O menino, o benzedor e a galinha preta

Nasci em Nova Europa, região central do Estado de São Paulo, mas ainda recém-nascido fui levado por minha mãe para a Mombuca, uma seção da Fazenda Guatapará, um enorme latifúndio de 17 mil hectares espalhados pelo município de Ribeirão Preto, onde passei parte da minha infância convivendo com as sequelas da pólio.

O lugar onde minha família morava era composto de duas colônias dispostas em sequência. As casas da primeira fila tinham paredes de tábuas e ficavam nas proximidades da represa que se formara devido à construção da ponte da ferrovia particular da fazenda. Na segunda as moradias eram geminadas, erguidas em alvenaria, cobertas com telhas de argila e piso de terra batida, sem qualquer revestimento.

Embora as memórias sejam vagas, me lembro com clareza da nossa casa. A sala era enorme e no inverno, quando a temperatura baixava muito, característica própria do clima da região, meu pai montava um braseiro bem no centro do cômodo. Era o primeiro evento social do dia e enquanto nos aquecíamos, aproveitávamos para estourar pipoca e assar milho verde ou batata doce.

Numa das casas de madeira morava o baiano Propécio dos Anjos, pessoa importante da comunidade. Essa sua importância tinha um motivo: não havia médico nem enfermeiro e ele, respeitado curandeiro, socorria os enfermos com benzeduras e remédios caseiros, próprios da medicina popular.

Trago na mente a lembrança de ter sido justamente com ele que vivi o primeiro episódio significativo gravado na minha memória ainda infante. Foi assim: de duas a três vezes por semana meu pai trazia do mato vários toletes de palmito de macaúba, entre três e cinco palmos de comprimento – medidos por mãos adultas. Depois que minha mãe tirava as camadas mais duras da casca, lisas e inaproveitáveis, eu me punha sentado na soleira da porta da sala e me ocupava em rasgá-las com os dentes. Numa dessas vezes apliquei tamanha força que desloquei o pescoço, a tal ponto que o mau jeito, de tão forte, impedia a cabeça de realizar o movimento de retorno. Inesperadamente, vi-me numa condição inusitada. Em segundos passei da normalidade a um estado crítico, patético e curioso, que me obrigava a ficar olhando obrigatoriamente para o lado, alcançando metade do meu costado.

Ciente de que só uma pessoa poderia restaurar plenamente minha condição física, minha mãe me levou à casa de Propécio. Quando chegamos, em princípio me recusei veementemente a permitir que ele me tocasse. Então, respeitando minha decisão de não deixá-lo colocar as mãos no local afetado, pôs me sentado de frente para a porta escancarada e sumiu em direção ao quintal. Quando voltou, trazendo numa das mãos um galho de arruda, instrumento que usaria na benzedura, eu já estava curado.

Fora tudo obra do acaso. Como o ambiente havia sido tomado por um profundo e prolongado silêncio, acabei relegando o problema ao esquecimento. Em razão disso, fui acometido por um rasgo de curiosidade quando uma galinha preta cruzou mansamente o terreiro, à frente da porta. Eu já a observava de soslaio desde quando surgira ao alcance do meu olhar. Ao perceber que ia em direção oposta, virei automaticamente a cabeça para captar melhor a atração e então, ao retornar à posição normal, senti o fim ao torcicolo. Só ouvi mesmo um diminuto estalo, que se resumiu a um pequeno impacto sem nenhuma dor.

Ao ver-me livre do incômodo, o benzedor abriu um sorriso debochado, o que me deixou chateado, mas feliz pelo conserto involuntário do meu pescoço. Talvez dando conta de que, daquela vez, a natureza deu uma lição prática no famoso e misterioso curandeiro. Tudo graças a uma galinha preta e à minha curiosidade…

O autor é jornalista em Roraima.

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