolina, diante de Juazeiro, JuazeiroPetrolina, a cidade dupla interestadual que felizmente tive a oportunidade de visitar, ainda que uma única vez na vida, depois de descer o São Francisco de barcaça de Pirapora até a barragem de Sobradinho.

Cometo abaixo o ato absurdo de traduzir literalmente o poema do jovem bardo. Peço desculpas pela ousadia.

Tomorrow is a long time O amanhã é tão distante
If today was not an endless highway

If tonight was not an crooked trail

If tomorrow wasn’t such a long time

Then lonesome would mean nothing to me at all

Se hoje não fosse uma estrada sem fim,

Se esta noite não fosse uma estrada torta,

Se amanhã não fosse um tempo tão distante,

Então a solidão não significaria nada para mim.

Yes and only if my own true love was waiting

If I could hear her heart softly pounding

If only she was lying by me

Then I’d lie in my bed once again

 

Sim, e só se meu amor verdadeiro estivesse esperando

Se eu pudesse ouvir seu coração batendo suavemente

Se ela estivesse deitada ao meu lado

Então eu deitaria na minha cama outra vez

I can’t see my reflection in the water

I can’t speak the sounds that show no pain

I can’t hear the echo of my footsteps

I can’t remember the sound of my own name

Não consigo ver meu reflexo na água

Não consigo falar os sons que não mostram dor

Não consigo ouvir o eco dos meus passos,

Não consigo lembrar o som do meu próprio nome.

Yes and only if my own true love was waiting

If I could hear her heart softly pounding

If only she was lying by me

Then I’d lie in my bed once again

E se meu amor estivesse esperando, Se eu pudesse ouvir seu coração batendo suavemente,

Se ela estivesse deitada a meu lado,

Então eu me deitaria na minha cama outra vez.

There’s beauty in the silver singing river

There’s beauty in the sunrise in the sky

But none of these and nothing else could match the beauty

That I remember in my true love’s eyes

Há beleza no rio prateado que canta,

Há beleza no alvorecer no céu

Mas nada disso, e nenhuma outra coisa mais, se iguala à beleza

De que me lembro nos olhos do meu amor.

If today was not an endless highway

If tonight was not an endless trail

If tomorrow wasn’t such a long time

Then lonesome would mean nothing to me at all

 

Se hoje não fosse uma estrada sem fim,

Se esta noite não fosse uma trilha sem fim,

Se amanhã não fosse um tempo tão distante,

Então a solidão não significaria nada para mim.

Não sei, não, mas creio que qualquer grande poeta da língua inglesa teria inveja destes versos:

There’s beauty in the silver singing river

There’s beauty in the sunrise in the sky

But none of these and nothing else could match the beauty

That I remember in my true love’s eyes.

Novembro de 2015

Agradeço a Rafael Noronha e Roger Ls Schlindw por terem me advertido sobre a informação errada de que Joan Baez não havia gravado a canção. Graças a eles, pude consertar o texto.

 

2 Comentários para “Uma simples, delicada, suave canção de amor”

  1. “Se hoje não fosse uma estrada sem fim,
    Se esta noite não fosse um trilhas sem fim,
    Se amanhã não fosse um tempo tão distante,
    Então a solidão não significaria nada para mim.”

    Luiz bota romantismo nisso, para quem tem mãe empregada doméstica e pai porteiro de edifício é mesmo para chorar lágrimas em esguicho. destaco os versos acima que me parecem de mais bela construção poética, mens piegas e cafona.

    Das versões linkadas escutei todas e mais a do próprio Dylan. Fã do Elvis, mais bela voz masculina depois de Milton Nascimento e Low Rawls, acho que ficou a desejar. Acreditei tewr ter me livrado da chata voz do Dylan e me enganei. Para me livrar dos banjos e do som anasalado de Dylan a maravilhosa performance da Judy Collins e seu violão.

    Como diria Moreira da Silva, o Kid Morengueira a música trata-se de “um boi com abóbora” trocando em miúdos, receita do Valdir, carne-seca e girimum, ou seja comida simples, trivial mas saborosa.

    Quando se trata de Dylan o talentoso (cabe como superlativo) transforma simples em requintado. Quando não fala de política, no seu domínio, é impagável (came também como superlativo). Valeu guru! Paute mais música, filmes e a neta.

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