Um remédio para aproximar o eleitor do eleito

Surrado por seus integrantes, infestado por ratos, desrespeitado, açoitado pelo Executivo que dia sim outro também o põe de joelhos, o Parlamento agoniza. E, ao que parece, dificilmente sairá da UTI com as eleições que se aproximam. Segundo o Datafolha, nada menos de 72% dos brasileiros não têm candidatos para deputado federal e 69% para estadual. 

Em números absolutos, mais de 100 milhões dos 142,8 milhões de brasileiros aptos a votar não sabem quem escolherão para representá-los nas casas legislativas.

Os dados são alarmantes, sintomas de uma democracia doente. Que necessita mais do que os curativos emergenciais que lhe são aplicados em sucessivas minirreformas eleitorais, incapazes de curá-la.

E não venham culpar o eleitor.

Esses, com razão, estão entre o descaso e o desinteresse por uma política com a qual não têm qualquer conexão. Ou entre a desilusão e a indignação diante de escândalos, que, de tantos, nem mesmo cabem na memória.

A crise da representação não é novidade. Não são poucos os que a conhecem a fundo. Não são poucos os que preferem perpetuá-la e, dessa forma, manter-se no poder. Motivo pelo qual a propalada reforma política não sai do papel. E, mesmo quando ameaça sair, o que se vê são rabiscos só decifráveis por alguns, a serviço dos mesmos poderosos. A proposta do PT de votação em lista fechada que o diga.

Enquanto isso, o eleitor é bombardeado por milhares de números, sem chance de conhecer quem são os que lhe pedem votos.

A tarefa é insana. Em São Paulo, ele tem de escolher entre 1.485 candidatos a deputado federal e 2.127 a estadual. No Rio, entre 1.080 federais e 2.037 estaduais; em Minas, um pouco menos: 698 a federal, 1.199 a estadual.

Com tal quantidade, impossível qualidade.

O remédio – o voto distrital, puro ou misto – é conhecido e amplamente aplicado nas democracias mais avançadas do mundo, como o Reino Unido, os Estados Unidos, a Alemanha e a França.

Ainda que sujeito a críticas, até porque não existe sistema eleitoral perfeito, o modelo aproxima o eleitor do eleito. Permite acompanhar, fiscalizar e cobrar seu representante. De quebra, põe fim às lutas fratricidas entre candidatos do mesmo partido que disputam o mesmo eleitor.

No conforto da disputa majoritária, os candidatos a presidente pouco se dedicam ao tema. Pedem votos para deputados de suas siglas; aparecem em santinhos ao lado deles. Até falam de reformas, mas não aprofundam o debate.

Com isso, o país perde o melhor momento de buscar cura para as chagas que contaminam a política. Sem as casas do povo a democracia não respira, não vive.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 23/9/2014.

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 28/09/2014 às 9:55 am | Permalink

    Enfim a reforma política se faz necessária. A indiferença da população em eleger seus representantes demonstra que ao contrário do que se pensa, a participação é uma prioridade. O número de brancos, nulos e indecisos para presidente indica que o povo se mostra participativo falta-lhe no entanto, representantes.
    A reforma política é imperiosa, sua maior exigência está no anseio de participar, seja no legislativo, no judiciário, no executivo ou nas RUAS.
    Por uma reforma política através de constituintes independentes e eleitos para este objetivo, quase dez milhões de pessoas atenderam a um plabiscito, que imprensa e candidatos se fizeram de surdos.

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