O exército e os guerrilheiros do PT

O PT fala muito em democracia, mas seu DNA tem carga forte de autoritarismo. Os lulo-petistas são fascinados por Fidel Castro, Josef Stálin, Kim Jong-un, Hugo Chávez, Evo Morales – ditadores ou defensores de regimes autoritários, em que a democracia é cada vez mais apenas fachada.

Detestam imprensa livre – seu sonho de consumo é ter, como em Cuba, só o Granma, o jornal oficial do regime.

Detestam empresas livres, empreendedorismo, mérito. Preferem um Estado forte, gigantesco, inchado, que seja paizão e babá dos cidadãos.

Nem tentam esconder seu fascínio pela luta armada, a revolução. Outro dia mesmo Lula vociferou sobre o “exército do Stédile”. E esta semana revelou um documento produzido dentro do próprio Palácio do Planalto admitindo claramente que o governo paga os blogueiros chapa branca e usa robôs para replicar informações na internet, e recomendando que “a guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele”.

Aí vão três textos publicados nos jornais desta quinta-feira, 19, e sexta, 20, sobre esse sensacional, incrível, fantástico documento lulo-petista conclamando os filhos seus à luta de guerrilha. São de Eugênio Bucci, Míriam Leitão e José Casado.

Por que o governo se trumbica

Por Eugênio Bucci. Publicado no Estadão de 19/3/2015.

Até agora, o pior erro de comunicação do governo federal foi o documento interno do governo federal sobre os erros de comunicação dele mesmo, o governo federal. Na terça-feira à tarde, o texto que circulava no Palácio do Planalto foi noticiado com exclusividade no portal estadao.com.br. Ontem a peça virou manchete deste jornal. Não era para menos. A reportagem de Valmar Hupsel Filho e Ricardo Galhardo destrincha um texto que, em mais de um sentido, é uma bomba. Elaborado dentro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), segundo apuraram os repórteres, o documento não explica e não resolve a desorientação do Planalto em matéria de se entender com a sociedade. Em vez disso, piora tudo.

São 1.904 palavras que se estendem por cinco páginas de papel ofício. Todas erradas. Erram no diagnóstico, nas proposições e nos fundamentos. Na visão ali exposta, as falhas de comunicação dos anos Dilma Rousseff teriam sido técnicas: a desativação de robôs que atuavam nas redes sociais em defesa do governo, o distanciamento dos “blogueiros progressistas”, a falta de publicidade oficial e outros desacertos da mesma linha. Em síntese, o governo teria errado porque não lançou mão das ferramentas “certas”, nas doses cavalares “certas”, para convencer a cidadania errada de que ele, governo, é que está certo.

Por que o diagnóstico é um erro em si mesmo? Porque a principal deficiência do poder que aí está, quando o assunto é comunicação, não tem nada que ver com mais ou menos propaganda na televisão, não tem que ver com a falta de cumplicidade de ativistas das redes sociais. O que existe é uma incapacidade anterior, constitutiva e persistente. Pelo menos desde 2011 (a coisa não era tão grave nos tempos de Lula), a gigantesca limitação comunicativa do Palácio do Planalto é política, não técnica. Em termos menos vagos, é de natureza auricular. O governo não escuta ninguém – e todo mundo que está rouco de tanto avisar sabe disso muito bem. O governo não escuta a oposição, não escuta os parlamentares, não escuta o PT e não escuta os conselhos do ex-presidente Lula. Que não escute também a sociedade não surpreende nem um pouco.

Escutar, nesse caso, significa ouvir. E ouvir não significa concordar com tudo, mas significa levar em consideração, acolher, incorporar, agregar, somar, dividir o poder para multiplicar a representatividade, o engajamento. Como não faz nada disso (e como faz muito o oposto disso), falta credibilidade aos convites que, agora, os ministros começam a fazer para o “diálogo”. Puxemos pela memória. Dilma também falou em “diálogo” logo ao vencer o segundo turno, no dia 26 de outubro, com 51,6% dos votos. Mas que diálogo? Na noite daquele domingo usou o microfone por quase meia hora e não pronunciou uma única vez o nome de Aécio Neves, seu adversário. Não dirigiu a ele uma única palavra de agradecimento. Não o cumprimentou. Ora, essa, quem ela queria ouvir para dialogar?

