Marina fala

P1140678Da agenda do vô:

Impressionante: ela está no momento exato de querer falar tudo!

Acabo de perder as fotos das duas últimas netadas. Fiz alguma merda na tentativa de copiar da máquina para o computador. Talvez tenha até sido bom isso, porque neste momento, tenho que tentar me concentrar em filmar Marina, e não em fotografá-la. Acho que a memória da filmadora ficou cheia de novo; tenho que transferir os filmes para meu computador, liberar a memória, e filmar Marina, porque it’s now or never! Canta aí, Elvis! It’s now or never! Se não gravar agora, nunca mais, nunca mais vamos ouvir a vozinha de Marina começando a falar tudo.

A palavra “tudo”, por exemplo.

Ela aprendeu já tem, sei lá, talvez um mês. Mas a pronúncia dela da palavra “tudo” é tudo o que existe de lindo, de charmoso, de fofo. O “tu” não é estourado como os paulistanos usam, em especial os descendentes de italianos. É quase um tchu. Tchudo. O “do’ é suavemente mineiro – nem sei de onde essa paulistaníssima filha de dois paulistanos aprendeu a falar o “do” de forma suavemente mineira. Ela não fala o ó aberto; é quase como se fosse um u, como em Minas. Tchudu.

Com um ano, sete meses e meio, Marina Vaz Bucci está tentando falar todos os fonemas que a humanidade levou milhões de anos para criar. Por exemplo, o fonema bastante complexo que a última flor do Lácio, inculta e bela, grafa com nh, o Espanhol grafa com o til em cima do n, ñ, e o Francês grafa com a junção do g ao n, como em gagner, par exemple.

Hoje, ela pegou os lápis de cor e explicitou que iria enhar. E ficou lá, desenhando, quer dizer, aplicando passagens dos lápis de cera sobre a imensa revista da Galinha Pintadinha feita exatamente para isso, para as crianças colorirem.

Tenta dizer os nomes das cores. Pegou o lápis preto e disse “pêto” – e por muito pouco o avô não teve naquele exato momento um ataque apoplético de admiração e êxtase. Pegou um lápis marrom, olhou para o vô, à espera da palavra; eu disse marrom, e ela disse alguma coisa terminando em om.

Nas duas, três últimas semanas, começa a fazer frases, a juntar palavras a caminho das frases. Diz suas primeiras uniões de uma palavra com a outra com muita firmeza: “Vovô aqui!”, apontando para o lugar exato onde eu devo ficar. Na quinta-feira, pegou um copinho de brinquedo, levou para a Cláudia e disse, firme, peremptória: “Au (ela ainda não fala Clau; diz apenas Au), abuá aqui!” Queria beber água ali, e pronto, a Cláudia que se virasse, e depressa.

A Elizeth identificou em alguma parte da nuca de Marina um sintoma de que ela será uma mulher mandona.

Ando um pouquinho (um pouquinho só, na verdade) temoroso de estarmos, nós todos, criando uma ditadora, um ser mandão, uma espécie de… Ah, não, não vou botar o nome da presidenta aqui, pra estragar este texto..

Mas isso aí é brincadeira pura. Marina jamais será um ser mandão, uma pessoa com a doença grave da soberba. Não está no sangue.

Quando a mãe dela era pequetita, teve gente me dizendo que eu estava sendo por demais permissivo com ela, fazendo todas as vontades dela. Besteira. Sempre procurei, procuramos, Suely e eu, estabelecer limites – e eu diria hoje, com carradas de razão, que conseguimos, que fizemos tudo certo – e tivemos muita sorte. Na verdade, ao longo dos anos, enquanto a mãe de Marina se provava essa pessoa sábia, inteligente, resolvida, justa, tranquila, perfeita, Suely e eu não cansávamos de brincar: onde foi que nós erramos?

E a mãe e o pai de Marina são desses que estabelecem limites. Desde sempre, são firmes, mostram para Marina os limites. Maravilha.

Estabelecer limites é uma prova de amor. Marina é amada demais, mas nunca há erro em amar demais.

Só há erro em registrar de menos. Por exemplo: não me lembro quando a mãe de Marina começou a falar o fonema que está em enhar, de desenhar – e acho isso um absurdo. Como é possível eu não me lembrar disso?

Lembro de muitas histórias, como a do dia em que chegamos, de ônibus, a Curitiba, e era inverno, e eram 6 da manhã. E a mãe de Marina olhou para o mundo e disse assim: “É fria essa Curitiba, paiê”. Lembro delas em boa parte porque anotei, registrei. Mais tarde os registros todos viraram um simpático livrinho, “Notas sobre Minha Filha – Olhando Fernanda crescer”.

A gente deveria registrar sempre. “Hoje, Marina falou ‘a Má enhar’”. “Hoje a Marina cantou ‘balha’ junto com o Palavra Cantada na música ‘Criança não trabalha’”. “Hoje vi e ouvi pela primeira Marina dizer seu nome inteiro, Ma-ri-na, só com uma pequena dificuldade ainda no r, mas já emitindo o som do r.”

Registrar tudo, sempre.

Os romanos diziam “verba volant, scripta manent”. Na flor do Lácio dos tempos do rap a tradução é “Se não anota, dança, esquece”.

Fico bravo comigo por não ter anotado cada detalhezinho do crescimento de Fernanda como tenho feito agora com Marina.

Mas, ó raios, ó diacho, não é pra ficar bravo: é só que avô é uma coisa, pai é outra.

Posso reparar em detalhes de minha neta, e escrever sobre eles – mas não tinha tempo para isso quando minha filha era pequetita. Isso é assim mesmo, é a natureza das coisas. E até que registrei muita coisa, taí meu livro pra provar.

Se há alguma coisa que eu possa passar de positivo para o mundo (além de minha filha e minha neta) são essas duas noções. A primeira: anote, anote, anote. A segunda: ame, ame, ame seus filhos, seus netos, sua mulher, o vizinho, o mundo inteiro – mas, sobretudo, ame seus filhos e seus netos.

3/11/2014

2 Comentários para “Marina fala”

  1. As crianças,
    ¨
    “Cravo e canela,
    Dançavam com as flores,
    Como não tinham fome
    Caçavam estrelas
    Quando cansadas
    Tornavam-se nelas!”

    Lindinha, Marina neles!

  2. Que lindinha! (e com cara de brava).
    É, acho que o melhor mesmo é começar a gravar, porque anotar tudo a essa altura vai dar muito trabalho. Acho que essa coisa de querer mandar é dessa fase, pois ela está se aproximando dos 2 anos, que os americanos chamam de terrible two.

    Tão bom saber que uma criança é educada com limites, isso é raro hoje em dia. E ser avô é bem diferente mesmo de ser pai (digo isso pelos meus pais que também são avós); geralmente tem-se mais tempo, as pessoas estão mais flexíveis, atentas a cada detalhe e babonas.
    Realmente, amarmos uns aos outros é uma boa noção, e isso inclui amar os filhos (e quem ama educa, já disse o autor do best-seller).

    PS: adoro o trabalho do Palavra Cantada, já presenteei meus priminhos com cd deles.

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