Marina morena, faça o que te der na telha!

Ousei dizer que acho machista a letra de “Marina”, o grande clássico de Dorival Caymmi, e meio mundo caiu sobre minha cabeça.

Um monte de gente argumentou que, como “Marina” foi escrita em 1947, apenas e tão somente espelhava a verdade dos fatos daquela época. Quem não fosse machista em 1947, me disseram, não seria respeitado.

Sagaz, irônico, rápido no gatilho, Valdir Sanches me apavorou: “Foi contra a maré, provocou indignação, grande falatório – vais acabar contratado pela Folha como colunista.”

Minha amiga Maria Helena veio com um argumento desafiador:

“Você já ouviu um LP da Jeanne Moreau com canções como Les Mensonges, J’Ai La Mémoire Qui Flanche, Rien n’ arrive plus, e outras maravilhas?
Les Mensonges é uma ode ao amante que mente porque enquanto ele mente é porque gosta dela… Machista é pouco. Mas é uma verdade muito verdadeira. E na voz da Moreau, uma beleza.”

Não, não conheço essa canção, “Les Mensonges”. Tenho aqui várias canções cantadas por La Moreau, mas não tenho essa.

Mas a menção à Moreau, e a mensonges, me deu uma vontade danada de tentar me explicar.

Tento me explicar – e ao mesmo tempo sei que vou provocar ainda mais revolta.

Não sou um idiota que não é capaz de enxergar o contexto. Sei muito bem que a canção (sexista, machista, de macho dominador) de Caymmi, foi escrita em 1947. Poderia ter sido escrita na Grécia cinco séculos antes de Cristo – e ainda assim seria da mesma maneira machista, sexista, feladaputa.

Conheço umas mil e quinhentas canções dos anos 30 e 40 que não são idiotamente machistas como “Marina”. “Marina” é exceção.

E então, aproveitando que Maria Helena citou La Moreau, vou ao fulcro da questão.

Relação afetiva – seja de homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem, trans com extra trans, isso não importa – é coisa de iguais. De pares.

***

Maria Helena, você já ouviu “La Ligne Droite”, de e com Moustaki e Barbara?

Moustaki pergunta, com a maior doçura, se a amada, durante aqueles anos em que estiveram separados, teve “homens que tornaram sua vida um pouco menos monótona, que ajudaram você a suportar o inverno depois do outono e os silêncios obstinados do telefone”.

Entre parênteses, é bom notar que um sujeito que escreve o verso “silêncios obstinados do telefone” não está neste mundo à toa.

E então Barbara – que, sim, na vida real namorou Moustaki – responde, na continuação da canção: “Oh, moi, mon cher amour, bien sûr j’ai eu des hommes  qui m’ont rendu la vie un peu moins monotone, et m’aident à supporter l’hiver après l’automne. Et les silences obstinés du téléphone”.

Estão se reencontrando, os amantes da canção, após longos, longos anos. Era natural que durante todo este tempo um e outra tivessem tido outros namorados, amantes, parceiros.

Na canção de Moustaki e Barbara, homem e mulher são iguais. Um não domina o outro, não é dono do outro. Não deve obrigação ao outro – pode, se quiser, contar, relatar os fatos do passado, o que houve, o que rolou.

Para mim, relação afetiva é assim como Moustaki e Barbara contam e cantam em “La Ligne Droite”. Duas pessoas iguais, que se respeitam exatamente por serem iguais e terem exatamente os mesmos direitos (e deveres, se é que há deveres quando se trata de amar).

Nada de quem manda e quem obedece. Isso é coisa de exército, não de relação afetiva.

Nada de privilégio de um lado ou de outro. E, claro, ela, assim como ele, tem todo o direito a ter namorados, namoradas, enquanto não se reencontram novamente, até porque não se reencontra ao fim de uma linha reta, e sim depois de dar muitas voltas.

Admitir que o homem pode brigar, ficar de mal, porque a moça pintou a cara, para mim, é quase tão ofensivo quanto aceitar a imposição de que mulher tem que usar burca e jamais pode mostrar o rosto fora de casa.

Ah, há uma diferença imensa de grau? Há. Mas o princípio é o mesmo.

Se você aceita o princípio de que um tem o direito de dominar o outro, de dizer o que o outro pode ou não fazer, aí, baby, você começa a dançar.

Diferença de grau é importante. Mas a questão básica é o princípio.

***

Houve os argumentos de que, se tirar do contexto, se misturar coisa escrita nos 1940 com a realidade de hoje, aí tudo fica confuso, e Monteiro Lobato e Lamartine Babo poderiam ser chamados de trogloditas racistas empedernidos.

Não acho que seja um argumento respeitável. Não há racismo no Lobato, assim como não há racismo no Lamartine. Falar de negros, de crioulos, de neguinha era, sim, mais livre, mais espontâneo, mais à vontade, sem essas cobranças absurdas, calhordas do politicamente correto. Não significavam racismo.

