A primeira história para Marina

P1150694Hoje, pela primeira vez, Marina me pediu para ler história para ela.

Li oito histórias e meia.

É necessário explicar: faz tempos que Marina me mostra livros, folheia livros comigo. Nem sei quando isso começou, mas é meio desde sempre. Traz os livrinhos para mim, mostra para mim, passa as páginas, às vezes me dá para que eu passe as páginas para ela. Faz isso comigo desde sempre – assim como faz com a mãe, o pai, a Cláudia, a avó, todo mundo.

Eu leio o que está escrito na página, ou faço um comentário sobre o que está na ilustração. Claro. Mas Marina ainda não tinha me pedido para pegar um livrinho e ler para ela, contar para ela a história, do princípio ao fim.

Até hoje, ela parecia ter um pouco de pressa em passar as páginas. Às vezes demorava mais numa página, observava, falava o nome do animal ou do objeto da ilustração. Mas não havia ainda a coisa de ouvir uma história.

Hoje, com um ano, dez meses e nove dias, me pediu para ler história para ela.

Estava no cadeirão, jantando. Antes que o pai a colocasse no cadeirão, ela havia arrumado seis livrinhos no chão da cozinha, um juntinho do outro, como se fosse um trenzinho. Comentei com o Carlos como ela é organizada – e ela é organizada, mesmo. Talvez seja um pouco de petulância, mas acho que nisso ela puxou o avô materno.

Aí, sentada no cadeirão, já começando a jantar, apontou para os livrinhos que estavam no chão, organizadinhos, e pediu: “Vovô, Cachinhos Dourados”.

P1150719É uma deliciosa coleção de nove livrinhos, pequeninos, quadradinhos, uns 6 cm x 6 cm, talvez 7 cm x 7 cm, que o Gil, amigo do pai, emprestou para Marina quando o filho dele ficou mais velho. Cada livrinho tem umas 12 páginas, creio – as impares são ocupadas por ilustrações, as pares pelo texto. As páginas são bem grossas. duras, parecem de madeira compensada.

Como são quadradinhos, e são nove, formam um grande quadrado de três livros em três fileiras, e cabem numa caixa cuja capa é de plástico transparente.. É um treco bem legal – embora o texto em si seja um horror, feito por gente que não entende de como escrever para criança pequena.

As histórias são das mais conhecidas de todas – tudo muito resumido, é claro: Os Três Porquinhos, João e o Pé de Feijão, Cachinhos Dourados, Pinóquio, Alice no País das Maravilhas, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, Peter Pan, O Patinho Feio.

Peguei Cachinhos Dourados, botei o livrinho bem perto dela, do outro lado da mesa, com a página impar, a do desenho, voltada para ela, de forma que eu pudesse ver o texto da página par meio voltada para mim.

Li o texto, alterando um pouquinho aqui e ali, introduzindo um ou outro caco, uma ou outra informação, do tipo: “quem é uma outra menina que tem cachinhos dourados?” (Ela não levou tempo algum para responder: “Marina”.)

O texto não terminava assim, mas eu concluí a história dizendo que Cachinhos Dourados viveu feliz para sempre.

Marina comia e me olhava com aqueles olhões imensos e lindos que herdou da mãe, que herdou da mãe.

Perguntei se ela queria mais uma. Ela olhou pro chão, para onde estavam os livrinhos, e pediu mais uma.

Estava contando a última, a nona – João e o Pé de Feijão – quando a mãe dela chegou do trabalho. (As oito que contei, terminei dizendo “e viveram felizes para sempre”. Adoro essa frase, assim como adoro o “era uma vez”. Era uma vez pessoas que viveram felizes para sempre e, ah, eu, se fosse Deus perdoava todo mundo. Adoro as fábulas e a fala da Grushenka.)

Ver a mãe dela chegar do trabalho e abrir um sorriso imenso de felicidade absoluta por rever finalmente a filha depois de tantas longas horas de ausência é um dos maiores prazeres que tenho tido na vida.

A mãe dela me contou, depois, em mensagem, que, no banho, ela fez papá para o vovô: arroz, feijão marrom, carninha e verdinho!

Já estava absolutamente exausta quando saí de lá, pouco depois das 19h30. Perguntei pra mãe se ela deu trabalho pra dormir. Respondeu que ela demorou um pouco: não queria parar de conversar.

Marina é como os Vaz, como os Ganzelevich, e também como os Zaidans (de quem ela não tem um pingo de sangue): adora conversar.

2015-01 - Marina dia 26 - final 716 - corte

26 de janeiro de 2015

As duas fotos do post são de hoje, o dia em que Marina pela primeira vez me pediu para ler história para ela. Esta foto aqui, da série “Todo mundo”, foi feita depois do jantar, depois das histórias, depois que a mãe chegou. É uma foto que tem outra história: no “todo mundo” estão dois novos amigos dela, o Alce e o robôzinho R2-D2, ambos vindos diretamente de Minnesota, a terra gelada de Bob Dylan e da Sarah Johnson. Perguntei a ela quem tinha dado o Alce, e ela respondeu: a SaraDaniNina. Mostrei pra ela que o Alce de Minnesota e o avô de Minas Gerais têm, em comum, uma barbicha. Ela adorou. Falou pra mãe: “Barbicha!”

 

4 Comentários para “A primeira história para Marina”

  1. Valdir, caríssimo, acho que esse perigo é um tanto distante. Há tantas coisas à frente de Marina: poderá ir para o Direito, como a mãe, para as Artes, como o pai. Tem dedos muito longos – daria uma excelente violoncelista, ou pianista. Tem memória de elefante, raciocínio rápido: poderá ir para a Física como o primo Arnaldo, a Matemática como a prima Valéria. É observadora: poderá ir para a área perigosa (porque muito estressante) do mercado de capitais. É coletivista, gosta de tudo e de todos: poderá querer se aventurar na procura de um caminho diferente do capitalismo e das tentativas frustradas de se chegar a um socialismo. Parece gostar de texto, e poderá, é claro, quem sabe, falar em jornalismo – e aí levará tanto pescotapa no escutador de samba e folk que desistirá rapidinho…

  2. Só desejo que ela curta muito os primeiros anos de vida. Com muitas brincadeiras, muita risada, muita alegria, muitos amiguinhos, muitas beijocas da mamãe, do papai, da vovó e do vovô. E que continue gostando de ouvir histórias.
    Há muito tempo para o resto…

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