Tubanga, jaburu, crocodilagem. Puro paulistanês

zzlingua ok

Em 2002, Valdir Sanches publicou no Jornal da Tarde uma reportagem sobre o Museu da Língua Portuguesa, hoje um sucesso absoluto, que estava, na época, ainda sendo planejado.

Conta ele:

A matéria tem entrevistas, mas o “ouro”, como dizia o Carmo Chagas, foi o livro Gíria de Todas as Tribos (Editora Panda Books), da jornalista Kárin Fusaro, resultado de ano e meio de pesquisas nas próprias tribos. Na entrevista com ela, me passou o preço da obra: duas araras (duas notas de dez, no mundo dos bingos).

Eis um trecho da reportagem:

Planeja-se a criação de um espaço, na Estação da Luz, para o culto à língua portuguesa. É uma idéia dez. Um negócio da hora, mamma mia. Mas, pergunta-se: no que toca aos paulistanos, como é mesmo essa língua?

Há quem nos acuse de usar uma linguagem mais ou menos cifrada, o paulistanês.  Os cariocas já reclamaram que ela está contaminando até os progamas da TV Globo, como o Caldeirão do paulistano Huck. Não temos culpa se chamar uma menina de mina é mais agradável do que tratá-la por cachorra, como os funkeiros deles fazem.

Em São Paulo, uma garota será tratada com mais delicadeza, mesmo que seja um caixote de feira, como dizem os caminhoneiros, uma tubanga, no falar dos skatistas, um jaburu, um dragão, um canhão, pela definição de várias tribos da cidade. Enfim, uma mulher feia.

E não é por ser considerada gíria que a linguagem das tribos não tem valor. O professor Dino Preti, que, em termos de língua portuguesa, é o cara, tem até livro escrito sobre isso. Ele diz que cada pessoa se vale da linguagem que tem. “O que interessa é comunicar.”

Não vai aqui nenhuma crocodilagem, traição na língua dos jiu-jitseiros, mas é por isso que às vezes nem os próprios paulistanos se entendem. Você está com sua cristaleira, seu jipe todo cheio de acessórios, parado numa estrada, e de repente chega um cara numa carniça, uma bicicleta ruim, e lhe diz: “Meu, me roubaram o dromedário”.

Dromedário, na língua dos bikers, é uma mochila com uma garrafa de água e um canudo comprido, para se beber sem deixar de pedalar. Também, qualquer clubber pode estar avonts num latão, à vontade em um ônibus, e subitamente subir um puro suco, uma mina de corpo bonito. E se ele jogar um veco, um chaveco, uma cantada em cima da moça, e ela considerar papo de elefante, conversa chata? E chamar um coxinha, um policial?

Pode acontecer de um pianista pegar carona com um cachorro louco. Essa pessoa que trabalha na pia dos restaurantes, na fala dos garçons, precisa ser bem Alice, para aceitar carona de um motociclista que dirige perigosamente. Alice, como os gays chamam uma pessoa boba.

O que acontece? O motoqueiro vira estatística, na linguagem dos aeronautas. Provoca um acidente. O pianista acaba no cemitério e os coveiros têm que fechar o boneco, enterrar o morto.

zzmuseu ok

Este texto é parte de reportagem publicada no Jornal da Tarde em 2002.

7 Comentários

  1. MILTINHO
    Postado em 04/12/2015 às 5:53 pm | Permalink

    Valdir chamar um dragão de mina e coisa de paulista mesmo, loucura. loucura, ô meu.
    O paulistanês é saboroso.

  2. LUIZ CARLOS TOLEDO
    Postado em 05/12/2015 às 12:16 am | Permalink

    Tenho certeza agora que o Valdir é um dos responsáveis por aqueles textos deliciosos que eu adorava ler no Jornal da Tarde. Devo, aliás, ter lido muitos textos dele, sem ligar o nome à pessoa na época.

  3. valdir
    Postado em 05/12/2015 às 7:21 pm | Permalink

    Miltinho, se a Káren Fusaro fizesse sua pesquisa hoje, seria tão divertido? Você deixe de fazer blague com os nomes, chamar dragão de mina (e não o contrário) só se ele for gay (ui!) Nota da Redação: nenhum preconceito com gays.
    Luiz Carlos, realmente fiz textos bem interessantes, mas naquela redação fantástica da época todo mundo fez. E títulos. Você conhece este, de um jovem chamado Guilherme, justamente apelidado Jovem Gui, para matéria da morte do Picasso: MORREU PICASSO. SE É QUE PICASSO MORRE.

  4. MILTINHO
    Postado em 06/12/2015 às 10:15 am | Permalink

    Valdir os gays tinham melhor tratamento na paulicéia, não eram dragões eram minas. Vide os versos: “na deselegância concreta de suas meninas…”
    Os viados(veados)cariocas nunca foram concretamente reverenciados.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 06/12/2015 às 1:50 pm | Permalink

    Miltinho, o verso é “na deselegância discreta de suas meninas” – e não há evidência alguma de que Caetano se referia a gays, e não às paulistanas.
    Um abraço.
    Sérgio

  6. MILTINHO
    Postado em 07/12/2015 às 12:24 am | Permalink

    A inegável evidência.
    Sérgio o local, avenidas Ipiranga com São João não era local mais apropriado para as paulistanas desfilarem elegância.
    Outro abraço.
    Miltinho.

    PS. Valdir é ótimo!

  7. valdir
    Postado em 07/12/2015 às 12:05 pm | Permalink

    Miltinho, ótimo é contar com o comentário sempre qualificado e criativo do companheiro. Audiência de primeira…

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