Mania de brigar com objetos

Pode ser idade, fadiga, irritação com o que estão fazendo com o País. Seja o que for, acho que não justifica minha mania: brigar com objetos.  De tal forma me acomete o mal que chego a achar que há uma conspiração dos inanimados contra mim.

Veja seu amigo lavando um copo. Uma vez enxaguado, procuro colocá-lo no escorredor de louça. No gesto, o copo colide ligeiramente com uma taça de espumante que já está secando. Mínimo toque. A taça dá um formidável salto no espaço, a graça de uma bailarina, O Lago dos Cisnes, e se espatifa no chão!

Pior fez um frasco de detergente histriônico.  Bastou colocá-lo no porta-acessórios, em cima da pia, o canalha se lançou para fora por impulso próprio, voou para além do granito e foi cair atrás do fogão. Bem atrás, quem tira de lá?

E já não falo do comprimido redondinho de aspirina, que retirei do frasco, coloquei sobre a mesa e ele… firmou-se em pé, rolou como a roda que escapa de um carro, e foi-se para o chão, onde certamente continuou rolando pois nunca mais vi o pulha.

É nesses momentos que faço meu pior papel. Xingo esses provocadores como se fossem desafetos de carne e osso. Seu isto, seu aquilo. Vai gozar a mãe!

Ferramentas. Acho que, quando pego a maleta, elas comemoram: “Ôba, o sem jeito vai tentar alguma. Vamos ter diversão”. Procuro a chave de fenda ideal para o trabalho. Quedê? Sumiu. Então aquela outra… Emprestei (e, claro, não foi devolvida).

Bem, então vou quebrar o galho com esta, a ponta um pouco gasta, mas…  Ora, é só tirar os quatro parafusos desta peça. Um, dois, três, beleza. O quarto não sai.

Tento virar a chave com um alicate, sabendo que não dá certo. E não dá mesmo. Esse parafuso filho daquela senhora sem predicados está me provocando, penso. Outros expedientes, maior irritação e me dou por vencido. O quarto parafuso se recusou a sair. É sina. Não sairia nem com a chave boa.

A impressão dos jornais, nem todos notam, é feita nos dois lados de uma folha dupla, depois dobrada. Resulta em quatro páginas impressas. No entanto… às vezes vem em uma única folha, frente e verso. No jargão gráfico era chamada “macarrão”. Fica solta, entre as páginas duplas.

Pego um caderno do jornal, abro, o “macarrão” escapa direto para o chão. Neste caso, praguejo educadamente contra ele, que afinal não tem culpa; a culpa é de quem resolveu economizar papel, ou se exceder nas informações. Mas que #§@&*X!

Outubro de 2015

13 Comentários para “Mania de brigar com objetos”

  1. Muito bom texto real, muito real. Estou até agora correndo atrás de um comprimido de metformina, o puto ficou invisível. O parafuso espanou e a cabeça arregaçou a fenda. Dei uma martelada no dedo, o martelo é um objeto naturalmente mau, serve para golpear pregos e dedos. O fogão é um objeto do qual devemos manter enorme distância. O abridor de latas para que serve mesmo?
    Grande sacada Valdir.

  2. Miltinho, belo texto. Você mostrou com fino humor, em seis linhas, tudo o que eu quis dizer.
    Não me preocupo com o abridor de lata. Não sou louco para me aproximar de uma coisa dessas!

  3. Valdir os objetos deviam vir acompanhados de espertos que saibam usa-los. Ferramentas, utensílios de cozinha, são temerosos, mas pior que tudo é o tal controle remoto. Aquilo é um verdadeiro martírio e só são convenientemente domados por menores de 16 anos, talvez por serem inimputáveis, ainda. Tudo hoje é controlado pelos malditos objetos, um para tv, outro para o som , outro pro dvd, outro para o ar condicionado com uma uma diversidade de teclas e setas e símbolos verdadeiramente embaralhantes. Tentaram juntar todos em um só, o tal controle universal, dai toda vez que tento ligar a tv ligo o liquidificador. Sinto-me uma anta.

  4. Miltinho, faz algum tempo comprei um pequeno equipamento de som, com duas caixas, tudo parecia bem… Mas veio um controle remoto de uns quinze centímetros, com tal variedade de funções, que desisti de usar.
    Até hoje não entendi como se liga o rádio e escolhe as estações. Para ouvir CDs, também tinha que fazer cursinho no manual de instruções.
    Torquei o troço pelo YouTube.

  5. Pior é quando você digita um comentário sobre a crônica do Valdir, dá enter e o texto some. Aí você digita tudo igualzinho de novo e recebe como resposta: “você já disse isso antes”. No dia seguinte,logicamente, o texto não está onde deveria. Fora minhas mancadas com objetos eletrônicos, como computadores, aparelhos de som e vídeo, sou até habilidoso em serviços manuais. Piloto bem todos os equipamentos de cozinha, máquina de lavar roupas, ferro elétrico e outros. Sei até pregar botões, fazer barra de calças e pequenos remendos. E, só para matar vocês de inveja, informo que me viro razoavelmente como eletricista, encanador e marceneiro. E ainda sou metido a consertador de ferros elétricos, liquidificadores, geladeiras, fogões,armários, ventiladores, portões de garagem, etc, desde que os defeitos sejam simples. Desenvolvi essas habilidades anos atrás, quando não tinha dinheiro para chamar os famigerados técnicos. Mas não posso deixar de ser solidário com o Valdir na questão dos comprimidos cadentes. Eles realmente não têm nenhum caráter. Principalmente aqueles miudinhos, cor de rosa. Quanto à causa das frequentes desavenças do autor com objetos inanimados, receio que a opinião que ele deixou as ferramentas emitirem no texto não está muito longe da verdade, não é Miltinho.

    PS.: Os controles remotos são facilmente impressionáveis, Valdir. Basta você gritar com eles: “eu sou mais inteligente do que voc

  6. Complementando: … mais inteligente do que você”. Em seguida teste pacientemente botão por botão, até descobrir todas as funções. Se ficar com raiva, não jogue o controle remoto com muita força no aparelho, pois ele pode ricochetear em você.

  7. É, mas ninguém é perfeito. Apesar de tanta habilidade, Luiz Carlos não pinta nada, nem parede, nem banquinho (pelo menos não citou). Da minha parte, faço alguns consertos, mas também não me meto com tinta. Tenho um histórico de derrubar a lata (e isso também é verdade).

  8. Admiro os famigerados técnicos e invejo os habilidosos de plantão. Quem não tem um nem outro corre atrás dos comprimidos.

  9. Realmente não pinto paredes e nem faço trabalhos de pedreiro. Minha frustração é não saber assentar azulejos nem tijolos. Mas, lavo e passo roupas, tiro manchas, envernizo móveis, portas e sei montar aquelas coisas que saem mais baratas se voce aceita receber desmontadas das lojas. Só não me candidato a marido de aluguel da minha própria mulher porque ela não acha a mínima graça nessas minhas habilidades. Me chama de pão-duro e diz que preferia utilizar esse tempo indo ao teatro. Sabe como é, psicólogas são meio esquisitas…

  10. Santo de casa não faz milagres, nem que pintasse ou assentasse tijolos. Só tem valor em outro divan.

  11. Se Luiz Carlos me permite, sugiro que ele cobre da psicóloga pelos serviços prestados, e reverta a verba em inesquecíveis noitadas de teatro e jantar em restaurante fino. No entanto, acharia justo que ela cobrasse do marido as sessões para tratar dessa fobia de manter as mãos ocupadas.

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