Conta outra, vó – O sapatinho

Nota: Há dois aspectos curiosos neste conto de minha avó. O primeiro é sobre suas variantes mais antigas; conheço duas, uma derivada da outra. A história do homem que faz uma aposta sobre a virtude de sua mulher aparece primeiro no Decameron de Boccaccio (1313-1375), na nona novela da segunda jornada. E serve de modelo para um dos episódios de uma tragédia romanceada de Shakespeare (1564/1616), Cimbelino.

Nos dois casos o sedutor entra no quarto da mulher dentro de uma arca. No conto de minha avó, o sinal da mulher, que serve como prova de que o sedutor descobrira a sua nudez, é escandalosamente exagerado, beirando o surrealismo.

 O segundo aspecto é o estratagema usado pela mulher, para desmascarar o sedutor. É de muita imaginação. Nunca encontrei nada semelhante em outros livros.

***

(Bagunça)

Se não ficarem quietos, eu não conto nada.

(Bagunça)

Era uma vez uma vaca amarela. Cagou na panela, três mexeram, três lamberam. Quem falar primeiro, come a bosta dela.

(Silêncio)

***

Era uma vez uma linda mulher, cheia de virtude. Era bela e rica, pois seu marido era um mercador bem sucedido. Viviam bem, tinham tudo o que precisavam e gostavam um do outro.

A mulher era invejada por todas as outras por ser tão rica e bem casada. O homem era invejado por todos os outros por ser rico e feliz e ter uma mulher tão virtuosa.

O homem sempre fez muito alarde da virtude da mulher. Sucedeu que numa grande festa, depois de muitos e muitos copos de vinho, começaram os homens a falar de suas mulheres. O marido da mulher virtuosa, quase bêbado, gritou bem alto:

– Pois todos sabem que nenhuma mulher se compara com a minha porque ela é a única de quem ninguém pode falar nada.

Então um jovem novo na cidade falou:

– Pois uma mulher virtuosa só é virtuosa até o dia em que deixa de ser.

Todos riram e o marido, desfeiteado, falou:

– Pois a minha será até a morte. Daria a minha vida para provar isto que falo.

O outro gritou:

– Elas não merecem metade da vida de um homem.

– A minha merece.

– A vida?

– A vida.

– Pois podíamos fazer uma aposta!

Nessa altura estavam todos calados, ouvindo com atenção. O marido falou:

– Aceito seu desafio. Levaremos quatro testemunhas à biblioteca e redigiremos um contrato.

Cada um deles escolheu dois amigos para servir de testemunhas. Entraram na biblioteca e o marido falou:

– Quem vai desvendar os segredos de minha mulher?

– Eu mesmo.

– Pois então, preste atenção. Ela tem um sinal. Ninguém, a não ser eu, conhece este sinal. Daqui a um mês, nos reuniremos diante do rei. Se o senhor tiver descoberto qual é o sinal da minha mulher, quer dizer que viu sua nudez. Então, eu serei enforcado. Se, ao contrário, não descobrir nesse prazo, você morrerá na forca.

– Combinado. Que o contrato seja redigido. Exijo, porém, que o senhor viaje durante esse período, para que eu tenha condições de agir.

Escreveram um contrato, assinaram. Assinaram também as quatro testemunhas. Foram os seis ao palácio e entregaram o contrato ao rei e o marido pediu sigilo. O rei era seu amigo porque ele era uma pessoa muito importante no país. Depois disso, que não tinha demorado muito, voltaram e continuaram na festa até de madrugada. O jovem perguntou a alguém quem era a dona de casa tão encantadora. Indicaram a mulher e ele ficou feliz com a aposta que fizera, porque ela era a mais bela de todas. Foi para casa e começou a pensar nos planos que ia pôr em prática para conquistá-la.

Quanto ao marido, tinha tanta segurança de ganhar a aposta, que não se preocupou. Avisou à mulher que um imprevisto tinha surgido e ia viajar no dia seguinte e ia voltar só daí a um mês.

