Mas, senhor D, I’m so restless

Hoje me deu vontade de ouvir “I’m so restless”. Não uma vontadezinha: uma baita vontade, dessas irremediáveis.

Minha mãe dizia que vontade é coisa que dá e passa. A rigor, a rigor, é bem verdade.

Mas, vendo de outra maneira, a melhor forma de enfrentar uma tentação é ceder a ela, como parece que Oscar Wilde dizia.

E então fui atrás de “I’m so restless”. Mas onde achar a música?

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“I’m so restless” abre o disco de Roger McGuinn cujo título é apenas o nome do cantor e compositor, lançado em 1973 – o primeiro disco solo de um dos líderes, ou o líder, dos Byrds, a extraordinária banda formada em 1965 por ele, David Crosby e Gene Clark.

Parafraseando Caetano, que gravou no seu disco de 1967 a frase “Os Mutantes são demais”, os Byrds são demais.

zzmcguinnDiz deles o douto site AllMusic (vai sem aspas para que eu possa me desobrigar a ser absolutamente literal):

Embora eles tenham atingido o imenso sucesso dos Beatles, Rolling Stones e Beach Boys por um período curto na metade dos anos 60, o tempo julgou os Byrds quase tão influente quanto aqueles grupos, a longo prazo. Eles não foram os únicos responsáveis por inventar o folk-rock, mas eles certamente foram mais responsáveis do que qualquer outro grupo ou artista (Dylan inclusive) por moldar as inovações e a energia da Invasão Britânica com os melhores elementos das letras e das melodias da música folk contemporânea. O som da guitarra de 12 cordas do líder Roger McGuinn foi permanentemente absorvido pelo vocabulário do rock. Eles também tiveram um papel vital em pioneiramente misturar o rock psicodélico e o country-rock, sendo os elementos unificadores suas harmonias angelicais e o incansável ecletismo.

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Uau! Como são bons, esses caras do AllMusic!

“Restless ecleticism”.

Me lembro que, nas liner notes de um dos primeiros LPs dos Byrds (liner notes: a anotação, o texto da contracapa dos discos, no tempo em que os discos tinham textos na contracapa), o autor usava a palavra “eclético” – e, brincando com a ignorância dos jovens americanos, dizia algo do tipo: “não confunda com elétrico; vá checar no dicionário”.

Ecléticos. Os Byrds eram ecléticos.

Antigamente, quando não havia internet, eu era um furioso comprador de enciclopédias sobre música. (Bem, na verdade, continuo sendo adorador de enciclopédias, mesmo nesta era Google.) Os americanos faziam divisões rígidas de seus gêneros musicais, e então havia enciclopédias sobre música folk, música country e rock. É fascinante ver que os Byrds estão em todas elas – tanto na inglesa The Illustrated Encyclopedia of Rock quanto nas americanas The Illustrated Encyclopedia of Country Music e na The Folk Music Encyclopaedia.

“Restless ecleticism.” Restless, segundo os dicionários, é inquieto, irrequieto.

Acho que fiquei conhecendo a palavra por causa da canção “Restless farewell”, que Dylan gravou no seu terceiro disco, The Times They Are A-Changin’, de 1964, e Joan Baez regravaria em 1968, em seu disco duplo Any Day Now, só com canções do próprio.

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“I’m so restless”, então, como eu dizia, era primeira faixa do lado A do primeiro disco solo de Roger McGuinn.

A melodia é dele. A letra, como a de várias das 11 canções do álbum, é de Jacques Levy.

zzbyrds1Jacques Levy assinaria junto com Dylan diversas das letras de Desire, o disco de Dylan de 1975, dois anos após, portanto, o primeiro disco solo de McGuinn. O que é um fato interessantíssimo, porque na imensa maior parte de sua obra extraordinária, gigantesca, Dylan trabalha sozinho. Pouquíssimos vezes assina canções em co-autoria. O cara tem, sei lá, vou chutar, umas 800 músicas – só umas dez são em co-autoria. E sete delas são com Jacques Levy, o sujeito que escreveu a letra de “I’m so restless”.

