Bye, bye, Phil Everly

Quando, em setembro de 1981, Paul Simon e Art Garfunkel fizeram seu monumental show de reencontro no Central Park de Nova York, diante de meio milhão de pessoas, 11 anos após terem se separado, cantaram, ainda no início do espetáculo, logo após “April come she will”, a música “Wake up, Little Susie”, para alegria da multidão.

Mais tarde, um crítico mal humorado escreveria que era meio ridículo ver aqueles dois senhores maduros, entrando na faixa dos 40 anos, cantando uma canção em que o narrador é adolescente, falando de seu namoro adolescente.

Crítico mal humorado é uma das coisas ruins da vida. Simon e Garfunkel devem ter se divertido à beça cantando para a vasta multidão a canção que eles ouviram quando eram adolescentes.

zzeverly1“Wake up, Little Susie” foi lançada em um compacto simples em setembro de 1957 pelos Everly Brothers, quando tanto Simon quanto Garfunkel tinham 16 anos de idade, e muito provavelmente ainda não tinham tido a experiência que teve o narrador, o namorado da Little Susie, de cair no sono ao lado do broto. O disquinho dos Everly Brothers com a música ficou 20 semanas entre os 40 Hits da Billboard, tendo chegado ao primeiro lugar.

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Quando, em 1970, Bob Dylan lançou seu segundo álbum duplo, Self Portrait, recheado de músicas de outros compositores, inclusive “The Boxer”, de Paul Simon, do quinto e último álbum de estúdio de Simon & Garfunkel, ele incluiu “Take a message to Mary”.

A crítica quase unanimemente meteu o pau em Self Portrait. Os críticos esperavam do bardo novas canções fortes, marcantes, hinos de guerra que ensinassem à geração que bebia Dylan como cristão bebe a Bíblica, e muçulmano, o Corão, o que fazer naqueles tempos conturbados, que direção tomar.

Crítico é um troço chato. Quer que o artista produza o que ele, crítico, quer, e não o que o artista deseja exprimir – e naquele momento tudo o que Dylan queria dizer na vida é que ele não era aquela persona que os outros haviam criado para ele – não era o profeta da Grande Revolução, não era o líder da contestação ao Sistema, não queria ser o responsável por fazer soar o toque de batalha. No, no, no, no, Babe – it ain’t me, Babe.

“Take a message to Mary”, uma canção deliciosamente adolescente, deliciosamente inocente, naïf, sobre um pobre coitado que assaltou uma diligência no Velho Oeste, foi pego com a mão na botija e preso, e então pede a um amigo que diga para Mary que ele não vai poder se casar com ela, é de autoria de um simpático casal, Felice & Boudleaux Bryant, os dois nascidos em pequenas cidades interioranas, ela do Wisconsin, em 1925, ele da Georgia, em 1920.

Felice & Boudleaux Bryant escreveram dezenas de músicas que tiveram grande sucesso, como, por exemplo, a já citada “Wake up, Little Susie”.

Gravada pelos Everly Brothers em abril de 1959, “Take a message do Mary” também ficou entre os Top 40 Hits da Billboard; foi dos discos mais vendidos durante 8 semanas.

(Os links deste post levam para as músicas no YouTube.)

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zzeverly2Quando, em 1993, James Taylor e Art Garfunkel resolveram juntar, misturar suas duas maravilhosas vozes, aquelas vozes divinamente perfeitas para cantar sweet songs com soft guitars, escolheram uma música de uma amiga comum, Carole King, “Crying in the rain”. A pérola saiu no álbum de Art Garfunkel daquele ano, Up ‘Til Now.

Os Everly Brothers haviam gravado “Crying in the rain” em janeiro de 1962. O disco ficou 9 semanas entre os Top 40 Hits da Billboard.

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Quando, em 1979, o genial Bob Fosse e seu diretor musical não menos brilhante, Ralph Burns, decidiram como encerrar All That Jazz, o filme abertamente autobiográfico do coreógrafo e cineasta, tiveram a idéia de usar “Bye Bye Love” – mediante uma mínima substituição de sílabas. All That Jazz se encerra com “Bye Bye Love” cantada como “Bye Bye Life”; o verso que diz “I think I’m gonna cry” virou “I think I’m gonna die”.

