Um calor selvagem nas bochechas

zzmanoel

Não gosto do amor fun­da­men­ta­lista ao cinema, não gosto do amor de xius e sibi­la­dos shhhs no escuro da sala, não gosto do espec­ta­dor erecto por ter um garfo espe­tado já se sabe onde, não gosto do espec­ta­dor com olhar devoto a babar meta­fí­sica a cada rac­cord, a cada trou­vaille de mise-en-scène.

E já me está a fugir o chi­nelo para o fran­cês por estar a pen­sar na inglesa Colo O’Hagan que, entre mui­tas coi­sas, como andar casada com Ber­trand Taver­nier e assi­nar alguns belís­si­mos argu­men­tos para ele e para Claude Cha­brol, via os fil­mes com uma pai­xão desa­çai­mada, trans­for­mando a sala de cinema e arre­do­res em tea­tro de guerra.

John Ford, que não dava con­fi­ança a nin­guém que não fosse da sua pequena tribo, disse à frente dela, num jan­tar, em Paris, que ela só podia ser irlan­desa. Era a maneira que tinha de lhe dar um beijo na boca, sem cha­tear Ber­trand, que estava sen­tado em frente. Um dia, pro­jec­ta­ram um filme de guerra de Samuel Ful­ler, o Steel Hel­met, filme comando, impi­e­doso. À saída, naquele tempo em que a saída de um filme era tão impor­tante como a entrada, um crí­tico, Henri Cha­pier, tirou do pru­dente bolso meia dúzia de dúvi­das. Tal­vez tenha vindo com o pre­con­ceito de época, impu­tando lai­vos fas­ci­zan­tes ao sofrido, lace­rado e pie­tista preto-e-branco com que Ful­ler retra­tava a guerra da Coreia. Colo sabia, de saber vis­ce­ral, que aquilo era paleio falso e aco­mo­da­tí­cio. Agar­rou num guarda-chuva (tal­vez já o tivesse na mão, sei lá bem) e desan­cou o crí­tico, jor­na­lista, nas­cido em Buca­reste, filho de mãe austríaca.

Além da pai­xão por Ford, Colo tinha outra des­co­man­dada pai­xão ciné­fila por Elia Kazan. Agora, ima­gi­nem que estão a ver com ela o sublime Wild River. E se sen­tem ondas de calor a vir de um corpo agi­tado, é mesmo ao pé dela que estão sen­ta­dos. O corpo dela está ali, metido numa cadeira, e é como o rio insub­misso desse filme telú­rico. Foi em Paris. Atrás de Colo esta­riam uns espec­ta­do­res mais moder­nos, a quem as for­mas de sofrer de Wild River pouco diriam. E há uma cena de amor. Um dos ame­nos cava­lhei­ros terá come­çado a rir-se e fez um comen­tá­rio de que a His­tó­ria pres­cin­diu. Mas ainda hoje ele con­serva na cara a esta­lada que Colo, virando-se para trás, lhe enfiou, pondo-lhe numa das boche­chas um calor sel­va­gem que tal­vez nunca antes tivesse sen­tido. Há coi­sas que o cinema nos dá e nem a pior das vidas nos tira.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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