Instrumentos de comunicação o governo hoje tem de sobra. Paga-os a peso de ouro. As somas são bilionárias. Não foi por falta de máquina de propaganda que a classe média foi às ruas no domingo. Foram passeatas de direita? Foram, e daí? Isso as torna menos legítimas e menos expressivas, por acaso? A indignação, além de legítima, é generalizada – e ela não se deve à escassez de blogueiros amigos ou à ausência de superproduções publicitárias na TV. O erro está mais embaixo. E mais acima. O erro está em todo lugar. É ubíquo. O erro é de postura. Você não vai acreditar, mas hoje, no Palácio do Planalto, nem as paredes têm ouvidos.

Sem dúvida, devemos ler com reservas o tal documento da Secom. Ele não é um pronunciamento solene, não é uma portaria, não foi publicado no Diário Oficial. Não passa de papel interno, cuja circulação deveria ser reservada. Por outro lado, em nenhum outro lugar a índole palaciana se expressou com tanta crueza, de modo tão desabrido. E até o dia de ontem, no meio da tarde, ele não foi desautorizado. Mesmo não sendo oficial, ele é verossímil, autêntico. Os seus parágrafos trazem cada uma das impressões digitais dos estrategistas que animam esse continental desastre de comunicação que se instalou na Presidência da República. Tudo ali explode como numa inacreditável confissão de culpa. E, nesse caso, culpa não apenas pelos tais erros cometidos, mas principalmente culpa por expor de modo tão cristalino um pensamento tão obscuro, tão bruto.

Vejamos um trecho: “Não importa quantos panelaços eles façam. É preciso consolidar o núcleo de comunicação estatal, juntando numa mesma coordenação Voz do Brasil, sites, Twitter e Facebook dos ministérios, Facebook da Dilma e Agência Brasil”.

Note bem o pronome eles. Quem são mesmo “eles”? Como é possível que, a esta altura da evolução da democracia brasileira, um servidor público chame de “eles” os brasileiros que fazem panelaço? Que governo é esse que quer operar na base do “nós contra eles”? O governo não deveria ser de todos os brasileiros? Que um partido pense assim é compreensível, mas o governo?

No mesmo trecho, o emprego da expressão “comunicação estatal” é igualmente perturbador. Se o Estado, nos termos da Constituição, deve ser apartidário e impessoal, como é que a “comunicação estatal” pode ser posta a serviço desse sombrio combate ideológico contra “eles”? Lembremos que “eles” são cidadãos brasileiros, como eu e você. (Fora isso, é deplorável, ofensivo, ver a Agência Brasil reduzida a munição partidária na guerra do “nós contra eles”.)

“Não será fácil virar o jogo”, conclui o texto. Não mesmo. Mais fácil será o jogo virar o governo, quer dizer, virar a cabeça do governo. Quem sabe Dilma se toque e vire o seu governo na direção da mentalidade democrática e do diálogo verdadeiro. Os estrategistas da surdez que nos perdoem, mas essa crise não é uma partida de futebol.

Guerrilha no Planalto?

Por Míriam Leitão. Publicado em O Globo de 19/3/2015.

A presidente Dilma vai errar de novo se ouvir os conselhos amalucados de fazer “guerrilha política”, como foi proposto em documento interno do Planalto. A popularidade despencou a um nível tão baixo que a fragiliza, e a única resposta boa é o reconhecimento dos erros e a sinceridade. A bola agora está com a presidente, e ela precisa saber como salvar seu governo da aguda desidratação.

O documento reservado do Planalto, publicado nos jornais de ontem, mostra o quanto a presidente está mal assessorada. O texto admite, o que, de resto, não era segredo para ninguém: uso de robôs para disparar contra adversários na mídia digital. Além disso, o documento propõe explicitamente: “As ações das páginas do governo e das forças que apoiam Dilma precisam ser melhor coordenadas. A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas para ser disparada por soldados fora dele.”

Ainda que não tenha autoria, o documento tem impressões digitais. É isso mesmo que os assessores dizem à presidente e assim agem: financiando os “soldados que disparam” de fora do governo, como se dentro dele estivessem. A presidente Dilma precisa de alguém que lhe diga que o tempo da guerrilha acabou. Na democracia, é com a boa política que se chega à vitória.

É um equívoco enorme considerar que a situação a que se chegou de desaprovação se deve à suposta militância digital oposicionista ou a críticos do governo ou mesmo à “errática” comunicação da Presidência, como diz o texto. A queda da popularidade presidencial tem como causa fatos da vida real. A situação econômica está realmente ruim. O desconforto que a inflação alta está causando às famílias, principalmente as de mais baixa renda, é enorme. A indignação com o nível a que chegou a corrupção no Brasil está disseminada.

