Conta outra, vó – O ladrão ladino (2)

Um dia, o nosso ladrão descobriu que o dinheiro já estava no fim. Resolveu fazer algum roubo, de modo que não passassem necessidade. Resolveu roubar no castelo do rei. Foi no castelo e disse que queria ser guarda do rei. O capitão, vendo aquele moço forte e bonito, resolveu aceitá-lo e dali a algum tempo, ele estava servindo na sala do tesouro. Ora, no lugar da porta de ferro, tinham feito uma armadilha, uma espécie de moinho com pás de metal afiado, afiado que nem faca, e quem quisesse entrar por aquela porta seria cortado em pedaços. Daí, o ladrão estudou bem aquela engrenagem e não quis mais servir no castelo.

Aí ele entrou de noite no castelo e foi até a sala do tesouro. Pegou um ferrinho e enfiou num buraco que tinha descoberto e a roda parou. Entrou na sala com muito cuidado, sem esbarrar nas pás afiadas porque ele sabia que se elas se mexessem um pouquinho, haveria de quebrar o ferrinho e ele seria cortado em pedaços. Roubou algum ouro e, depois de sair, retirou o ferrinho. As pás voltaram a rodar.

Levou o dinheiro pra casa e era tanto ouro no castelo que ninguém deu pela falta.

E assim foi, durante muito tempo. Ele ia, parava a roda, entrava e roubava e tudo ficava tal e qual, indo pra casa.

Aconteceu que certa vez o pai quis roubar com ele. Ele disse que não porque era muito perigoso. O pai tanto teimou e tanto insistiu que ele resolveu levar.

Foram em silêncio, entraram no castelo por uma entrada que só ele conhecia e chegaram à sala do tesouro. O ladrão parou a roda e disse ao pai para ter cuidado. Entraram e o pai maravilhou-se e encheu os bolsos. Na hora de sair o filho saiu primeiro e o pai saiu depois. O velho tinha tanto ouro nos bolsos que se atrapalhou e bateu o pé numa das pás e a roda começou a rodar e tocou uma sirene bem forte e o filho não teve outro jeito se não fugir antes que os guardas chegassem.

Em casa ele contou à mãe e às irmãs o que tinha acontecido e elas choraram muito. Aí ele falou que não era pra dizer nada a ninguém.

Acontece que o rei queria saber quem era aquele homem que tinha entrado na sala do tesouro e não tinha conseguido sair. Resolveu fazer um cortejo com os pedaços do corpo em cima de um carro de boi. Na casa onde tivesse gente chorando, seria ali.

Quando o ladrão soube disso, contou para a mãe e as irmãs e pediu que não chorassem alto quando o corpo passasse.

Todos ficaram nas janelas e ao verem o corpo todo estraçalhado, em pedaços, a mãe e as irmãs começaram a berrar muito alto. O cortejo parou e os guardas bateram na porta.

O ladrão correu então à cozinha, pegou um facão e

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cortou uma falange do mindinho. Começou a espirrar sangue e ele correu para abrir a porta. Os soldados perguntaram porque aquela choradeira.

– Ah, seu guarda. Essas minhas irmãs são umas choronas. Imagine que aprontaram tamanho berreiro só porque eu cortei esse pedaço do dedo.

Aí apontou a mão com o sangue espirrando e os guardas foram embora.

Daí que o rei não conseguiu saber quem tinha sido aquele homem. Mandou que os soldados colocassem o corpo na praça, para que todos vissem. E de noite tinha uma guarda especial, pra não deixar roubarem os pedaços do corpo.

Ora, o moço prometeu pra mãe e pras irmãs que ia roubar o corpo do pai. Arranjou um carrinho de duas rodas, desses puxados por cabrito. Comprou dois bodes bem fedorentos. Amarrou os bodes no carrinho e amarrou nos rabos dos bodes dessas bombinhas de São João. Aí ele apanhou um saco de pano, jogou nas costas e esperou dar a meia-noite.

