Ménage à trois

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A mulher ame­ri­cana come­çara a tomar a pílula havia qua­tro anos, fal­ta­vam outros qua­tro para que Maio de 68 pusesse De Gaulle com as cal­ças a arder. Em 1964, Truf­faut fil­mava Jules e Jim, his­tó­ria de um ménage à trois, gen­til e pudico como todos os ména­ges à trois.

Em 64, her­deiro mal lavado dos beat­nicks Gins­berg e Kerouac, o movi­mento hip­pie come­çava a sua pere­gri­na­ção pelos tor­ci­dos tri­lhos do amor livre, cul­ti­vando abun­dan­tes for­mas de pro­mis­cui­dade física, sexual e inte­lec­tual. Muita lama, muita cama ou fosse onde fosse e muita con­tra­cul­tura. Mas o filme de Truf­faut, como o pró­prio Truf­faut, está nos antí­po­das dessa vaga de sexu­a­li­dade exsu­dante, se me auto­ri­zam o trans­pi­rado qualificativo.

Truf­faut gos­tava muito de um autor velhi­nho, Henri-Pierre Roché, que escre­vera, aos 64 anos, os seus pri­mei­ros livros de sucesso. Um deles foi Jules e Jim. Tra­ba­lha­ram jun­tos na adap­ta­ção, mas acon­te­ceu a Henri-Pierre o que acon­tece a todos os velhi­nhos: mor­reu. E Truf­faut levou o romance para o que era a sua forma sub­til de ver o mundo: este­ti­za­ção, elipse, refi­na­das suges­tões, uma lírica edu­ca­ção sentimental.

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Dois ami­gos, um fran­cês e um ale­mão, ambos de fina cul­tura lite­rá­ria, livres de pre­con­cei­tos como só se pode sê-lo quando o mundo os tem bem arrei­ga­dos e fir­mes, par­ti­lham, na Belle Épo­que, o amor da Cathe­rine, que é Jeanne Moreau. Todas as mulhe­res são mais boni­tas do que Jeanne Moreau e, no entanto, nunca um rosto de mulher foi mais bonito do que o de Jeanne Moreau em Jules e Jim, nunca houve mulher com ges­tos tão gra­ci­o­sos e sus­pen­sos. Por causa dela pen­sa­mos que devia ser nor­mal haver ape­nas ména­ges à trois e, entre cigar­ros e cog­nacs, pas­sa­rem dois homens mui­tas noi­tes a dis­cu­tir a mulher que par­ti­lham, des­co­brindo que cada um ama uma dife­rente parte dela.

Era o que faría­mos se fôs­se­mos fran­ce­ses e ami­gos de Henri-Pierre Roché. No pré-histórico começo do século XX, ele defen­deu o que cha­mou “poli­ga­mia expe­ri­men­tal”. Estou a exa­ge­rar: tal­vez só a tenha pra­ti­cado. Pas­sava as ama­das ao seu melhor amigo e sus­ten­tou, ao mesmo tempo, qua­tro lares.

A tudo isso alude Jules e Jim. Mas, ou Truf­faut não fosse Truf­faut, nunca o subli­nha. Terá Truf­faut sido infiel ao velhi­nho autor que em vida amara? Se tudo cor­rer bem, para a semana provo que não.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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