Antes que inventem novos artefatos de ataques contra os supostos adversários do governo, Dilma deveria pôr sua cabeça no travesseiro e pensar em toda essa situação criada pelos erros que cometeu, pelos alertas que ignorou, pelo uso do marketing nocivo que ajudou a envenenar sua relação com a sociedade.

Basta olhar os dados detidamente. Só 13% acham o governo bom ou ótimo. Portanto, inúmeros eleitores da presidente estão decepcionados e se sentem traídos. A base parlamentar tem queixas reais de não ter sido informada de propostas que o governo enviou ao Congresso. O problema é vasto e complexo demais para ser resolvido por uma visão bélica do processo político e social.

Nos discursos de ontem, ao lançar o pacote anticorrupção, seguiu-se de novo a linha de que o governo está pagando um preço alto por investigar a corrupção. Deveríamos ser poupados da repetição dessa ideia que desrespeita a inteligência alheia. Ninguém duvida que corrupção existia antes de 2003, mas é inegável o fato de que ela escalou e chegou a um nível intolerável quando decidiu tomar de assalto a Petrobras, como se fosse um campo de extração partidário.

O governo propõe que seja crime o caixa dois. O PT já teve um tesoureiro, Delúbio Soares, que confessou essa prática. Mas agora, como explicou o procurador Deltan Dallagnol, há um sistema mais sofisticado: propinas eram cobradas para serem pagas como contribuição legal à campanha. As doações dentro da lei passaram a ser a forma de lavar dinheiro de origem ilícita. Portanto, a proposta do governo fecha porta arrombada, quando os criminosos já encontraram outra porta e por ela transitam.

A presidente deveria chamar corrupção de crime, e não de “malfeitos”. É leve demais a palavra para definir o estrago que foi feito na maior empresa do país que hoje está sendo rebaixada e tirada de índices de boas empresas no mundo inteiro. A Petrobras, é sempre bom repetir, não é apenas a maior. É a mais querida das empresas do Brasil, nascida de movimento popular, com um quadro qualificado de funcionários, a que mais investe em pesquisa e desenvolvimento. Esse patrimônio é que foi atacado, e ele é que tem sido defendido pelas instituições que a democracia e o Estado brasileiro criaram.

Na economia, na política e no combate à corrupção, a presidente precisa usar as armas convencionais da democracia: negociar, convencer, reconhecer erros, ser sincera. O tempo da guerrilha definitivamente está encerrado.

O espírito revolucionário no Palácio do Planalto

Por José Casado. Publicado em O Globo, em 20/3/2015.

O governo deveria fazer uma revolução apoiada por robôs. É o que sugere um documento obtido no Palácio do Planalto pelos repórteres Valmar Hupsel Filho e Ricardo Galhardo, aparentemente produzido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Ontem, ao reconhecê-lo, a presidente preferiu qualificar como “não oficial”.

Desde os manuscritos em papiro, sabe-se que papel aceita tudo — inclusive estas linhas. Nesse documento “não discutido pelo governo”, segundo a presidente, escreveram-se mais de 1.500 palavras, para a reflexão de Dilma Rousseff nas 48 horas seguintes ao desfile de multidões nas ruas de 160 cidades, na noite de domingo, e ao panelaço que se estendeu na noite de segunda-feira.

Ele contém um receituário de pílulas para a presidente atônita com o ruído das ruas, num país em que não existe crise institucional — apenas um governo sem rumo e com menos de três meses de mandato realizado.

Sugere aspirinas de obviedades: “Não adianta falar que a inflação está sob controle, quando o eleitor vê o preço da gasolina subir 20% de novembro para cá ou a sua conta de luz saltar em 33%.” Ou ainda: “É preciso aceitar a mágoa desses eleitores (insatisfeitos), reconquistá-los.”

Seu grande momento é a proposta de meios para reversão da crítica coletiva a Dilma, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores. No texto — por sinal, mal escrito —, propõe-se a criação de um autêntico exército de robôs para uma operação clandestina de defesa, em regime de prontidão permanente, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Atuaria de forma oculta, ardilosa, em missões típicas de sapadores: “A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele.”

