Volume morto

Em benefício do fígado e do bolso, a lei seca baixou aqui em casa nas segundas e terças. No resto da semana, tomamos os drinques regimentais, em um happy hour tardio.

Não é difícil que, finalizando a cerimônia, aí pela meia-noite, elas, a chef titular e a honorária (mulher e cunhada), coloquem na mesa uma amável vaca atolada (o dr Grasiadei, nosso médico, ficaria de cabelos em pé, se soubesse). Para quem não conhece, o prato é costela de boi cozida com mandioca.

(Seu Cardoso, um contraparente da Haydèe, homem forte ainda na velhice, dizia que o estômago não sabe as horas.)

Nesta terça, estávamos contentes e comemoráveis por alguns acontecimentos. O próprio eu (como dizia um amigo do meu pai) propus uma trégua na secura. Abrimos o bar. As bebidas esperavam por nós, serenas em suas garrafas. Mas pouco (só renovamos na quarta). Parecia ideal para uma bebericada.

A gente seguiu a noite, de olho nas garrafas. Bebendo devagarzinho. Até que acabou. O que fazer? Como chefe da casa, decretei: vamos ao volume morto.

Este se constituía de uma garrafa de cachaça mineira (de Salinas, coisa fina) que eu havia comprado para ver se acostumava. Saborosa, mas forte, afinal é uma cachaça. Desisti. Havia vermute seco, mas não gim para um dry martini. E meia garrafa de vinho chileno branco.

Sair para comprar… Não. Sabe o quê? Sejamos conscientes. Um homem e duas mulheres, ou um rato e duas ratas? Acabou, acabou. Jantamos, pegamos nossos copos d’água e fomos para a cama. Água, havia. Bem ou mal, usamos o volume morto.

Outubro de 2014

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