Conta outra, vó – O enigma

Nota: Historinhas em que o irmão mais novo, às vezes tido como bobo, leva a melhor, existem aos montes na literatura popular do mundo inteiro. Dentre as que eu conheço, a mais elaborada e mais poética é o maravilhoso relato bíblico da história de José.

Historinhas em que um enigma é apresentado ao herói, sob pena de um grande castigo, em caso de erro, e com um grande prêmio, em caso de acerto, também são muito comuns. A de Édipo foi a que atingiu uma das mais altas expressões na literatura. Decifra-me ou te devoro, dizia a Esfinge aos passantes. Édipo desvendou o enigma, ganhou um reino com rainha e tudo, mas por trás dessa vitória o destino o premiava com a trágica fatalidade que ele acreditava estar evitando.

Este pequeno conto de minha vó é parecido com a vida que ela viveu; ingênuo, humilde, despretencioso. O relato mínimo, expurgado de devaneios, imagens poéticas ou elucubrações sobre o destino humano. A simplicidade absoluta, para crianças que estão começando a compreender o mundo.

***

Era uma vez três irmãos. O mais velho, o do meio e o mais pequeno. Tudo que os dois grandes queriam fazer, o pequeno também queria mas ele era meio abobalhado e atrapalhava tudo e os irmãos batiam nele e passavam pito.

Uma vez os dois irmãos resolveram ir na cidade porque a princesa ia falar um enigma e quem adivinhasse ia casar com ela e ganhar a metado do reino. Mas, se não acertasse, ia ficar escravo no palácio.

Aí o caçula disse que também ia. Os irmãos brigaram muito e falaram pro pai que ele ia atrapalhar tudo e que não queriam ter que cuidar de um irmão abobalhado.

Mas o pequeno tanto tez e tanto fez, que o pai deixou e os três se foram.

Aí os dois iam andando na frente e o caçula ia atrás. E qualquer coisinha que ele via ele parava e chamava:

– Manos, olhem o que eu achei.

E os irmãos ralhavam:

– Bobo bobo, não podemos nos atrasar.

Aí o pequeno achou um ninho de passarinho com três ovinhos.

– Manos, olhem o ninho que eu achei com três ovinhos.

Os irmãos ralharam:

– Bobo bobo, não podemos nos atrasar.

Aí ele pegou os ovinhos e guardou no bolso.

Daí a pouco, ele achou um pauzinho.

– Manos, olhem o pauzinho que eu achei.

Os irmãos ralharam:

– Bobo bobo, não podemos nos atrasar.

Aí ele guardou o pauzinho no outro bolso.

Daí a pouco, ele achou uma bostinha de vaca.

– Manos, olhem a bostinha que eu achei.

Os irmãos ralharam:

– Bobo bobo, não podemos nos atrasar.

Aí ele guardou a bostinha no bolso da camisa e chegaram ao palácio.

Era um de cada vez e ninguém tinha acertado o enigma da princesa.

Aí o irmão mais velho foi e errou. Foi o outro e errou. E foi o caçula.

Ele entrou na sala e viu a princesa. Ela gritou assim:

– Estou com fome!

Ele mostrou os ovinhos e disse:

– Frita estes três ovinhos.

– Não tenho com que mexer!

Ele mostrou o pauzinho e disse:

– Mexe com este pauzinho.

– Ah, vai à merda!

Ele mostrou a bostinha e disse:

– Tome!

Aí ele casou com a princesa e tirou os irmãos do cativeiro e foram felizes para sempre.

Do livro Conta Outra, Vó, por Jorge Teles. 

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