Batendo na porta do céu

Bob Dylan e Paul Simon bateram na porta de Deus praticamente ao mesmo tempo. Uma diferença de dois anos – o primeiro numa canção de 1973, o segundo em 1975. Uma diferença mínima; quase nada, ainda mais agora, já tanta água passada sob a ponte.

Água, ponte: os dois velhinhos geniais também falaram desse mesmo tema. Em 1970, aos 29 anos, no disco que seria o último em estúdio da parceria com o amigo de adolescência Art Garfunkel, Paul Simon fez aquela bela canção de solidariedade, em que oferece o ombro e o que mais a amiga quiser para ajudá-la a transpor os tempos difíceis: like a bridge over troubled water I will lay me down.

Trinta anos depois, em 2000, num raríssimo caso de canção construída sob encomenda, Dylan brincaria com a passagem do tempo, e as mudanças que ela traz, tema de uma de suas canções mais famosas do início dos anos 60, um dos hinos de toda uma geração mundo afora, “The Times, They Are A-Changin’”. Em “Things have changed”, composta para o filme Garotos Incríveis/Wonder Boys, de Curtins Hanson, o sujeito diz o seguinte:

People are crazy and times are strange

I’m locked in tight, I’m out of range

I used to care, but things have changed. (…)

Lot of water under the bridge, lot of other stuff too

Don’t get up gentlemen, I’m only passing through.

Estava bem, naquele momento, naquele ano de 2000, em que deu de presente para Curtis Hanson essa canção. Até participou, com uma carinha alegremente safada, de um clipe, realizado pelo próprio diretor, em que se mistura a cenas do filme – com Michael Douglas, Tobey Maguire, Frances McDormand, uma Katie Holmes jovenzinha demais. “Things have changed” acabaria ganhando o Oscar de melhor canção, o primeiro e muito provavelmente o único Oscar de Dylan. Ele estava se apresentando ao vivo na Austrália, no exato momento em que a Academia fazia seu show. Baita coincidência.

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zzzzheaven2A primeira vez que Bob Dylan bateu nas portas do céu foi também em uma canção composta especialmente para um filme.

A geração da minha filha conheceu “Knockin’ on heaven’s door” por causa de uma gravação dos Guns’n’Roses; Fernanda tinha o LP, e o cover da banda não chega a ser feio, de forma alguma.

Na verdade, “Knockin’ on heaven’s door” provou-se uma das canções mais gravadas e regravadas desse compositor que todo mundo adora gravar; Eric Clapton fez um cover extraordinário, transformando a canção em um reggae; Brian Ferry, outro, extremamente diferente, dentro de seu próprio estilo cool e suavemente glitter, é claro. Para mim, pessoalmente, tão boa quanto a versão original de Dylan, no álbum da trilha sonora de Pat Garrett & Billy the Kid, de 1973, só a gravação dos ultra-doidões Leningrad Cowboys.

Em “Knockin’ on heaven’s door”, a fala é de um homem cansado, exausto, exaurido, exangue, quase moribundo, que, portanto, já deixou de lado qualquer tipo de vaidade, de orgulho pessoal. Tudo o que deseja, tudo o que espera, é que abram para ele a porta do céu.

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O sujeito que bate à porta da igreja na canção “Some folks’ lives roll easy” – que está no álbum Still Crazy After All Those Years,

zzzzheaven5Lançado por Paul Simon em 1975, dois anos de Pat Garrett & Billy the Kid – parece muito mais vivo que o narrador da outra canção. E vivo nos dois sentidos – de em vida, ou seja, não morrendo, e de espertalhão. Ele se relaciona com o Criador como um malandro carioca do nosso imaginário de como teriam sido os malandros cariocas de terno de algodão dos anos 50. Chega para Deus como se a igreja fosse a loja em que Deus vendesse seus produtos, tudo baratinho, 1,99, five and dime.

And here I am, Lord

I’m knocking at your place of business

I know I ain’t got no business here.

Paul Simon se apresenta muito malandro, muito seguro de si, para o Senhor. Mas, em seguidinha, mostra seus receios, suas incertezas – a malandragem, a segurança, é talvez uma forma de ocultar os medos profundos:

But you said If I ever got so low

I was busted,

You could be trusted.

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Tão bela quanto essas conversas de Bob Dylan e Paul Simon com Deus, me parece, é a de Leonard Cohen.

Se em “Knockin’” Dylan faz um narrador exangue, e em “Some folks…” Simon dá uma de malandro da cidade grande, em “Lover lover lover” Leonard Cohen resolve enfrentar o Pai de cara, de frente. De igual para igual – ou quase:

zzzzheaven4I asked my father

I said, “Father change my name”

The one I’m using now it’s covered up

With fear and filth and cowardice and shame

Then let me start again,” I cried

“Please let me start again

I want a face that’s fair this time

I want a spirit that is calm”

Um sujeito que vira para o Criador e pede, na maior, para ele uma cara mais bela e um espírito mais calmo tem que ser respeitado.

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Estranho – ou não: Dylan, Simon e Cohen são judeus. O que, como diria o Ancelmo Gois, não é nada, não é nada – não é nada. Poderiam ter a pele negra. Poderiam ser albinos, como Hermeto e Sivuca. Ou católicos. E daí? O importante é que são grandes, imensos.

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Dylan, o maior de todos, voltaria a bater na porta do céu. Em 1997, em seu disco Time Out of Mind, uma maravilha, um espetáculo, seu melhor disco em mais de uma década, ele gravou “Trying to get to heaven”. A melodia é tristíssima, e riffs de guitarra e batidas no tambor da bateria realçam um tom quase de dirge, de canção fúnebre. A voz do homem, que já era roufenha, fanha, quando ele estreou em disco, aos 21 anos de idade, na época, aos 56 anos com muito cigarro dos vários tipos, estava quebrada – mas linda como sempre. E, ao contrário do que muitas vezes faz nas gravações ao vivo, pronuncia claramente cada fonema – ou, no mínimo, o mais claramente possível.

E ele diz:

They tell me everything is gonna be all right

But I don’t know what “all right” even means

E faz alguns dos versos mais doídos, mais tristes, e mais extraordinariamente belos, de sua obra ciclópica:

When you thing that you’ve lost everything

You find out you can always lose a litte more.

I’m just going down the road feeling bad,

Trying to get to heaven before they close the door.

Ah, vai dar, meu.

Os discos de Dylan, Simon e Cohen deveriam vir com uma advertência. O Ministério da Saúde avisa: este produto pode provocar inveja mortal em qualquer pessoa que goste de mexer com palavras.

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zzzzheaven1No seu extraordinário disco de 2008, Joan Baez fez uma gravação maravilhosa de “God is God””, de Steve Earle. Um dia inda pretendo escrever sobre essa canção.

Aí vão links para algumas gravações disponíveis da rede:

A  versão original de “Knockin’ on heaven’s door”, do álbum de 1973, trilha sonora do filme de Sam Peckimpah.

A extraordinária, emocionante versão da jovem Avril Lavigne – de chorar!

“Some folks’ lives roll easy”, na versão original do álbum Still Crazy After All These Years.

“Lover Lover Lover” ao vivo em Tel Aviv, em 2009.

 

Agosto de 2014

Um comentário para “Batendo na porta do céu”

  1. Bom texto, os três idolos poderiam de novo bater na porta do céu e levar aos sue dono uma canção que falasse das atitudes bélicas desproporcionais.
    Os superlativos a Lavrine são merecidos, ótimo o clip.

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