Nervos à flor da pele

O mundo anda nervoso e o Brasil também. Sente-se no ar que algo não vai bem. Ou que há um desmoronamento social e individual que tende a crescer e, quando isso ocorrer, não se imagina quando pode parar ou ser contido.

São vários pequenos e médios fatos que inundam os noticiários todos os dias. Faíscas de incompreensão e violência nos rodeiam. As pequenas ondas se acumulam e eu temo que elas se juntem e formem um movimento incontrolável.

Vivendo sob um governo que exalta as qualidades da intervenção em tudo que nos diz respeito, vemos que ele não é capaz de perceber o perigo que corremos e nem demonstra talento e competência para lidar com o nosso cotidiano nem com o médio e o longo prazos.

Diante da série de assaltos e crimes praticados no Aterro, no Rio, jovens de classe média do bairro do Flamengo se investem na função de justiceiros e prendem com corrente de bicicleta um bandido no poste. Erram na ação mas escancaram a desproteção do cidadão diante da inércia das autoridades.

Motoristas e trocadores denunciam que sofrem, diariamente, uma média de quatro agressões físicas ou verbais da população a que servem.

A polícia, que deveria ser a nossa guarda, tortura e mata um suspeito de traficar drogas e o caso, Amarildo, ganha a ruas e bocas do fino Rio de Janeiro e artistas se movem, protestam, fazem vaquinhas para colaborar com a família da vítima. Há um lado performático, mas tudo estaria muito bom se o mesmo empenho fosse demonstrado com a soldada Alda, assassinada por  traficantes. Nenhuma palavra, nenhuma canção, reclama a mãe da moça morta.

Os direitos humanos são gerais, sua busca deve servir a todos, seja qual for a classe social, a ideologia ou a nacionalidade dos que sofrem. O mal cometido nos Estados Unidos ou no Brasil deve ser condenado da mesma forma que o que é praticado na Rússia ou em Cuba. Democracia não pode ser um conceito oco e variável a ser utilizado de acordo com a vontade mental de cada um. Se o black bloc é que jogou o artefato que atingiu o repórter da rede televisão, não adianta mascarar a verdade e dizer que o que houve foi abuso da polícia. A OAB, tão notável nos tempos da ditadura, tem manifestado opiniões muito partidárias ultimamente. Está fugindo de assumir um papel fundamental próprio das associações profissionais isentas.

Excesso policial deve ser repelido. Também a violência gratuita de jovens bandidos que escondem os rostos para não serem identificados e saem pelas ruas assustando o povo e botando fogo em propriedades particulares e públicas, agredindo a integridade de todos nós.

A sociedade brasileira tem de se mover e exigir que os poderes do Estado ajam, para que as marolinhas não virem um maremoto.

 Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em fevereiro de 2014. 

3 Comentários

  1. miltinho
    Postado em 20/02/2014 às 1:18 am | Permalink

    A solução é ter uma casa em condomînio, na lua, longe da terra. Em breve os poderosos estarão longe, em estações espaciais e lunares, longe da violência e do povo. Por enquanto moram em condomínios cheios de seguranças, locomovem-se de helicópteros,possuem heliportos, manipulam o mercado, os govêrnos, as tvs, os jornais, em resumo o planeta. Vivem bem e alheios a barbárie, acham que todos os outros devem ser policiados e devem viver com as migalhas e rações que democraticamente nos destinam.São poucos, muito poucos, mas falam em nosso nome, fazem as regras. Estamos nos matando. Nossa morte gera lucro e negócio. A sociedade capitalista mostra toda noite na tv, tragédia, mortes, rolêzinhos, black bloc, tráfico, polícia, milícias, genoinos e azeredos condenados para satisfação de uma sociedade patrimonialista e cada vez mais desigual.

  2. JOSE GUSMAO
    Postado em 21/02/2014 às 10:15 pm | Permalink

    É BRANT, A VACA JÁ FOI PRO BREJO…

  3. Willyam
    Postado em 08/07/2016 às 5:03 pm | Permalink

    O Mestre Brant não explicou que os motoristas e cobradores de ônibus servem, não à população, mas a seu contratante. E este, o empresário, serve, não à população, mas a si próprio.

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