Argumenta-se que o crescimento da insatisfação se deu no período pós-eleitoral. Em confissão, lembra-se nesse documento “não oficial”, que “a partir de novembro, as redes sociais pró-Dilma foram murchando até serem quase extintas”.

“Principal vetor de propagação do projeto dilmista nas redes, o site Muda Mais acabou” — acrescenta. “Os robôs que atuaram na campanha foram desligados e a movimentação dos candidatos do PT foi encerrada.”

Em contrapartida, “a tática do PSDB foi exatamente a oposta”. Alega-se: “Cerca de 50 robôs usados na campanha de Aécio continuaram a operar mesmo depois da derrota de outubro. Isso significou um fluxo contínuo de material anti-Dilma, alimentando os aecistas e insistindo na tese do maior escândalo de corrupção da História, do envolvimento pessoal de Dilma e Lula com a corrupção na Petrobras e na tese do estelionato eleitoral. Tudo com suporte avassalador da mídia tradicional.”

“Em estimativas iniciais” — continua —, “a manutenção dos robôs do PSDB, a geração de conteúdo nos sites pró-impeachment e o pagamento pelo envio de WhatsApp significaram um gasto de quase R$ 10 milhões entre novembro e março. Deu resultado. Em fevereiro as mensagens/textos/vídeos oposicionistas conseguiram a capacidade de atingir 80 milhões de brasileiros. As páginas do Planalto mais as do PT, 22 milhões. Ou seja, se fosse uma partida de futebol, estamos entrando em campo perdendo de 8 a 2.”

Conclui: “De um lado, Dilma e Lula são acusados pela corrupção na Petrobras e por todos os males que afetam o país. Do outro, a militância se sente acuada pelas acusações e desmotivada por não compreender o ajuste na economia. Não é uma goleada. É uma derrota por W.O..”

Em meio à crise, alguém no Palácio do Planalto produziu e levou à presidente um documento “não oficial” propondo-lhe enfrentar os protestos nas ruas liderando uma revolução com um exército clandestino de robôs.

Dilma não deveria perder a chance de mandar imprimir uma placa e deixá-la à vista na sua sala de trabalho: “Errar é humano, mas, para se produzir um monstruoso erro, é preciso um computador.” Depois, pode cair na gargalhada.

20/3/2015

4 Comentários para “O exército e os guerrilheiros do PT”

  1. Realmente, 3 bons textos e 3 boas análises. Pena que a a introduçao misture alhos com bugalhos. Politica e economia não são o forte do compilador que continua a dar murros em ponta de faca.Falar de cinema é seu forte,a guinada á direita faz a cabeça ficar oval.

  2. O projeto de poder apoiado pela mídia tradicional foi derrotado nas urnas, mas seus operadores não consideram que a eleição acabou. A imprensa brasileira não é uma instituição democrática e tampouco atua como um contrapoder dedicado a questionar o Estado, como defendem alguns. O sistema da mídia poderia ser esse contrapoder democrático, mas se comporta como uma instância na disputa direta do poder, que utiliza o jornalismo como instrumento de pressão.

  3. Com relação à imprensa “democrática” tupiniquim, quero destacar três anos, e depois mais três anos:

    Primeiro, os anos de 1952, 1953 e 1954:

    – em 1952, o quadro político brasileiro parecia estável: nenhum fato de grande relevância ocorreu;
    – em 1954, enormes problemas políticos, com o Manifesto dos Coronéis, o hiper-democrático jornal “Tribuna da Imprensa” e o suicídio do Vargas.
    – Algo aconteceu entre estes dois anos: provavelmente em 1953, quando o Vargas contrariou os “chefes” yankees e criou a Petrobras. Quando esta surgiu, de repente abriu-se uma “caixa de pandora” de oposição ao governo: a tranquilidade do ano anterior foi extinta – os coronéis e o Lacerda, ao contrário do Vargas, decidiram obedecer aos deuses yankees e iniciaram o golpe.

    Agora, mais três anos: 2005, 2007 e 2016:
    – em 2015, havia tranquilidade no governo, e total impunidade dos mensaleiros;
    – em 2016 – embora sem golpe – tivemos grande terror político, Moro, Bolsonaro, e mesmo o “fim” da impunidade;
    – algo aconceteu no meio do caminho: o Pré-Sal, o Obama dizendo ao Lula “Você é o Cara” etc.

    Prender os petralhas é maravilhoso, mas, por que o petróleo muda tanto a política brasileira? Explica, Vaz!

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