E é fantástico que o próprio Dylan toca a gaita, a harmônica, na faixa de abertura do primeiro disco solo de Roger McGuinn.

Dylan não é de ser coadjuvante em disco dos outros. Só faz participação especial quando está muito a fim, quando a causa é boa, quando simpatiza muito pelo artista.

Em 1993, o monstro fez uma participação especial numa gravação da simpaticíssima garota Nanci Griffith da velhíssima, de 1963, “Boots of Spanish Leather”.

Que eu me lembre, são só essas duas participações especiais dele, depois de famoso, como instrumentista – no disco de Nanci Griffith, e no primeiro solo de Roger McGuinn.

***

A rigor, Dylan devia muito a McGuinn.

Dylan seria imenso, gigantesco, de qualquer jeito. Mas, do jeito como as coisas de fato aconteceram, Dylan deve muito a Joan Baez, que já era rainha quando ele era apenas um garotinho chegando à cena, o apresentou às audiências do folk, deu a ele sua chancela – mais ou menos como Nara Leão deu sua chancela a Chico Buarque, Sidney Miller, e, mais tarde, a Raimundo Fagner.

Dylan deve muito a Joan Baez, a Peter, Paul and Mary, que o projetou para as listas dos mais vendidos, e para os Byrds, que sacaram com timing perfeito que a junção de folk e rock daria certo.

Consta que, em 1969, Dennis Hopper e Peter Fonda tentaram obter o aval de Dylan para incluir na trilha sonora de Sem Destino/Easy Rider sua gravação de “It’s all right, Ma (I’m only bleeding)” – e Dylan teria rejeitado, argumentando que seria negativo demais, pessimista demais.

Não dá para saber quanto dessa história é verdade verdadeira. Mas que é factível, lá isso é. Em 1969, Dylan estava fazendo um esforço sobre-humano (ele, que provavelmente nem humano é, E.T. enviado para nos ensinar lições) para se afastar do seu passado, para renegar os epítetos que haviam criado para ele, de o símbolo, o porta-voz da geração.

Ouve-se parte da longuíssima “It’s all right, Ma (I’m only bleeding)” lá pelo final de Easy Rider – na voz de Roger McQuinn. Que compôs também para o encerramento do filme a canção, tristérrima, “Ballad of Easy Rider”.

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Vixe… Eu só queria dizer que hoje tive uma vontade doida de ouvir “I’m so restless”.

Baixou a vontade. E aí fui procurar.

Fui em B de Byrds, nos CDs. Nada. Fui em R de Roger McGuinn. Nada.

Cacete: não passei para CD o primeiro LP de Roger McGuinn?

Pois é: não passei.

zzbyrds2

Fui aos LPs, e então encontrei: está lá o LP Roger McGuinn. Com a minha letra, está escrito que é produção 1973, e que foi comprado em 4/1974. O LP tem o selo do Museu do Disco, a maravilhosa loja da Dom José de Barros em que comprei tantos discos fundamentais.

Legal – mas o toca-discos está na sala, e eu queria ouvir “’I’m so restless” aqui no escritório.

Gravar de LP para CD e transferir para o PC dá trabalho demais. Vou fazer isso, em breve, mas eu queria ouvir naquela hora, e no escritório.

Aí recorri ao YouTube.

Está lá, direitinho.

Ouvi uma, duas, três, quatro vezes.

***

A velha questão dos suportes físicos… Volto e meia volto a ela.

E então o que eu faço com o LP? Jogo fora, por ser agora inútil, já que tudo está na nuvem, ou no YouTube?

Ahá… Na nuvem não está escrito que quem toca a harmônica na primeira faixa do primeiro disco solo de Roger McGuinn é Bob Dylan.

No LP, está lá.