Quando deu a meia-noite, ele foi bem devagarinho até um canto escuro da praça. Os soldados falavam alto e jogavam dados. Também assoviavam, pra afugentar o medo. Aí o ladrão acendeu as bombinhas e segurou firme no carrinho. Quando elas começaram a estalar, os bodes começaram a berrar e a correr feito loucos e ele deu gargalhadas e os soldados pensavam que era o diabo que queria aquele corpo e se borraram de medo. Os bodes corriam e berravam e as bombinhas estalavam e o ladrão dava gargalhadas igual ao diabo

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e os guardas sairam correndo. Aí ele saltou do carrinho e pegou os pedaços do pai e enfiou no saco e se escondeu no escuro e fugiu pra casa.

Os bodes continuaram feito loucos por um tempo e os guardas cagões continuaram escondidos. Daí que as bombinhas acabaram e os bodes pararam e os guardas vieram ver e outros guardas chegaram porque tinham escutado a barulheira e todos viram com espanto que o corpo tinha sumido.

O rei ficou furioso e mandou dar chicotadas nos guardas medrosos. Resolveu descobrir um jeito de encontrar o ladrão do corpo.

É aí que a mãe-benta entra na história.

A mãe-benta era uma negra velha, muito ladina. Um tipo de feiticeira, descobria tudo.

O rei mandou os soldados vigiarem as estradas pra ninguém fugir com o corpo em pedaços. Enterrar no quintal o moço não podia, porque não era chão sagrado. Aí ele resolveu enfiar os pedaços do pai num barril cheio de enxúndia. Separou o barril dos outros que tinham gordura, toicinho, carne cozida, linguiça, e tampou com uma tampa.

Aí a mãe-benta, que era ladina e um tipo de feiticeira, sonhou com aquilo tudo. Com os pedaços do pai, com a gordura, com os barris, e falou pro rei. O rei disse assim:

– A senhora vai visitar todas as casas, dizendo que procura a melhor enxúndia, que o rei quer comprar. Quando descobrir o barril com o corpo, guarda bem qual foi a casa e volta pra me avisar. Hei de prender esse ladrão.

No dia seguinte a mãe-benta começou a visitar casa por casa. Entrava e dizia que estava procurando enxúndia para o rei, queria a mais boa de todas. Cheirava e fuçava e mexia com uma colher de pau. Depois ia pra outra casa. Foi assim que ela chegou na casa do ladrão.

A mãe-benta era ladina mas o ladrão também era. Ela veio entrando, mancando, farejando o ar que nem bicho do mato. Esqueci de dizer que ele tinha prendido a mãe e as irmãs no quarto e mandou que não dessem um pio.

Aí a mãe-benta mexeu no primeiro barril, tinha só gordura, mexeu no outro, tinha toicinho, mexeu no outro, tinha carne cozida, mexeu no outro, tinha linguiça e ficou faltando o último, que estava mais longe e tinha os pedaços do pai no meio da enxúndia que ia até a metade do barril.

A mãe-benta destampou o barril e o moço olhou nos olhos dela. Ela riu um riso matreiro e seus olhos brilharam. Ele percebeu logo que ela tinha descoberto tudo. Mais que depressa, segurou ela pelos pés e enfiou ela dentro do barril. Apertou a tampa e sentou em cima. A mãe-benta era anãzinha, já encarquilhada que só ela, e foi afogada pela gordurama. Quando o ladrão viu que a mãe-benta tinha morrido, pulou no chão, abriu a porta do quarto e disse que a velha escrava tinha ido embora sem desconfiar.

E de noite ele levou o barril até o rio e amarrou bem pra não destampar e jogou tudo dendágua. Falou pra mãe e pras irmãs que tinha enterrado o pai em terra santa.

Daí que o rei nunca mais teve notícias da mãe-benta dele.

Do livro Conta Outra, Vó, por Jorge Teles.

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