Jornalista dos tempos jurássicos cria novo aplicativo

Confesso que sou da época da máquina de escrever, do telex e da telefoto (leitor jovem, vá ao Google). Não considero aqueles tempos jurássicos, como o brilhante editor Carlinhos, num vacilo, titulou matéria que fiz no Diário do Comércio; eram tempos heróicos.

Tão difícil passar matérias para o jornal, que aquela novidade maravilhosa surgida no fim dos anos 1980 foi recebida com aleluias. Estou falando do fax.

Quando surgiu o admirável mundo novo da informática, a vida de repórteres e fotógrafos em viagem recebeu grande alívio. Estes últimos ainda demoravam 20 minutos para transmitir por telefone as quatro cores básicas de uma foto, mas não precisavam mais levar o malão com o laboratório, e revelar e copiar a foto em preto e banco no banheiro do hotel.

Nós, do texto, íamos com um laptop que parecia uma lancheira, e funcionava com disquete. Para passar a matéria, tínhamos que ligá-lo à caixa de entrada do telefone, no quarto do hotel. Com frequência, a caixa ficava atrás da cabeceira da cama, esta por sua vez fixada na parede.

Então desencapávamos um pedaço do fio do telefone, e colocávamos um grampo, com os cabos do laptop. Depois, disfarçávamos o lugar com fita isolante.

Na redação, um pouco antes, aposentavam-se as máquinas de escrever. Você não precisava mais rasgar lauda de papel e recomeçar de novo, quando o texto não ia bem. No glorioso Jornal da Tarde, ainda víamos editorialistas em seu aquário (leitor jovem, vá à nota de pé de página), batendo no teclado das Olivettis, com o abajur aceso para melhorar a iluminação.

Da minha parte, aderi a todas as novidades trazidas pela informática. Recentemente, minha gerente de banco me elogiou para minha filha porque estou entre os poucos velhos que usam o sistema para serviços como pagar conta. Ainda com algum espanto, vou ao banco pelo celular!

Este vosso amigo não tinha a menor intenção de escrever tudo o que está acima. Desejava fazer apenas um preâmbulo, para falar de situações críticas. Como aconteceu neste fim de semana, quando os filhos se reuniram em casa para fazer o capeletti do jantar.

Feita a massa, os bonitos, fotografáveis chapeuzinhos são postos a secar. As mulheres sentam-se na sala, onde o mais velho da casa espera. E o que fazem todas elas? Pegam o celular. Na família, ninguém produz um pão com manteiga sem fotografar e “jogar no Face”. É disso que cuidavam; depois se lançaram à troca de outras mensagens.

E continuei tão só como estivera. Então vi a revista de fim de semana sobre a mesa de centro. Sem nenhum constrangimento, peguei e comecei a ler. E descobri o antivírus. Não vou mais a lugar nenhum sem levar uma revista, um jornal. Ou palavras cruzadas. Aos interessados, podem imitar que eu não cobro direitos autorais.

Julho de 2015

Nota: Como você, leitor jovem, nem mesmo no Google encontraria facilmente a explicação, ai vai: aquário, em redação de jornal ou revista, é saleta envidraçada.

5 Comentários

  1. MILTINHO
    Postado em 27/07/2015 às 11:35 am | Permalink

    Marina dialoga, os tempos são outros, no novo aplicativo, o ewspelho ao celular só vewmos o passasdo.
    Tanto aqui como alem mar o passasdo ficou para trás.
    O que nos empurra para a morte é a mudança, a mudança que já não pre­cisa de nós. O pas­sado, todo esse mundo mara­vi­lhoso em que vive­mos e apren­de­mos, dei­xou de inte­res­sar aos mun­dos que vie­ram a seguir a nós.

  2. MILTINHO
    Postado em 27/07/2015 às 11:48 am | Permalink

    A casa cai, diria Adoniram mas levanta-se novamente em outro lugar. .
    “Cada tábua que cai doi no coração.
    Lá de cima alguem falou. Os homens tao com a razao, nos arranja outro lugar”.

  3. Euclides Farias
    Postado em 05/08/2015 às 2:03 pm | Permalink

    Prezado Valdir,

    Em 1989, passei curto tempo como freelancer na redação do lendário JT e tive a sorte de conviver com a escola de jornalismo da qual você é um dos maiores representantes. Vinte e seis anos e muitas redações depois, ainda tenho vivo na memória o relato de suas incursões jornalísticas amazônicas, com pauta a cumprir nos mistérios da selva, como naquele formigueiro humano que foi o garimpo de Serra Pelada. Aulas de bom jornalismo nos corredores e lanchonete do JT. Obrigado.

    Euclides Farias
    Freelancer do JT em 1989
    Hoje editor do Diário do Pará

  4. LUIZ CARLOS TOLEDO
    Postado em 06/08/2015 às 9:51 pm | Permalink

    Aproveite e conheça também incursão do Valdir Sanches na literatura, Euclides Farias. Os seis capítulos da novela Quando os Repórteres Usavam Revólveres, publicados aqui no 50 Anos, são realmente imperdíveis.

  5. Euclides Farias
    Postado em 10/08/2015 às 8:45 pm | Permalink

    Obrigado pela sugestão, Toledo. Seguirei tão bom conselho literário. Um abraço!

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