Historinhas de redação (16): Sobre o relento

Sandro Vaia, então editor de Reportagem Geral do Jornal da Tarde, resolveu demitir o repórter X. Foi no início dos anos 80, não me lembro do ano exato.

Preservo o nome do colega porque não faria sentido expô-lo. A história é boa demais, e merece ser contada – mas seria absurdo dar o nome do personagem.

Talvez não fosse abusivo dizer que era filho de um nome fundamental da intelectualidade brasileira.

Mas no JT não correspondeu às expectativas. Não se demonstrou bom repórter.

Cometia muitos erros de Português, mas esse não era o problema. Naquele tempo, repórter podia perfeitamente cometer erros de Português. Podia até mesmo não saber estruturar um texto. Havia excelentes copydesks para reescrever o que o repórter ruim de texto, mas bom de apuração, botasse nas laudas.

A questão é que ele não se demonstrou bom repórter. E então o Sandro decidiu demiti-lo. Não deve ter sido fácil – demitir nunca é bom. Mas às vezes é necessário, e então o Sandro demitiu X.

Um dos copydesks da Geral do JT naquela época era Pedro França. Já havia, como os demais, reescrito muito texto ruim do X.

Pedro França era um lord inglês. Ou, como dizia Telmo Martino, era o único jornalista rico, fino e chique da imprensa brasileira.

Não era de falar muito durante o fechamento.

Mas, no dia da demissão do repórter X, cometeu uma frase absolutamente malvada, absolutamente sarcástica, pérfida, mortal, demolidora.

Como quem comentava um fato absolutamente desimportante, disse:

– “Tadinho do X. Vai dormir sobre o relento.”

Fevereiro de 2014

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2 Comentários

  1. Rejane Lima
    Postado em 21/02/2014 às 2:01 pm | Permalink

    Saudades do Pedro França. Eu reclamava muito por ter que editar horóscopo para o SMS da AE, por ter de transformar previsões metafóricas em algo que fizesse sentido com 140 caracteres. Um dia, domingo da plantão, Pedro volta do almoço com um catálogo de horóscopos que comprara para mim na banca, para que eu me inspirasse. Um lord mesmo com os focas.

  2. MILTINHO
    Postado em 24/02/2014 às 5:30 pm | Permalink

    Quantas redações, quantas historinhas encerram? Muita história se fez nas redações.

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