O método Geisel de parar de fumar

Estou usando o método Geisel de parar de fumar sem dor.

Já tenho experiência nisso. Parei durante alguns anos, graças aos chicletes de nicotina. Nunca usei o adesivo. Sou ansioso e não dá para mastigar adesivos.

Voltei a fumar por escassez de vergonha na cara. Foi numa viagem à Europa, onde parece que todo mundo fuma sem culpa. E o frio pede cigarros.

Tenho um truque para o uso do chiclete, que não consta da bula: não adianta tentar substituir um cigarro de 6 ou 8 miligramas de nicotina por chicletes de 2 ou 4 mg. Qualquer um vai sentir muita falta do cigarro. O segredo é tentar o método Geisel: redução lenta, gradual e segura.

Primeiro eu passo algum tempo fumando um cigarro mais suave, de 4 miligramas. Depois mudo para o de apenas 1 mg, que nem parecer ser cigarro. Aí é preciso cuidado, para não tentar compensar, aumentando a quantidade de unidades. Após um ou dois meses fumando um tal de Free One, o organismo se acostuma. Parece até que você está fumando um cigarro normal.

Em seguida, começo a reduzir as unidades de cigarro, até me conformar com 4 ou 5 por dia. Tanto a redução de miligramas quanto a de unidades tem que ser feita sem pressa, a não ser que você seja muito corajoso ou masoquista. Essa fase pode durar dois ou três meses. Pouco tempo para quem passou a vida inteira fumando.

Então é hora de parar totalmente e passar a mascar o chiclete 4 miligramas. Milagroso. Com o organismo acostumado a ingerir 1 miligrama por cigarro, 4mg não deixam você sentir absolutamente nenhuma crise de abstinência. Pena que na bula eles não recomendem que se faça primeiro a redução do teor e da quantidade de cigarros. Por isso, muitos fumantes fracassam na tentativa. O que explicam bem é uma técnica de mascar e parar, que imita mais ou menos as tragadas. Logicamente não chega a dar prazer, mas o desconforto também é zero.

A nicotina do chiclete dura meia hora. A recomendação da bula é que você jogue fora quando acaba a nicotina e só use outro quando sentir vontade de fumar. Mas, como sou ansioso, continuo mascando o mesmo chiclete por uma ou duas horas, mesmo sem mais nenhuma nicotina nele. Quando sinto vontade de fumar novamente, troco por um novo.

Nos dois ou três primeiros dias, o consumo de chicletes tem que ser alto, para evitar qualquer tentação. Depois, vai caindo. À vezes a mastigação distrai tanto que esqueço por horas de trocá-lo.

A mastigação pode causar algum desconforto na mandíbula. Algumas pessoas podem ter afta. O lado bom é que ficar mascando o mesmo chiclete por horas ajuda também a economizar, porque cada caixinha com 30 unidades custa uns R$ 50 nesta careira Brasília. Por aí deve ser uns 35, preço que paguei em Maceió. Ainda não perguntei o preço das outras marcas.

A bula recomenda que você fique mais de 6 meses mascando, até ir reduzindo a quantidade e parar.

Nos primeiros dias, substituo o café por suco de laranja. Tenho sorte de não gostar tanto de cerveja, que é fatal. Cuidado com qualquer bebida logo no início, pois ela tira a auto-censura.

O ato de mascar quase o dia inteiro, além de reduzir a minha ansiedade, compensa aquelas necessidades não orgânicas do vício, como o gesto automático de acender o cigarro, ficar com ele nas mãos, tragar, etc. Mastigando, você pelo menos sente que está fazendo alguma coisa. Por isso, imagino que o chiclete é melhor do que o adesivo. Aqueles que descrevem o cigarro como uma boa companhia não estranharão muito ao traí-lo com o chiclete.

Na hora do jogo do Botafogo, que está quase rebaixado, chego a mascar uns 4 chicletes, furiosamente. Em dias mais calmos, porém, estou consumindo uns 5 por dia.

O próximo passo é mudar para o chiclete de 2 miligramas, sempre tendo algumas unidades de 4mg por perto, para casos de emergência.

Depois de uns 4 meses já dá para começar a reduzir bastante as unidades diárias. No final, chego a ficar o dia inteiro mascando um só, sem perceber que já não há mais nicotina. Contudo, mesmo depois de abandonar totalmente o “vício” do chiclete, é bom ficar sempre com alguns no bolso, porque, depois de algumas cervejas, vinho ou feijoada, nunca se sabe.

Durante o uso do remédio, além da possível afta ou dor na mandíbula, outro efeito colateral é que nem deixando de fumar você pára de sofrer discriminação. As pessoas na rua, tão politicamente corretas hoje em dia, já não fazem mais cara feia para você, um saudável não fumante. Porém, não conseguem olhar de forma inteiramente normal para o coroa que tenta parecer mais jovem com essa mania besta de mascar chicletes. Outra certeza é que sua mulher vai pedir inúmeras vezes para você não ficar mastigando feito um idiota na frente das amigas dela.

O mais provável é que o ex-fumante sinta alguma saudade do cigarro, um dia ou outro. Mas é apenas nostalgia. Nada que cause a chamada fissura, ou que não possa ser controlado sem qualquer dificuldade. Se voltar a fumar, vai ser em busca de prazer, nunca por necessidade.

Nota: Essa maravilhosa crônica não foi escrita para ser uma crônica: foi apenas uma mensagem de Luiz Carlos Toledo Pereira em resposta a uma pergunta que eu tinha feito a ele:

“Você está mesmo parando de fumar? Pergunto porque eu também estou tentando. Estou usando adesivos – não tentei o chiclete. Você usou adesivo? Achei bom.”

É uma beleza de texto que não poderia ficar só para mim. (Sérgio Vaz)

5 Comentários para “O método Geisel de parar de fumar”

  1. Miltinho, eu amo uma fumante, isso é trágico.
    Luiz Carlos, me parece que, se você voltar a fumar por prazer estará voltando a fumar, mais ou menos como mergulhar no rio depois de se salvar do afogamento.

  2. Valdir e Miltinho, como dizem as moças do telemarketing, eu não vou mais estar fumando. Hoje mesmo passei pelo perigoso teste da feijoada com cerveja e nem me lembrei que existia cigarro. Em vez de fumar, como antes, desta vez encerrei os trabalhos com pudim, torta de maçã, doce de abóbora, creme de cupuaçu e Coca-Cola Zero.

  3. Sou ex-fumante chato como a maioria dos membros desta minha espécie. Minha intervenção aqui talvez ajude a quem quer ou precise de mais um empurrãozinho para parar de fumar. Aproveitei-me de uma amigdalite para tentar largar o vício com menos dificuldade, já que nessas ocasiões o fumante sente uma inapetência natural.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *