A perna é melhor que o braço

Um segundo de hones­ti­dade pode ser a per­di­ção de qual­quer homem. Foi com este prin­cí­pio filo­só­fico e ético que Pres­ton Stur­ges escre­veu e rea­li­zou The Great McGinty.

zzzzmanuel1Pres­ton Stur­ges tinha uma das men­tes mais per­ver­sas e sub­ver­si­vas que a clás­sica Hollywood viu nos dou­ra­dos anos 40 e 50. Ou seja, era um tipo inte­li­gen­tís­simo. Por causa de The Great McGinty, arre­ba­tou o pri­meiro Oscar dado ao Melhor Argu­mento Ori­gi­nal para um filme. McGinty, o herói, é mais ou menos um des­gra­çado ou, se quiserem, um des­fa­vo­re­cido soci­al­mente. Por 2 dóla­res, vende o seu voto a um polí­tico cor­rupto. Mas fá-lo tão bem que, numa só elei­ção, acaba a vendê-lo em 37 mesas de voto. Impres­si­o­nado, o polí­tico faz o que o mais medío­cre caça-talentos faria: contrata-o.
O polí­tico e o lúm­pen cons­troem uma glo­ri­osa car­reira a gol­pes de cor­rup­ção e obras públi­cas. Só que o des­gra­çado casa-se. E tem filhos. Agora espantem-se: a mulher vê nele uma pes­soa de bem. Por um infe­liz segundo, McGint, o crá­pula em quem se podia con­fiar, acre­dita e decide mesmo ser­vir o Povo. Só pode aca­bar mal? A des­graça nas mãos de Pres­ton Stur­ges transforma-se numa comé­dia que não sei se qua­li­fi­que de brilhante ou venenosa.

Tudo isto por­que Stur­ges, como qual­quer espí­rito livre e ino­cente, era um cínico. Apli­cava aos seus fil­mes o que achava ser uma lista infa­lí­vel de 11 regras para enga­nar, sedu­zir e tirar deli­ci­oso par­tido do público. Os dez man­da­men­tos judaico-cristãos que se cui­dem. Ora leiam:

“Uma mulher bonita é melhor que uma feia.
Uma perna é melhor que um braço.
Um quarto é melhor que uma sala.
Uma che­gada é melhor que uma par­tida.
Um nas­ci­mento é melhor que uma morte.
Uma per­se­gui­ção é melhor que muito paleio.
Um cão é melhor que uma pai­sa­gem.
Um gati­nho é melhor que um cão.
Um bebé é melhor que um gati­nho.
Um beijo é melhor que um bebé.
Mas não há nada melhor que cair alguém de cu.”

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Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

The Great McGinty no Brasil é O Homem Que Se Vendeu.

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