Não vou jogar os suportes físicos fora. E, pelo jeito, Mary também não fazer isso, nem mesmo after I’m gone.

***

Ah, ainda sobre suportes físicos, embora não tenha nada a ver com Roger McGuinn: Marina parece gostar de suportes físicos. Ela tem lá, junto dos CDs e DVDs que pai e mãe mantiveram, depois de uma limpa de centenas deles antes da mudança para o novo apartamento, uns cinco DVDs dela, uns três CDs e uma coleção de cinco livrinhos. Volta e meia ela pára no lugar onde estão os suportes físicos que pertencem a ela e brinca com eles. Ainda hoje fez isso. Sentou-se e ficou brincando com seus suportes físicos, aplicadamente, seriamente, ajuizadamente, durante uns bons dez minutos.

O pai é moderno: se desfez de uns 800 CDs e pelo menos uma centena de DVDs. Ele tem a nuvem.

Já Marina parece gostar de um suporte físico que nem o avô.

(A bem da verdade, é preciso dizer que o pai de Marina não tem nada contra suportes físicos. Desfez-se de discos, sim, por questão de espaço, mas manteve uma invejável coleção. E tem apego aos livros: “meus livros todos estão aí para provar que nem tudo funciona na nuvem”, ele me lembrou.)

***

Ah, sim, mas o que mesmo quer dizer a letra de “I’m so restless”?

Vixe… Nunca soube. O disco, pelo menos a edição brasileira que comprei no Museu do Disco da Dom José de Barros, não trazia encarte com as letras. E naquele tempo não havia Google, então o único jeito era tentar ouvir direito e tirar as letras à mão, na unha. Tentei tirar várias letras de Dylan assim, à mão, na unha. Sempre sobravam lacunas.

Mas nunca, na verdade, tinha me detido para tentar pegar a letra de “I’m so restless”.

Agora é fácil, é só googlar. Googlei – e a verdade dos fatos é que continuo não sabendo exatamente sobre o que Roger McGuinn está falando, com as palavras de Jacques Levy. Mas que é gostosérrrimo de ouvir, lá isso é.

 

I’m so restless

(Roger McGuinn-J. Levy)

 

Hey, Mr. D do you want me to be

 A farmer, a cowhand, an old country boy

 To get up in the a.m. and tend to the chore

 And leave all my troubles behind a locked door

 Layin’ with my lady and strummin’ on my toy

 Oh I know what you mean and it sounds good to me

 But, oh, Mr. D. I’m so restless

 

 Hey, Mr. L. so you want me to yell

 To howl at the moon when I’m losin’ my grip

 Without no possesions and findin’ myself

 The picture of mental and physical health

 But I’m still payin’ dues for that Indian trip

 And I know what you mean and it sure rings a bell

 But oh, Mr. L. I’m so restless

 

 Hey, Mr. J. you want me to stray

 To be a bad boy a mean boy and ready to kill

 Wrigglin’ and slinkin’ in snakeskin and black

 Holdin’ my thumb on some chick in the sack

 And never say no if it gives me a thrill

 Well I know what you mean and I’d go all the way

 But oh, Mr. J., I’m so restless.

 

5 de maio de 2014

Acréscimo em março de 2015: Aprendo, no livro O Guia do Bob Dylan, que ganhei de presente de Mary agora, que Mr. D é ele, Dylan. Mr. J. é Jagger, Mick Jagger. E Mr. L. é Lennon, John Lennon. Na música de abertura de seu primeiro disco solo, Roger McGuinn se dirige apenas e tão somente a Dylan, Jagger e Lennon. Diz Nigel Williamson, autor do Guia do Bob Dylan: “Mesmo com a incrível falta de gratidão do Sr. M., o Sr. D. foi generoso o suficiente para tocar gaita na canção.” 

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 07/05/2014 às 9:27 am | Permalink

    A inquietação leva a Dylan, tudo leva a Dylan.
    Musiquinha chata!

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