Historinhas de redação (17): o grande Cláudio Abramo

Uma historinha de redação que não é divertida, mas quero contar para lembrar a figura do Cláudio Abramo. Foi um grande diretor de redação, na Folha e no Estado, na época dos jornais em preto-e-branco. Impunha respeito, sem perder a cordialidade. E era justo.

Bem, um repórter com pouco tempo de redação na Folha (o autor destas mal traçadas) tinha um certo medo de Cláudio. Medo, não; um respeito reverencial. Certa noite, chega da rua e escreve sua matéria, sobre uma menina que sofrera grave acidente, e estava no hospital, entre a vida e a morte. O caso comovia a cidade.

Nome? Gislane, algo assim. O repórter redige o texto. Tem um título na cabeça. Vai até as mesas da diagramação, e dá uma olhada na página. Título de uma linha. Volta para a Olivetti, e escreve: “Gislane, um fio de esperança”.

Mostra para o diagramador. Esse parecia pessoa que está de mal com a vida, trabalhava de má vontade. Olhou o título e devolveu a lauda: “Não cabe”. O repórter, timidamente: “Mas será que…”. “Já disse, não cabe.”

Nisso ouve-se uma voz. Era Cláudio, querendo saber o que estava havendo. Muito sem graça, pela pretensão de ter feito um título, o que não lhe competia, o repórter explica. Cláudio pede a lauda. Lê, e sem olhar a página: “Cabe”.

E coube.

Fevereiro de 2014 

6 Comentários para “Historinhas de redação (17): o grande Cláudio Abramo”

  1. Tive imensas sortes no jornalismo – uma delas foi ter a honra de trabalhar durante várias décadas com uma pessoa digna, especial e brilhante como Valdir Sanches.
    Infelizmente, não tive oportunidade de trabalhar com Cláudio Abramo.
    Invejo os que tiveram essa sorte.
    Sérgio

  2. “Talvez num futuro próximo se venha a reconhecer que o jornalismo não é profissão que se exerça em nome próprio, e sim por representação da sociedade, a quem pertence a informação.

    Talvez nesse futuro a sociedade exija eleger, ela mesma, os seus representantes (jornalistas), em eleição direta, por voto secreto.

    Pena que nesse dia Cláudio Abramo não esteja vivo. A sociedade teria com certeza um bom candidato, provado em décadas de fidelidade ao social.”

  3. Valdir, também tive a honra de trabalhar com o Claudio Abramo. V. disse bem: ele “impunha respeito sem perder a cordialidade”. Certo dia (eu era então repórter do Caderno Especial que circulava nas edições dominicais da Folha) e, perto do mesão em que ele ficava, ouvi este seu comentário sobre a entrevista que eu fizera com o Roberto Carlos, que ele acabara de ler e que mereceria chamada de capa: “Esse rapaz não tem ideia de que fez uma bela matéria”. Imagina como eu fiquei.

  4. Fui realmente muito feliz. Trabalhei com Cláudio Abramo e com Sérgio Vaz, o que é a mesma coisa.

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