Ela se encheu de tristeza e disse que desejava sucesso.

No dia seguinte o marido partiu com alguns criados. Na hora da despedida, pediu à mulher que se cuidasse com especial cuidado. Que não recebesse nenhum estranho em casa. Que se conservasse dentro de casa como se estivesse de luto. Ela respondeu que ia se cuidar com o mesmo cuidado das vezes anteriores, que não ia receber nenhum estranho em casa e ia se conservar dentro do quarto até o dia em que ele voltasse, como se estivesse de luto.

Ele partiu e ela entrou no quarto para chorar.

Nesse mesmo dia o moço começou com os ataques. Rodeou a casa, conversou com os criados, passou por vendedor, por tudo, e a mulher não quis recebê-lo. Quis dar dinheiro a uma velha criada e ela disse que, se ele repetisse aquilo, ia contar tudo à ama e iam ao rei. Ele usou todos os artifícios mas a mulher jamais abriu sequer a cortina de seu quarto, que ficava no alto. Tentou pular o muro e quase foi morto pelos cães. Tentou outras coisas mais e não conseguiu.

Já tinham passado um, dois, três, cinco, dez, quinze dias e nada. Aí ele começou a ficar aflito. Distribuíu criados pela cidade, para que pudessem descobrir em segredo um jeito de entrar no quarto da mulher virtuosa. Todas as tardes eles voltavam com muitas idéias, dizendo de gente que poderia fazer alguma coisa mediante um bom pagamento, mas, tudo que ele tentou, deu errado. Faltavam só cinco dias e a mulher continuava trancada. Os criados dela disseram aos criados do moço que era sempre assim, ela nunca recebia ninguém quando o marido viajava, ficava trancada, comia pouco e só uma velha entrava lá.

O moço viu que não ia conseguir nada e começou a preparar a fuga do país. Na penúltima tarde, um dos criados trouxe uma velhinha que disse que podia dar um jeito pra ele, mediante um dinheirinho de presente. Ela explicou a ele o seu plano e ele achou que daria certo.

Nessa noite, essa velhinha bateu à casa da mulher virtuosa. O criado abriu.

– O senhor poderia pedir ao patrão uma pousada para mim? Viajei todo o dia e meus pés estão adendo de tanto andar.

O criado chamou a velha que era uma espécie de governanta. A governanta disse à velha que ela ia dormir no alojamento dos criados. Ela disse assim:

– Está bem, eu agradeço, mas pergunte à sua senhora se ela não quer que eu leia a sorte dela. Prevejo coisas que vão acontecer e adivinho desgraças e felicidades.

– Ela não conversa com ninguém.

– Diga que eu entrei nesta casa porque adivinhei para este lugar um grande acontecimento.

A velha criada achou aquilo muito estranho e foi contar à mulher virtuosa. Esta ficou bastante curiosa e mandou chamar a velhinha.

A velhinha entrou no quarto da virtuosa e leu a mão da dona, dizendo que daí a alguns dias aconteceria um grande acontecimento que abalaria aquela casa. Tudo para depois da volta do marido. Não podia dizer mais nada.

Ela pediu então que a velhinha saísse e a velhinha disse que gostaria de dormir ali, que tinha medo de dormir com os criados, que talvez até sonhasse com o acontecimento que abalaria aquela casa. Tanto fez e tanto fez que a mulher resolveu deixá-la. Na verdade, a mulher estava excitada, entre curiosidade e temor. Pediu um colchão, a velhinha deitou-se e fechou os olhos, fingindo que dormia.

A mulher virtuosa então sacudiu a velhinha. Vendo que ela dormia, pediu que enchessem a tina para o banho. Trouxeram a água e saíram. A mulher tirou a roupa e a velhinha, fingindo que dormia, descobriu o seu sinal. A mulher tinha, na altura do umbigo, uns cabelos muito compridos. Ela fazia uma trança e enrolava a trança na cintura.

Desmanchou a trança, lavou-se, enxugou-se, penteou novamente a trança comprida e enrolou na cintura. Vestiu a camisa de dormir e se deitou, soprando a vela.

No dia seguinte, acordou a velhinha e perguntou se ela tinha sonhado alguma coisa. A velhinha disse que tinha sonhado com um homem enforcado, saindo apressada e deixando a mulher cheia de espanto.

Então a velhinha contou ao moço o que vira, ganhou um dinheirinho e desapareceu.

O marido voltou e a mulher se alegrou muito. Perguntou se ela tinha saido do quarto e ela disse que não tinha saído e nem recebido ninguém. Então ele pediu uma audiência com o rei. Mandou o criado avisar às testemunhas e ao moço da aposta. Diante do rei, perguntou ao moço qual era o sinal de sua mulher.

– Ela tem, na altura do umbigo, uns cabelos muito compridos. Ela faz uma trança e enrola a trança na cintura. Na hora do banho, ela desmancha a trança, lava-se, enxuga-se, penteia a trança comprida e enrola na cintura.

O rei perguntou se era verdade e o marido, cheio de paixão, disse que sim. O rei, penalizado, mandou que prendessem o marido e marcou para a manhã seguinte o enforcamento. Que o rei tinha lido o contrato e prometido cumprir e palavra de rei não volta atrás.

Quando disseram à mulher o que tinha acontecido, ela se trancou no quarto para chorar. Desconfiou logo da velha que lera a mão e pensou numa maneira de salvar o marido.

De repente, ela teve uma idéia. Pegou todas as jóias que tinha, enrolou num lenço e correu a um ourives. Falou para o ourives:

O senhor vai tirar esse anel como pagamento do que eu vou pedir. Com o resto das jóias o senhor me fará, para amanhã de manhã, um sapatinho de cetim, cravejado de pedrarias.

O homem perguntou:

– Um só pé?

Ela respondeu:

– Sim. Um só pé.

O ourives achou que era muito pouco tempo, mas resolveu aceitar a encomenda porque o anel oferecido era muito valioso. A mulher se foi e ele começou a trabalhar. Trabalhou durante toda a noite e quando a mulher bateu na porta, cheia de aflição, ele estava arrematando a última pedra preciosa. O sapatinho era que nem um mimo, uma lindeza.

A mulher enrolou o sapatinho no lenço e correu até a praça, misturando-se com as pessoas do povo que tinham ido assistir o enforcamento.

Daí a pouco deram o sinal, entrou o rei com soldados, o moço, as testemunhas e o marido. O carrasco chegou, com um capuz na cabeça, que ninguém deve ver o rosto do carrasco. Ele fez o marido subir no patíbulo.

***

– O que é patíbulo?

– É o lugar onde se executa o condenado.

***

O rei, antes de dar o sinal, perguntou se ele tinha algum pedido a fazer, como era costume naquele tempo. Ele não quis. Então o rei levantou a mão e o carrasco foi andando até onde estava a corda. A mulher gritou:

– Esperem!

Todos se olharam, o carrasco parou e o rei baixou o braço.

– Esperem! Majestade, exijo justiça! Meu marido vai morrer por minha culpa mas também deve morrer meu sedutor.

O rei perguntou:

– O que aconteceu?

– Majestade, na noite em que ele entrou no meu quarto, roubou o outro pé do meu sapatinho.

Aí ela abriu o lenço e todos se mostraram maravilhados. O moço se perturbou e falou gaguejando:

– Mas eu nunca estive no seu quarto!

E o rei:

Então, como descobriu o seu sinal?

O moço se perturbou mais ainda e acabou tendo que confessar o que acontecera. O marido ficou muito feliz com a astúcia da mulher. O rei mandou que trocassem o marido pelo moço, deu o sinal e ele foi enforcado.

O casal viveu muito tempo e a mulher foi virtuosa até o fim de seus dias.

 Do livro Conta Outra, Vó, por Jorge Teles. 

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