A coisa do machismo é diferente. “Marina” é uma canção machista, assim como “Saudades da Amélia” é machista. Mas essas canções são exceções – não há tantas outras canções assim, dos anos 30 ou 40, machistas como “Marina”, em que o cara se considera dono da namorada. Nem aqui, nem que me lembre na Grande Música Americana nem no pouco que conheço da canção francesa dos 30 e 40.                Sou acostumado a ver tudo dentro de seu contexto. Ao falar de filmes no 50 Anos de Filmes – e falo muito de filmes dos anos 30 e 40 -, sempre fico atento ao contexto. “Marina” reflete mentalidade comum na sua época? Ah, reflete – é machista. Mas desafio qualquer pessoa a listar cinco outras canções machistas do período – excluindo Lupicínio, é claro, porque Lupicínio é o machismo em frasco concentrado.

Maio de 2015

6 Comentários para “Marina morena, faça o que te der na telha!”

  1. Em 1947 o machismo do qual o Servaz se refere era aceito até pelas Marinas da época. Éramos naquele ano, meros garotinhos querendo mamar e o cabelo não negava a cor.

    Hoje Marina canção e o machismo nela contido não emplacam uma audição ou clique nas redes sociais. A canção de Caymmi é como diria Moreira da Silva, ‘boi com abóbora’.

    A preocupação machista do pauteiro é injustificada e serve apenas como tema de colunista da FOLHA, como sagazmente sugere um atento leitor.

    Machismo mesmo é achar que ficar aborrecido e zangado é coisa de viado, ou pernosticamente e corretamente grafando, veado.

    Os tempos são outros, as mulheres é que fazem o contexto atual. Femininas ou não a música de hoje é cantada em verso e prosa por Calcanhoto, Betania, Gal, Cássia, Simone, Rita Lee, Martinália, Ana Carolina, Zizi, Marisa Monte, Angela Ro Ro, e que cantariam a canção do Dorival sem medo, já que são mais machos que muitos homens.

    O texto algo polemico reproduz ideias preconceituosas sobre machismo e viadagem e foi buscar inspiração na música idiota e babaca de 1947. Escrever saudosismos não acrescenta nada a vida da pequena Marina que certamente não se pintará.
    Estamos em 2014, vamos caminhar vovô, diria a inocente Marina.

  2. Da minha parte, como advogado de Caymmi, não nego que a música seja machista. Mas, até mesmo hoje em dia, as mulheres ciumentas se comportam de maneira não muito diferente com seus homens. Proibem um monte de coisa. Experimentem se demorar numa conversa inocente com outra mulher bonita com a sua por perto. Quando contrariadas, as mulheres possuem a habilidade de fazer os pobres homens se sentirem os últimos dos canalhas. Mesmo que para isso precisem usar a arma mortífera que é o choro. E nem existe um termo pejorativo para definir essa artimanha. Caymmi, na musica, é mais ciumento do que exatamente um macho troglodita. É inseguro, faz chantagem, fica de mal. Mas não passa disso, de pirraça. Somos todos latinos. Ou quase todos, menos o Servaz, que é nórdico. Talvez isso explique o sucesso duradouro de Marina, música indispensável nos bares frequentados por casais românticos e ciumentos. Amélia e Emília é que sofreram de verdade. Marina não. Marina torturava o seu amado deliberadamente. A música deixa claro que ela não dava a mínima bola para os apelos ciumentos da pobre vítima, que se aborrecia e se zangava inutilmente. Pensem na pobre Emília, que foi obrigada a fugir de Wilson Batista, para não passar o resto da vida lavando e cozinhando. Amélia passava fome, coitada. Marina, por sua vez, era a figura dominadora do casal. Valia-se da sua beleza para aumentar a insegurança e dominar o pobre e choroso Caymmi. Precursora do feminismo, continuava se pintando, pouco se importando se isso viesse a causar um infarto agudo no miocárdio do poeta. Como advogado de Caymmi, não posso deixar de registrar aqui o meu protesto contra o uso indiscriminado dessas armas de sedução por parte das mulheres. Todos sabem que Marina continuou se pintando impiedosamente. Todos sabem que o pobre Caymmi, depois de usar o último e tolo recurso de ficar de mal, teve que se humilhar para que ela o aceitasse de volta. Todos sabem que Marina seduziu até o Sérgio Vaz, induzindo mais um inocente a se transformar em seu cavaleiro andante.

  3. Acho que há também a questão do nome. Será que se ela chamasse Neide, a letra teria o mesmo vigor?

  4. Vai ver, nem a letra, nem a crítica do Sérgio Vaz teriam o mesmo vigor, Valdir. Sérgio Vaz não liga para Neides. Veja que ele abandonou Amélia e nem deu bola para Emília, muito mais sofridas. Quem mandou Caymmi botar o nome da neta do Sérgio Vaz numa canção machista? Agora, tome!

  5. Neides, Doras, Doralices, Rosas Morena, Teresas Batista, Gabrielas ou mesmo Franciscas Santos Das Flores.
    Das tantas o baiano resolveu inspirar seu machismo caboclo e indolente sob o nome de Marina.
    Vigor critico mais exigente que um tinhorão.

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