A versão, com arranjo de Ralph Burns, é estrondosamente magnífica.

“Bye Bye Love”, de autoria de Felice & Boudleaux Bryant, havia sido gravada antes por Simon & Garfunkel, no já mencionado último álbum de estúdio da dupla, o Bridge over Troubled Water, de 1970, o mesmo ano de Self Portrait em que Dylan canta “The Boxer”.

“Bye Bye Love” não pára de ser regravada nunca. Em seu maravilhoso, delicioso disco de 2012, The Blue Room, Madeleine Peyroux fez um cover fantástico da canção.

Quando os Everly Brothers lançaram o compacto simples com “Bye Bye Love”, em maio de 1957, o disco ficou 22 semanas na lista dos US Top 40 Hits da Billboard.

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zzeverly3Os Everly Brothers são hoje talvez bem menos conhecidos, reconhecidos, reverenciados, do que outros dos pioneiros do rock’n’roll dos anos 50, como Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Roy Orbinson, Buddy Holly – para não mencionar, é claro, Elvis.

Como o narrador da única canção gravada em trio por Paul Simon-Art Garfunkel-James Taylor, “(What a) Wonderful World”, de Herb Alpert-Lou Adler-Sam Cooke, não entendo nada de coisa alguma, mas acho que dá para dizer que tudo o que veio depois dos anos 50, no que chamamos de rock, que tem a ver com harmonia, com vocalização, com estrutura melódica, se deve a Roy Orbinson, a Buddy Holly e aos Everly Brothers.

(Quem viu o filme A Testemunha/Witness, de Peter Weir, de 1985, com Harrison Ford e Kelly McGillis, deve se lembrar da canção “(What a) Wonderful World”. Ela toca no rádio do carro do personagem de Harrison Ford, e ele pega a quaker feita pela belíssima Kelly McGillis para dançar.)

A memória é curta, surge coisa demais a cada dia, e então, neste início de 2014 em que Phil Everly morreu, aos 74 anos de idade, seguramente pouca gente se lembra da importância da dupla.

É uma importância extraordinária.

Para mim, pessoalmente, basta saber que Simon & Garfunkel fizeram seu duo – o mais belo encontro de vozes da música popular do século XX – calcado em cima de seus ídolos.

Mas a importância dos Everly Brothers não se mede, evidentemente, apenas pela minha admiração por Simon & Garfunkel.

O livro The Billboard Book of US Top 40 Hits mostra que a dupla conseguiu colocar nas paradas de sucesso nada menos que 26 discos. Destes, 24 foram lançados num período de apenas cinco anos, entre 1957 e 1962.

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A relação entre os dois irmãos de vozes que se harmonizavam perfeitamente jamais foi harmônica. Brigaram muito, ao longo da vida; desentenderam-se, separaram-se – assim como o duo que influenciaram tremendamente.

Assim como, depois de muita briga, muito falatório, Simon e Garfunkel voltaram sempre a gravar juntos, assim como os viciados sempre, sempre, sempre voltam, os irmãos Don e Phil voltaram a gravar, após anos de separação, em 1984. Fizeram um disco com o título de EB84. É uma coisa absolutamente fora de série. O disco abre com uma canção composta especialmente para a ocasião por um fã absoluto, Paul McCartney. Macca é foda, Macca é absurdamente querido pelas musas, e então criou para o duo que o influenciou quando era adolescente uma canção extraordinária, “On the wings of a nightingale”. Don e Phil podem brigar muito, mas não são tão imbecis a ponto de se desentenderem na hora de cantar uma canção escrita especialmente para eles por Paul McCartney, e então “On the wings of a nightingale”, que abre o disco, já vale o preço do próprio – se é que alguém se lembra de que antigamente a gente tinha que pagar para levar um disco para casa.

Nesse mesmo disco, os irmãos de vozes harmônicas, embora de personalidades briguentas, regravaram duas canções de Bob Dylan – como se para agradecer a ele a gentileza de ter, lá no passado, gravado uma música de seu repertório. Ouso dizer que a gravação dos Everly Brothers de “Lay, lady, lay”, consegue ser ainda mais bela que a de Nina Simone. E a versão deles para “Abandoned Love” é ainda mais bela que a do próprio autor, que é maravilhosa.

5 de janeiro de 2013

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